“Chegará o Dia” / “A Princesa de França”

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    Chegará o Dia (Un Giorno Devi Andare – 2013)

    A primeira cena já expõe o leitmotiv: um bebê em uma
    ultrassonografia. Uma memória que ela resgata à luz da lua. A ausência dessa
    criança na vida de Augusta, a bela italiana Jasmine Trinca, provoca nela um
    adormecer de todos os seus sonhos profissionais. Não é coincidência que ela
    seja constantemente chamada de princesa por um dos nativos, logo após uma cena
    em que vemos sua mãe assistindo uma orquestra apresentando a “Valsa da Bela
    Adormecida”, de Tchaikovsky.

    Ao rejeitar uma vida de luxo e encarar a simplicidade dos índios na Amazônia,
    ela coloca em prática uma lição que escuta no terceiro ato, sobre um cientista
    que disseca uma flor no intuito de descobrir sua origem, mas que nesse processo
    repetitivo e detalhista, ela acaba se perdendo. A jovem quer se perder, para
    obter um recomeço, isolando-se em uma ilha pessoal, buscando se amalgamar com
    os elementos da natureza, enquanto participa de uma missão religiosa. Os índios
    não entendem a necessidade de novos rituais diários que não fazem nenhum
    sentido, assim como custam a acreditar que o Deus dos brancos queira salvá-los
    de uma rotina que lhes é prazerosa. Como a protagonista afirma, num dos
    melhores momentos do filme: São almas livres e puras que sorriem de volta, sem
    interesse financeiro algum. Não existe necessidade para salvamento, ainda que
    os pastores gananciosos nas velhas televisões berrem a existência de demônios.

    A crítica à imposição de valores é muito eficiente, mas infelizmente se perde, como quase tudo no filme, no meio do caminho. O diretor Giorgio Diritti abre
    várias possibilidades, o tráfico de bebês sendo o tema de maior potencial, mas
    parece não saber exatamente como finalizá-las, desistindo delas no terceiro
    ato. Ainda assim, o projeto ganha pontos com a maravilhosa fotografia de
    Roberto Cimatti, que me pareceu em alguns momentos, inspirada pela fagulha
    criativa do “príncipe da escuridão” Gordon Willis.

    A Princesa de França (La Princesa de Francia – 2014)

    Nesse terceiro projeto experimental e minimalista abordando
    a obra de Shakespeare, nesse caso “Trabalhos de Amores Perdidos”, o diretor argentino Matías Piñeiro volta a trabalhar com boa parte do elenco jovem dos anteriores, numa trama que
    envolve um jovem diretor de teatro que, após a morte do pai, decide resgatar
    seu passado ao convidar algumas mulheres importantes em sua vida para montar
    uma adaptação da peça para o rádio da internet. Inicialmente ficamos confusos
    tentando distinguir cada uma delas, discernindo as falas memorizadas da atriz
    em ação e o discurso natural, compreendendo qual a importância delas na vida
    dele.

    O roteiro é composto basicamente de longos diálogos, defendidos sem muito
    sentimento, emoldurados por planos-sequência onde claustrofobicamente quase
    podemos sentir o hálito dos personagens, fazendo com que a curta duração, por
    volta dos setenta minutos, acabe parecendo uma eternidade. O que, nesse caso,
    não é exatamente um demérito, já que sua estrutura que alterna presente e
    passado, realidade e ficção, gravações e ensaios, transforma cada diálogo em
    uma peça dessa espécie de quebra-cabeça indie.

    A atmosfera de cada cena é que move a trama, não o desenvolvimento dos
    personagens, que, ao rolar dos créditos finais, continuam uma incógnita. Então,
    mesmo que de forma sonolenta, somos desafiados a olhar tudo com mais atenção. O
    resultado dessa abordagem, fria e discreta em excesso, não deixa de ser
    curiosa, sobre a influência das linhas do bardo inglês na vida de uma geração
    que absorve e, mais que isso, reinventa seus trabalhos.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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