“O Jogo da Imitação”, de Morten Tyldum

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    O Jogo da Imitação (The Imitation Game – 2014)
    Com o filme recebendo maior atenção por causa de suas
    indicações no Oscar, acho válido ressaltar a importância do nome Harvey
    Weinstein nessa equação. Sem os usuais trambiques do produtor nas campanhas de
    bastidores, essa produção receberia a atenção comum de um bom drama biográfico,
    defendido por uma atuação correta de Benedict Cumberbatch, com mais
    características de comportado telefilme, apenas isso. É compreensível essa
    condução esquemática, já que o diretor Morten Tyldum tem muita experiência em
    projetos televisivos.

    O roteiro, ponto mais deficiente, é escrito por Graham Moore, que tem no breve
    currículo o curta “Piratas Vs. Ninjas”. Não há nada na execução que estimule o
    interesse, uma trama não se sustenta sozinha, ainda mais quando a estrutura
    convencional apela para todos os clichês estabelecidos em produções baseadas em
    histórias reais. O espectador atencioso antecipa cada solução, como na
    apresentação da personagem de Keira Knightley. A única mulher na turma, que
    chega atrasada e, com todo o elenco abusando dos diálogos expositivos, vira
    alvo do preconceito dos rapazes, para que, minutos depois, ela surpreenda a
    todos sendo a mais eficiente. Ao invés de tornar os personagens críveis, com
    sólidas motivações, o roteiro os trabalha como caricaturas, soltando frases de
    efeito de livro de autoajuda.

    O símbolo dessa deficiência é a repetição tola do mantra sobre as pessoas que
    fazem coisas que ninguém consegue imaginar, com poucos minutos de diferença,
    subestimando tremendamente a inteligência e a memória do espectador. E, para
    piorar, em ambos os momentos servem como moldura de situações completamente
    demagógicas, ativando o sensor do piegas. Esse elemento soa deslocado em uma
    trama adulta, assim como alguns alívios cômicos bobinhos. Um momento de
    revelação importante, onde as peças no tabuleiro encontram o estímulo para a
    difícil tarefa, perde toda a carga emocional ao ser desviado para uma reação
    debochada da personagem de Knightley, como se estivéssemos assistindo uma
    produção voltada para o público infanto-juvenil. A opção pela narrativa
    não-linear, por incompetência do roteiro, ajuda a confundir e acaba
    atrapalhando ainda mais a conexão emocional com a trama e com os personagens.
    Aos quarenta minutos, a sensação de cansaço convida à sempre temida checagem
    das horas, quando, como em todo início de segundo ato, deveríamos já estar
    salivando pelo desenvolvimento dos conflitos apresentados.

    Quando acreditava que Moore já tinha riscado todos os clichês do manual, somos
    apresentados a uma desastrada cena em flashback, mostrando o jovem
    protagonista, obviamente compenetrado em um livro sobre códigos, enquanto
    descansa à sombra de uma árvore, recebendo de um amigo a clássica frase piegas
    de encorajamento: “Tenho a sensação de que você será muito bom nisso”. É como
    se o roteiro tivesse pressa de chegar ao terceiro ato, arrumando soluções
    rápidas e preguiçosas para todos os obstáculos que encontra. Ele usa até aquele
    artifício típico das séries americanas da década de oitenta, quando, no intuito
    de injetar algum senso de aventura, ainda que apenas evidencie o aspecto
    farsesco, ótimo em comédias, péssimo em dramas, eles colocam o protagonista
    para escalar um muro e entrar pela janela de uma pessoa durante a madrugada.
    Não importa que essa atitude desrespeite a construção do personagem, que soe
    absurdamente forçada.

    Caso levemos em consideração a riqueza da trama que aborda, faltou coragem à
    produção. O conceito de uma boa cinebiografia consiste em nos deixar, ao final
    da sessão, com um entendimento maior sobre a personalidade do objeto de
    análise, suas falhas e dilemas internos, não passar mais verniz ainda na imagem
    estereotipada dele. O Alan Turing que o filme apresenta, apesar dos esforços de
    Cumberbatch, fazendo o possível com os fracos diálogos que precisou memorizar,
    não passa de uma elegante caricatura. Saudade de quando o cinema fazia
    cinebiografias para adultos, como “Amadeus” e “Gandhi”. “O Jogo da Imitação”,
    caso fosse um aluno numa prova de matemática, passaria raspando.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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