Woody Allen – “Broadway Danny Rose”

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    Link para os textos anteriores desse especial que se leva tão a
    sério quanto o próprio Woody:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/make-em-laugh.html

    Eu estava entediado com o reality show que estava passando
    na TV Senado, achei que os participantes perdiam tempo demais fazendo pose pras
    câmeras, aqueles discursos demagógicos para ver se eles conseguiam o carinho do
    público nas próximas eleições para líder, uma falsidade sem tamanho. E, levando
    em consideração a grana alta que eles estão recebendo, acho que poderiam pelo
    menos fingir que estão interessados nos assuntos que debatem com tanta
    teatralidade. Quando um dos mais exaltados, que carregava duas plaquinhas com
    os dizeres: “Vossa Excelência” e “Vossa Senhoria”, para facilitar na hora de
    exercitar sua desajeitada oratória, gritou: “Aleluia”, e foi pulando num pé só
    até o presidente, decidi que era hora de trocar de canal.

    Foi quando descobri, em um canal espanhol, um daqueles
    clássicos programas de perguntas e respostas. As perguntas eram sobre temas
    culturais, citavam atrizes do cinema clássico, até obscuras, e, para minha surpresa,
    os participantes acertavam. Já nos programas similares brasileiros, quase
    sempre, os participantes pedem ajuda dos universitários para questões como: “Quantas
    bananas você encontra em uma caixa com uma dúzia?” E, invariavelmente, os
    universitários, que passam mais tempo nas manifestações, do que nas salas de
    aula, acabam decidindo pela cômoda alternativa: “É uma caixa grande ou pequena?”.
    Raciocínio rápido não é o forte do brasileiro. E o raciocínio lento, por via
    das dúvidas, nunca é lento o suficiente.

    ***

    “O governo é o culpado, esses políticos que não fazem nada,
    essa presidAnta tem que pedir pra sair, o povo brasileiro não tem educação, vou
    bater panela na minha janela e xingar muito no Twitter.”
    (assinado: Glória
    Patrícia, empresária do condomínio de luxo do Leblon, pouco antes de assistir
    religiosamente o capítulo da novela, tirar mais sete variações de selfies
    idênticas para postar nas redes sociais, e utilizar o livro de autoajuda que
    ganhou de uma amiga como suporte para sua taça de espumante)

    ***

    A apresentadora do programa brasileiro, que interrompeu as
    questões e, por alguns minutos, transformou o cenário em uma farmácia, vendendo
    cápsulas para combater artrose e celulite, aparentemente teve um colapso
    nervoso no palco e, sem saber com qual mão deveria segurar o microfone, acabou
    de confessar aos participantes que segue apenas o que o seu marido, dono da
    emissora, lê para ela em seu ponto auricular. O programa europeu pode ser mais
    elegante, os participantes podem ser mais inteligentes, o apresentador pode ser
    mais educado, porém, com certeza, nós compensamos com o menor senso de ridículo
    do mundo. É impressionante perceber como os brasileiros conseguem manter essa
    programação no ar, diariamente, sem que os responsáveis cometam harakiri. Claro,
    não há código de honra algum.

    ***

    “O povo precisa ir às ruas, berrar mesmo, é um absurdo esse
    aumento nos preços dos automóveis importados. Eu sou brasileira, meu amor, um lábio que estampa estrelado o verdugo loiro dessa flama, gigante
    pela própria natureza, por seu fulgúrio, espelho dessa grandeza, impávido
    colostro que, como Chiquinho Buarque dizia, “ê, meu amigo Charlie Brown, meu
    guri”, temos que levantar a nossa bandeira verde e rosa dessa lama que suja as
    nossas ruas. Fora, governo podre!”
    (assinado: Glória Patricia, empresária do
    condomínio de luxo do Leblon, pouco depois de tomar sua medicação diária, jogar
    uns ovos pela janela, consultar seu horóscopo para o dia seguinte e, sem muita
    empolgação, tentar, pela vigésima vez, iniciar a leitura do novo livro do seu
    ídolo: Padre Carmelito, o Bondoso)

    ***

    O Brasil está de cabeça para baixo, ou, sendo mais preciso,
    está numa variação da posição fetal no meio de um jogo de Twister, com os
    braços entrelaçados nas pernas e, num contorcionismo invejável, com a cabeça
    enfiada dentro de um buraco improvisado no chão. Os analistas mais pessimistas
    estão garantindo que os mortos irão se levantar dos túmulos em um apocalipse
    zumbi que irá ocorrer após a descida de uma nave alienígena, já os analistas
    otimistas preveem que a nave irá desviar de sua rota no último minuto, após uma
    retumbante gargalhada do piloto, causada pela resposta de um dos participantes
    brasileiros do programa de televisão. Na dúvida, os militares já estão se
    preparando para um revival da ditadura, apoiados cegamente pela massa acéfala
    que fugiu de todas as aulas de História na escola. Estamos vivendo uma época
    tão gloriosa, tão emocionante, que dá vontade de acordar todos os dias e, com a
    mão direita sobre o peito, cantar o Hino Nacional. O que aconteceria, caso os
    brasileiros soubessem a letra.

    Broadway Danny Rose (1984)

    Esse é um dos meus favoritos, que encanta principalmente pela
    ternura com que Allen retrata os personagens. O protagonista nos é revelado
    através de um bate-papo descontraído, numa mesa de restaurante, entre
    comediantes, relembrando com carinho esse agente de talentos que
    verdadeiramente apostava em seus artistas, por mais simplórios que eles
    parecessem ser, de homens que moldavam cães com balões, passando por encantadores
    de pássaros, sapateadores pernetas, até mágicos amadores e malabaristas de um
    braço só. Ele valorizava mais o elemento humano, a possibilidade de, da noite
    para o dia, um desconhecido se tornar famoso por sua Arte, superando suas
    limitações.

    Danny Rose não acredita plenamente na qualidade dos números
    de seus agenciados, isso é o que menos importa, ele genuinamente criou um
    vínculo de amizade com eles. Ao vender seus trabalhos, ele enaltece o caráter e
    a bondade deles, uma espécie de carta de amor de Woody para o produtor que
    apostou financeiramente em seu trabalho, quando era apenas um tímido jovem
    comediante desconhecido: Jack Rollins. O próprio conceito de celebração da
    gentileza, em uma área tão contaminada pelo egocentrismo e pelo jogo sujo, já
    engrandece a temática do filme. E, claro, há o elemento do humor, em dose
    generosa. Em um dos raros finais felizes nas obras do diretor, sem qualquer
    insinuação de ambiguidade, Allen eleva o protagonista a um patamar de lenda, um
    personagem mitológico que servirá de inspiração para os profissionais que
    virão.

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