Chumbo Quente – “Dívida de Honra”

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    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/chumbo-quente.html

    Dívida de Honra (The Homesman – 2014)

    É um aspecto comum do cinema, quando tenta criar uma
    personagem feminina forte, adicionar em sua composição vários elementos
    compartilhados pelos heróis, invariavelmente masculinizando a mulher,
    tornando-a bruta e insensível, ao invés de evidenciar a bravura inerente à sua
    feminilidade. Como a Ellen Ripley, de “Aliens – O Resgate”, ou, num exemplo
    recente do gênero, a menina da refilmagem de “Bravura Indômita”, ainda que
    exista uma função dessa atitude em sua origem literária, já que ela adota
    psicologicamente a personalidade do pai que busca vingar. Já a Mary Bee, vivida
    por Hilary Swank, é o extremo oposto, um inteligente modelo de construção de
    personagem. Ela é uma mulher madura que sobrevive sozinha no Velho Oeste,
    enfrentando o preconceito da sociedade machista, rejeitando a subserviência ao
    provar competência em seu trabalho, porém, como uma alma sensível, capaz de
    aliviar as angústias diárias tocando imaginariamente as teclas de um piano
    bordadas em tecido, ela deseja ser verdadeiramente amada.

    O cenário rude, desolado, reflete metaforicamente a negação da sensibilidade,
    um berço de homens estúpidos que cospem suas mulheres de suas vidas, ao
    primeiro sinal de problema, figuras vistas como minimamente humanas,
    dispensáveis. Ao se dispor à difícil tarefa de conduzir três mulheres que
    perderam a sanidade, por conseguinte, impiedosamente despejadas por seus
    maridos, até uma cidade onde irão receber tratamento, Mary ousa vestir o manto
    de sacrifício por uma causa cujo escopo sequer poderia compreender. A alegoria
    é potencializada pela brutalidade que Tommy Lee Jones, enquanto diretor, não se
    intimida de mostrar. Cenas muito fortes, como uma protagonizada por Miranda
    Otto e um bebê, logo no início, exibem a coragem de um roteiro que não
    intenciona suavizar o impacto de sua mensagem, infelizmente ainda
    vergonhosamente atual. A revoltante repetição do ato do estupro com uma das
    mulheres doentes, incapaz de reagir, enquanto outra, que testemunha a
    violência, conscientemente silencia, assim como a automutilação, filmada com
    chocante frieza, ou as tentativas humilhantes da protagonista que tenta se
    adaptar às pressões comportamentais e encontrar um marido, estão dentro do
    contexto da época, porém falam diretamente ao papel da mulher hoje, cerca de
    cento e cinquenta anos depois, vítima de uma balança social que nunca se
    equilibra, nos mais variados setores.

    O personagem de Jones aparece exatamente na cena seguinte à reza do sacerdote,
    que pede proteção a Mary em sua árdua jornada, uma resposta certa encaminhada
    por linhas tortas de caráter, o símbolo máximo, quase caricato, do machismo,
    alguém que despreza o feminino a ponto de inicialmente rejeitar a hipótese de
    consumar uma noite de amor com Mary, desprezando-a até como imediatista objeto
    sexual. Ele não odeia a mulher, apenas sente profunda indiferença. Na cena, ele
    se despe com desleixo e preguiça, salientando seu total desinteresse em
    repensar sua conduta. Ela, por outro lado, havia demonstrado na cena em que
    consegue estabelecer conexão emocional com uma das vítimas, após gentilmente
    abraçar a ilusão que a mantém viva, a disposição libertária para a mudança de
    pensamento. Ela, a mulher na sociedade, está aberta à discussão, mais preparada
    que qualquer homem. Ele, o machista impotente, segue surdo aos pedidos de respeito
    e igualdade. O faroeste é utilizado então como veículo estético para uma trama
    que nos conduz à gradual percepção desse homem, o Adão desencantado, que
    aprende a conviver com o feminino. Evitando revelar muito da trama, vale
    ressaltar a beleza metafórica da linda cena no rio, que representa o gatilho
    dessa mudança, um dos momentos mais singelos e bonitos que vi nos últimos anos.
    Grande parte do mérito se deve também à impecável trilha sonora de Marco
    Beltrami.

    “Dívida de Honra” é, desde já, um dos melhores filmes do ano.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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