“O Homem Que Luta Só”, de Budd Boetticher

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O Homem Que Luta Só (Ride Lonesome – 1959)

Um caçador de recompensas captura um pistoleiro e ruma a Santa Cruz para entregá-lo às autoridades.

A motivação do personagem vivido por Randolph Scott, numa camada mais superficial de interpretação, é a vingança pela eliminação de sua esposa, perpetrado pelo sempre competente Lee Van Cleef, cujo pouco tempo em cena potencializa sua presença como um fantasma do passado.

O verdadeiro vilão do filme é o passado. A vingança, algo comum no gênero e, especificamente, dominante no ciclo produzido pela Ranown, com a parceria entre o ator e o diretor Budd Boetticher, pode ser vista nesse caso como um elegante MacGuffin hitchcockiano.

O que faz este faroeste ser especialmente interessante é o que se esconde por baixo dessa camada, perceptível discretamente na forma como Scott escolhe conduzir as ações do personagem, um silêncio diferente daquele do homem sem nome de Leone, uma espécie de desprendimento moral, um caçador de recompensas que não se importa mais com as recompensas, nada no mundo material irá trazer um mínimo de satisfação.

Uma solidão existencial que é enfatizada nos enquadramentos, minimizando ele na imensidão do cenário. O que mantém ele vivo é, mais que executar a vingança, a esperança de poder, algum dia, voltar a ser o homem que era outrora. É interessante também a camaradagem que se estabelece com os dois bandidos, que também estão buscando um redirecionamento, vividos por James Coburn e Pernell Roberts, versões da persona dele, caso não tivesse sido modificado pela tragédia.

O simbolismo da árvore, em formato de cruz, o local que representa a finitude e o nascimento. Sem revelar muito, considero brilhante a maneira como o roteiro trabalha esse símbolo, conduzindo a um dos desfechos mais impactantes do gênero. A trama, em setenta e três minutos, muito bem utilizados, acerta na despretensão da forma, exatamente por ter confiança na riqueza de seu conteúdo.

Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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