Star Wars e Eu

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    Eu consigo me lembrar da reação que tive ao assistir pela
    primeira vez “O Retorno de Jedi”, aos sete anos, num VHS gravado de
    uma exibição na televisão. Não sabia nada sobre o filme. Foi uma reação de
    estranheza, já que parecia um show dos Muppets, com aquele adulto vestido de
    cachorro, mas o tom era sombrio demais. Eu tinha pesadelos com a imagem do
    Imperador, muito mais amedrontador que Darth Vader, que eu achava parecido com
    o vilão do Jaspion. Meu pai foi o responsável pela minha irreversível iniciação
    nos caminhos da Força, comprando, no distante ano de 1995, o box em VHS da
    trilogia, ainda intocada pelo seu criador. Somente aos dez anos é que fui
    assistir pela primeira vez o original e sua celebrada sequência, entendendo
    então a complexidade da saga de George Lucas. Eu via inúmeras vezes umas curtas
    entrevistas com ele, conduzidas pelo crítico americano Leonard Maltin, que
    iniciavam cada fita, pensando que eu adoraria ter aquela profissão, estar
    envolvido naquele mundo mágico de sonhos. Naquele ano eu me tornei um fã da
    saga, mas eu lembro que não tinha tanta coisa no mercado sobre os filmes, como
    bonecos, revistas em quadrinhos e álbuns de figurinhas. E eu já achava que
    estava bom demais, pois com minha imaginação, os bonecos dos “Comandos em
    Ação” se tornavam os heróis da Aliança Rebelde.

    Imaginem minha angústia quando, no final do mesmo ano,
    passeando em uma livraria com minha mãe, encontrei um exemplar de “Guerra
    nas Estrelas – A Última Ordem”, de Timothy Zahn, uma bíblia pesada com uma
    bela capa, os desenhos de Han Solo, Leia, Luke Skywalker e uma personagem que
    eu não conhecia. Eu não acreditei quando vi aquilo, o mercado naquela época não
    era tão generoso para os nerds. Lendo a contracapa, descobri que se tratava de
    uma trilogia, eu estava fadado a seguir em meu carma de iniciar pelo capítulo
    final. O livro era caro, tive que implorar pra minha mãe comprar, mas valeu o
    esforço. Numa época sem internet, tive que caçar informações sobre aquele
    produto. Cheguei a pensar que se tratava de uma novelização de algum novo filme
    que estavam produzindo. Meses depois de finalizar a leitura, descobri que era
    praticamente impossível encontrar os outros dois volumes, acabei desistindo.
    Após um ano e meio sem novidades sobre a saga, achei que nada iria me surpreender.

    Em 1997, com doze anos, vivi uma experiência que se recusa a
    sair de minha mente. Após descobrir por anúncios nos intervalos televisivos que
    a trilogia seria relançada nos cinemas, estava eu com meus pais no cinema do
    shopping center, o que era uma novidade pra mim, já que estava acostumado com
    os de rua, sem conseguir conter a ansiedade. Eu me lembro de ficar pulando de
    felicidade quando vi na banca de jornal, que ficava no mesmo andar das salas,
    uma edição enorme da Revista SET, especial sobre aquele relançamento, mostrando
    as modificações. Eu devorei a revista na longa fila de entrada, feliz com as
    insinuações de que haveria uma nova trilogia em breve. Era Natal fora de hora,
    foi uma das tardes mais felizes da minha infância. Escutar a trilha de John
    Williams na tela escura, assistir a grandiosidade daqueles personagens que
    cabiam com dificuldade na minha televisão de quatorze polegadas. Eu adorei as
    modificações dessa “Special Edition”, não sou da turma dos
    revoltados. Tenho ressalvas sobre algumas realizadas, vários anos depois, para
    os lançamentos em DVD, mas nada grave.

    Vivi intensamente o lançamento de cada novo episódio das
    prequels, acompanhando as notícias com mais tranquilidade nesse mundo
    maravilhoso da internet, acreditando que seria minha despedida daquela
    lembrança tão bacana da minha infância. Assisti o “Episódio 3” umas
    cinco vezes no cinema, com a mesma bonita melancolia do Andy ao se despedir dos
    seus bonecos ao final de “Toy Story 3”. Era mais que o desfecho de uma
    trilogia, simbolizava um aceno nostálgico para aquele garoto que fui outrora,
    numa realidade lúdica sem tantas dificuldades. Agora, já com trinta e um anos,
    estou tendo a sorte de poder viver novamente o fascínio da ansiedade por uma
    nova trilogia, com a presença daquele elenco original que foi o responsável
    pela conexão emocional dos fãs com o projeto. O novo episódio, intitulado
    “O Despertar da Força”, já está sendo vendido pelo ator Anthony
    Daniels, que faz C3PO, como a melhor sequência da saga. Torço para que o
    diretor J.J. Abrams capte a essência e acerte a mão. O que era sonho outrora,
    quando me via no lugar do Leonard Maltin, hoje é a minha realidade. Vivo o
    sonho. Já fui como Luke, vivendo uma realidade tremendamente chata e admirando
    os sóis de Tatooine, imaginando que desafios me esperavam naquelas estrelas.
    Aceitei encarar o desconhecido e, tenho certeza, a aventura da vida é
    espetacular, mesmo sem X-Wings e sabres de luz.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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