Tubarão (Jaws – 1975)

Um terrível ataque a banhistas é o sinal de que a praia da pequena cidade de Amity, na Nova Inglaterra, virou refeitório de um gigantesco tubarão branco. O chefe de polícia Martin Brody (Roy Scheider) quer fechar as praias, mas o prefeito não permite, com medo de que o faturamento com a receita dos turistas deixe a cidade sem recursos. O cientista Matt Hooper (Richard Dreyfuss) e o pescador Quint (Robert Shaw) se oferecem para ajudar Brody a capturar e matar a fera, mas a missão vai ser mais complicada do que eles imaginavam.

É desnecessário abordar a importância do filme para a indústria americana, um sucesso que transformou Steven Spielberg, do dia para a noite, em um sinônimo de espetáculo lucrativo.

Acho encantadora a essência de filme B que é exalada em cada poro da produção, algo que o diretor buscava conscientemente, uma coragem revigorante em explorar os medos primitivos do homem, optando por se amparar generosamente na insinuação, o terror que se esconde. Ao ignorar boa parte da gordura extra do livro, o roteiro acaba se transformando no estudo objetivo do conflito eterno contra o desconhecido, o monstro sem propósito e imprevisível, o tubarão que, assim como a vida, carrega para a finitude os corpos que se debatem alegremente na superfície.

O personagem interpretado por Robert Shaw, como o Ahab de Melville, vive apenas para encontrar seu nêmesis marítimo, uma criatura de olhos sem vida, um misto de Moby Dick e do trágico peixe de “O Velho e o Mar”, de Hemingway.

O tubarão é uma máquina devoradora natural, diferente do homem, ser racional, que mata seus iguais por esporte. Este elemento foi destruído nas péssimas continuações, que transformaram o animal em uma espécie de Jason Voorhees, mas, no original, por mais que o número de vítimas aumente gradativamente, o tubarão está em seu ambiente, que é invadido pelos humanos, estimulados por um prefeito inconsequente em seu desejo de transformar a pequena cidade em um ponto turístico interessante.

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Não é apenas um confronto clássico do homem contra a natureza, mas, principalmente, um confronto da ganância humana contra o próprio homem, representado pelo ético policial Brody (Roy Scheider), e contra a natureza. A caçada é trágica, porém, necessária, como a extinção dos dinossauros no planeta, analogia sublinhada pela utilização sonora do rugido de um dinossauro no momento em que a criatura é destruída, exatamente como ocorre na destruição do caminhão, o monstro de seu filme anterior: “Encurralado”. E este conflito só funciona graças ao roteiro que inteligentemente entrega tridimensionalidade ao personagem vivido por Scheider.

A minha cena favorita no filme é breve, não é empolgante, ocorre logo depois que o policial é agredido pela mãe de uma vítima. Ele estava se sentindo péssimo, psicologicamente alquebrado, já que se sentia profundamente culpado. Quando penso em “Tubarão”, minha mente me conduz à emocionante interação entre pai e filho, na mesa de jantar.

O menino que imita cada gesto do pai, o seu herói, ignorando os problemas que ele enfrenta. Brody entra na brincadeira, pedindo um beijo. A criança pergunta a razão, no que ele responde: “Eu preciso”. A sensibilidade na condução da linda cena é uma demonstração da competência de Spielberg.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Na época, eu era adolescente, neste filme aconteceu o que nunca mais vi se repetir, as pessoas de todo o cinema, no caso o saudoso Metro Tijuca no Rio de Janeiro, toda a plateia se levantou a bateu palmas. Nunca mais vi isto acontecer, foi emocionante. Para quem gosta de cinema, como eu, que começou ainda nas sessões de Tom & Jerry nas manhã de domingo, naquele mesmo cinema, levado por meu pai, foi a primeira vez que vi aquilo acontecer e nunca mais se repetiu, nenhum filme que vi posteriormente causou isto na platéia. Não sei se pela genialidade do filme, se pelo alívio da platéia, não sei, mas, foi gostoso de ver, marcante em minha memória.

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