Cine Samurai – “Trono Manchado de Sangue”

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    Link para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/kung-fu-fighting.html

    Trono Manchado de Sangue (Kumonosu-jō – 1957)

    Na primeira das três adaptações de Shakespeare realizadas
    por Akira Kurosawa, o mestre inteligentemente transfere Macbeth para o cenário do
    Japão feudal, utilizando o tradicional teatro Nô, que transmite variados níveis
    de emoção através de máscaras expressivas, porém estáticas, além de movimentos
    sutis e delicados do ator no palco, espalhando pela obra um verniz de lirismo
    que nunca seria alcançado pela estética tradicional.

    Essa escolha corajosa combina perfeitamente com os elementos sobrenaturais da
    trama, tornando grandioso e psicologicamente representativo até mesmo o simples
    ato de lentamente ajoelhar, quando executado após uma decisão importante tomada
    pelos personagens de Toshirô Mifune e Isuzu Yamada. É incrível perceber como o
    rosto de Yamada, inexpressivo como uma máscara na maior parte do tempo,
    consegue se transformar na pura face da loucura e do sentimento de culpa, na
    espetacular cena em que ela freneticamente tenta limpar suas mãos do sangue que
    somente ela enxerga.

    Movido pela cobiça, estimulada pela profecia que escuta de um espírito na
    floresta, Washizu (Mifune) inicia uma escalada trágica, gradualmente destruindo
    seus princípios, esquecendo qualquer conceito de honra. Teria ele sido vítima
    de seu inescapável destino, ou, como o roteiro aponta, teria sido dilacerado
    por sua própria índole torta? Reflexão que conduz ao clássico desfecho, onde o
    homem que conquistou tudo o que quis é, enfim, levado a compensar sua desonra
    com o próprio sangue. O impactante não é somente o balé de inúmeras flechas
    atravessando seu corpo, isso é pouco perto do olhar da vítima, transmitindo um
    misto de descrença e intenso pavor.

    Ele, em seu orgulho, nunca iria imaginar que os pássaros que invadiram seu
    castelo, um fenômeno que o incitou ao deboche, estavam assustados devido aos
    guerreiros que cortavam as árvores na floresta, preparando a estratégia para a
    batalha que o consumiria. A força mítica da imagem das árvores se movendo
    contra o castelo, apenas a teatralidade poderia dar um fim digno para aquele
    que utilizou o lúdico como inspiração para extravasar seus desejos por riqueza
    e glória.

    * O filme está sendo lançado, em versão restaurada, pela distribuidora Versátil.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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