Rebobinando o VHS – “Difícil de Matar” / “Fúria Mortal”

Nessa maratona nostálgica durante as festas de final de ano,
postarei um texto por dia, totalizando dez, rebobinando antigos VHS’s de
variados gêneros e épocas, filmes não necessariamente bons, mas que, em sua
maioria, não foram lançados em DVD ou Blu-ray no mercado nacional. Obras que
estão embolorando na estante do tempo. Para aproveitar ao máximo a experiência,
os textos, breves e descompromissados, nascem após revisões no próprio formato.

Escolhi iniciar com dois filmes simbólicos da época em que
iniciei minhas garimpagens pelas locadoras de vídeo, após meu pai ter ganhado
numa rifa o estimado videocassete. Eu nunca gostei de Steven Seagal, detesto seus
filmes mais conhecidos: “A Força em Alerta 1 e 2”, mas os seus quatro primeiros
projetos são bons em seu gênero, especialmente “Marcado Para a Morte”, que já
abordei em um texto do especial “Kung-Fu Fighting”. Esses dois que escolhi
revisitar hoje não paravam nas prateleiras das locadoras. Era comum você
precisar assinar uma lista de espera com o atendente, que prometia ligar pra
você no exato momento em que as fitas fossem devolvidas. E ele ligava mesmo! A “RG
Vídeo Locadora”, que ainda resiste na Rua 28 de Setembro, em Vila Isabel, era
minha segunda casa, então eu esperava sempre a ligação do Ricardo, dono do
estabelecimento, que acabou se tornando amigo da família. Como era emocionante
chegar lá sem saber exatamente quais filmes estariam disponíveis, aqueles que
tinham fichas coloridas inseridas nos estojos. Eu ficava abraçado com aquelas
capas sem fichas, fazendo hora, na expectativa de que o cliente as devolvesse. Estava
me lembrando dessa época nessa tarde, enquanto abria o estojo e colocava a fita
pra rodar no aparelho, torcendo para que ela não estivesse desmagnetizada ou fosse
mastigada dentro da máquina.
Difícil de Matar (Hard to Kill – 1990)
Fúria Mortal (Out for Justice – 1991)
Um dos motivos que me fez unir os dois em um único texto é
que simplesmente não conseguia me lembrar das tramas ao final das sessões. Os
dois são sobre vingança. 
Em “Difícil de Matar”, o herói de fala mansa fica em
coma por sete anos, ostentando um cavanhaque risível, conseguindo a proeza de,
em seu estado vegetativo, despertar a paixão avassaladora de uma linda enfermeira
que se mostra emocionalmente despreparada e desastrada, vivida pela musa dos anos
oitenta: Kelly LeBrock, que estava casada com o ator na vida real. Ele sai do
hospital e, com pouco tempo de treino, consegue retomar toda sua habilidade nas
Artes Marciais, um conflito interno que o roteiro resolve em uma rápida
montagem. O diretor Bruce Malmuth, do bom “Os Falcões da Noite”, o projeto que
quase foi “Operação França 3”, também conhecido popularmente como o filme do
Stallone com barba, não consegue realizar algo acima do medíocre nessa fita. A
única cena interessante que consigo lembrar ocorre no primeiro ato, uma
pancadaria numa loja de conveniência, onde Seagal exibe toda a indisfarçável arrogância
que destruiu sua carreira e sua indiscutível perícia no Aikido. Adoro o momento
em que ele bate um papo tranquilo com o ladrão que o ameaça com uma faca,
chegando a se ajoelhar, convidando o marginal a tentar a sorte, pouco antes de transformá-lo
em uma espécie de Curupira norte-americano.  

Já em “Fúria Mortal”, Seagal interpreta basicamente o mesmo
personagem, como sempre, apenas inserindo um péssimo sotaque italiano e o hábito
estereotipado de beijar a face de seus amigos. Num ato que demonstra como ele é
um ególatra insuportável na vida real, ele exigiu que cenas de seu antagonista
fossem cortadas, já que eram defendidas por um ator de verdade: William Forsythe.
O diretor John Flynn emoldura todos os absurdos sem nenhum senso de humor, o
que acaba tornando tudo intensamente mais engraçado. O segundo ato é arrastado,
como se o roteiro estivesse sendo resolvido no dia das filmagens, mas melhora
no desfecho. O herói de fala mansa testemunha um motorista se desfazendo de um
cãozinho na estrada, elemento de ternura trabalhado no roteiro com mão de
pedreiro com Parkinson, conduzindo para uma cena final que seria descartada como
demagógica e inverossímil até em especiais televisivos de emissoras com baixo
orçamento. Mas, exatamente como o filme anterior, existe uma cena que redime o
espetáculo: a pancadaria no bar. Seagal quebrando dentes com uma bola de bilhar
vale o esforço de tentar induzir em seu subconsciente algum interesse no
desenrolar da trama. 

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