Cine Noir – “A Dama Fantasma” e “Mortalmente Perigosa”

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    A Dama Fantasma (Phantom Lady – 1944)

    O projeto do alemão Robert Siodmak, baseado na obra de
    Cornell Woolrich, envolve o espectador em um clima sombrio de pesadelo, mérito
    da fotografia de Elwood Bredell, que faria, dois anos depois, com o diretor, o
    excelente: “Assassinos”. A trama simplista, como em todo Noir, serve apenas
    como motivação básica para o criativo exercício de estilo, enfrentando o baixo
    orçamento apostando no poder da sugestão.

    O personagem, vivido por Alan Curtis, encontra uma
    enigmática mulher enquanto tenta afogar as mágoas no bar, após uma briga com a
    esposa. O desejo dela é que a ignorância se mantenha sobre a identidade de
    ambos, estranhos solitários na noite de um dia qualquer. Ela aceita o convite
    dele, a companhia despretensiosa em um espetáculo que desperta o único
    interesse de desviar a atenção dele, por algumas horas, acerca dos problemas
    conjugais. A despedida é comum, fugaz, estabelecendo com eficácia a tensão que
    invade as cenas seguintes. Ao voltar para casa, três homens o aguardam, há a esperta
    sugestão de que são perigosos, confundindo o público, e, no quarto, ele
    descobre o corpo da esposa estrangulada.

    Os detalhes visuais são preciosos, como a escultura das mãos
    no alto do armário de um dos personagens, elemento recorrente, capaz dos atos
    mais carinhosos, como o afagar de um bebê, o salvamento de um afogado, porém,
    capaz de cometer também as maiores atrocidades. A imprensa destrói o nome do
    marido, numa crítica à irresponsabilidade do jornalismo enquanto juiz e condutor
    do linchamento público. Vale destacar a ótima cena, com forte conotação sexual,
    mostrando o encontro da bela Ella Raines, uma personagem que me remeteu à de
    Margaret Tallichet em “O Homem dos Olhos Esbugalhados”, com o baterista, vivido
    por Elisha Cook Jr., em uma confinada jam session de Jazz.

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    Mortalmente Perigosa (Gun Crazy – 1950)

    Com um roteiro, coescrito pelo extremamente competente
    Dalton Trumbo, de “Johnny vai à Guerra”, que não pôde assinar por estar na
    lista negra, essa obra-prima do diretor Joseph H. Lewis é normalmente lembrada
    por sua inovadora sequência de assalto a banco, filmada em um só plano de cerca
    de sete minutos, colocando o espectador no banco traseiro do carro da dupla de
    criminosos, momento que inspirou Jean-Luc Godard em seu “Acossado”. O filme é
    muito mais que essa cena, é um estudo psicológico com espaço para uma crítica,
    infelizmente atual, ao culto das armas na sociedade americana. Vale até uma
    sessão dupla, com o documentário “Tiros em Columbine”, de Michael Moore.

    Os personagens vividos por Peggy Cummins e John Dall, a
    despeito de estarem envolvidos em um frenesi de perseguições cinematograficamente
    estimulantes, refletem uma discussão subliminar menos dependente da catarse
    sensorial, a clássica questão do determinismo, que diz serem todos os fatos
    baseados em causas, contra a crença de que suas atitudes são o extravasamento
    natural de uma índole espinhosa. Eles são definidos por suas ações, ou são, em
    essência, frutas podres? A cena introdutória da femme fatale, num ângulo baixo,
    mostrando sua perícia como atiradora em uma atração circense, consegue injetar
    uma alta dose de sensualidade, culminando numa finalização ao estilo de “O
    Grande Roubo do Trem”, com a personagem atirando na direção do espectador, no
    caso, o protagonista, de certa forma, antecipando o destino trágico do rapaz.

    * Os dois filmes estão sendo lançados pela distribuidora “Versátil”, na caixa “Filme Noir – Vol. 2”, contendo ainda, além de extras, “O Justiceiro”, “Os Corruptos”, “Pecado Sem Mácula” e “Ato de Violência”.

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