“Blind”, de Eskil Vogt

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    Blind (2014)

    O norueguês Eskil Vogt, em seu primeiro longa-metragem, consegue a proeza de nos transportar de forma original para a mente de uma mulher cega, vivida pela ótima Ellen Dorrit Petersen, operando menos na usual exploração das óbvias dificuldades locomotoras. O interesse está nas transformações internas, na angústia por querer ser mãe e no medo de não ser mais atraente para o marido. Somos conduzidos por sua narração, desafiados a entender o universo que se apresenta a nós de forma onírica, cortesia da fotografia de Thimios Bakatakis, misturando o real e o imaginário que ela cria como ponte para se reencontrar consigo mesma, através da percepção ampliada dela. É interessante, por exemplo, a forma como os personagens criados na mente de Ingrid se tornam mais inconsequentes quando ela está sob o efeito de alguns cálices de vinho.

    Sensacional a cena em que ela se despe sensualmente, imaginando seu marido a admirá-la na cama, quando o som das teclas de um laptop quebra a ilusão, fazendo-a perceber que ele estava totalmente focado em seu trabalho. E ao escutar os dedos dele tocando as teclas, ela sabe que o trabalho que a torna invisível aos olhos dele se resume a flertes românticos com estranhas. Ela então, num ato de incrível abnegação, fecha os olhos e finge dormir, mas não aguenta a mentira por muito tempo. O desfecho da cena, em tom sutilmente cômico, mostra a resistência dela confrontando a tentação virtual com a segurança sexual de uma mulher que reconhece ter perdido apenas um de seus vários sentidos. Por mais que o fantástico roteiro se perca em alguns momentos na fria distância em que analisa a personagem, bastam esses três belos minutos para que ela se conecte emocionalmente com o público.

    As crises existenciais continuam a atormentar, suas dúvidas ainda dominam grande parte de seus dias imersos na escuridão, mas ela já está mais preparada para fazer as pazes com seu corpo e com sua humana necessidade de carinho, aceitando sua situação e gradualmente entendendo que a reclusão não é a melhor solução.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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