“Círculo de Fogo”, de Guillermo del Toro

Círculo de Fogo (Pacific Rim – 2013)
Em qualquer forma de Arte, ignorar a proposta do autor é
avaliar de forma errônea o seu trabalho. Logo, afirmar que “Círculo de Fogo” é um
exemplo de estilo em detrimento da substância, nada mais é que constatar a
competência de Guillermo del
Toro naquilo que domina como poucos. A comparação imagética com “Transformers” serve
apenas para potencializar a forma desastrada com que Michael Bay,
um homem que mal sabe operar uma câmera, conduziu seu espetáculo. A beleza
elegante na criação do universo em que habitam os robôs gigantes e monstros,
assim como o refinamento no esperto roteiro, que apresenta seus personagens e
suas motivações de forma direta, utilizando referências de obras do passado, como “Godzilla”, “Evangelion” e até “Top Gun”,
sem que o foco seja alterado para a inserção de melodramas tolos. Vemos
claramente um adulto inteligente e criativo, brincando de resgatar sua criança
interior.
Um exemplo de como um diretor, também roteirista, com Travis
Beacham, visionário pode pegar um conceito tolo e desgastado,
transformando-o em algo relevante, foi a forma escolhida para fazer com que nos
importemos com os personagens humanos, normalmente caricaturais peões no
tabuleiro da fantasia. Eles pilotam seus robôs através de uma conexão mental,
porém, devido ao tremendo esforço cognitivo, recebem o auxílio de um colega, com
quem compartilham memórias e segredos. É interessante também a escolha por
subverter as expectativas, evitando as típicas ameaças alienígenas que escolhem
conscientemente atacar o planeta em tantos projetos similares. A invasão na trama é
despertada por uma ação natural do planeta. 

O diretor não se priva de abraçar os elementos
característicos, como os discursos inspiradores e o heroísmo inconsequente, mas
aborda-os com revigorante frescor. As cenas de batalha são empolgantes e de uma
beleza sem igual no gênero. Apesar do imenso escopo e da impossibilidade de
capturar no enquadramento tudo o que ocorre, a fotografia de Guillermo Navarro
orienta o espectador para o coração motivacional das cenas, sem cair na
tentação de confundir e esconder as falhas com um excesso de edição. Extremo
cuidado é direcionado ao contraste no trabalho da iluminação. Claro que tudo
não passa de um passeio num parque de diversões, mas com certeza muito satisfatório.

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