“Porco Rosso”, de Hayao Miyazaki

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    Links para textos sobre outros filmes do diretor:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2013/08/o-castelo-animado-2004.html

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2013/08/a-viagem-de-chihiro-2001.html

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/06/meu-amigo-totoro-de-hayao-miyazaki.html

    Porco Rosso (Kurenai no Buta – 1992)

    Esse é um projeto muito pessoal de Hayao Miyazaki, onde ele
    arriscou entregar um desenvolvimento nada formulaico e um desfecho enigmático,
    que muitos fãs do mestre japonês citam como um problema. Longe de ser um
    problema, o mistério é a beleza maior nesse intimista estudo de personagem, parte
    essencial da obra, simbolizado na mágica transformação do protagonista, uma
    bonita homenagem ao personagem de Humphrey Bogart em “Casablanca”. Um piloto
    que sobreviveu aos horrores da Primeira Guerra Mundial, tendo testemunhado a
    morte de vários amigos. Uma experiência brutalmente desumanizante, cujas
    cicatrizes podem ser percebidas, de forma mais sutil, no modo como ele se move,
    o cansaço existencial inegável em suas atitudes, uma complexidade que contrasta
    totalmente com a postura dos outros personagens, como se ele fosse o único
    elemento real inserido, como um paquiderme numa loja de cristais, naquele mundo
    de fantasia.

    O fato de ele ser um porco é o que menos desperta estranheza
    no espectador. A superfície parece tola, uma comédia leve, mas há uma aura incômoda
    quase subliminar, propositalmente fora do tom, algo que toca diretamente o
    público mais velho, enquanto as crianças são presenteadas com a subtrama
    convencional, envolvendo batalhas aéreas e um antagonista caricatural. É como
    se o espírito altamente nonsense que está presente desde o início, com os
    piratas trapalhões sequestrando crianças, ou a competição absurda que se
    estabelece entre o porco e Curtis, culminando numa catarse pastelão, fosse o
    reflexo perfeito da estupidez de uma guerra. Dois adultos teimosos, numa longa
    troca de sopapos, ambicionando fama e dinheiro. Não há como abordar de forma
    refinada o estado mental de um veterano de guerra, nada faz sentido, tudo fica
    desfocado. Marco cansou de ser humano, ele foge de qualquer relacionamento com
    essa espécie, porém, enxerga esperança na figura adorável da jovem Fio, que
    sonha ser projetista de aviões, uma paixão compartilhada pelo diretor. Ele
    reconhece naquela impetuosidade inconsequente a coragem que o motivava na
    juventude. Talvez não seja o filme mais amado do diretor, exatamente por ser o
    único em que ele tenha ousado utilizar seu pessimismo, a sua preocupação com o
    futuro da humanidade, como motivo condutor da trama, ao invés de tentar
    entregar o produto que os fãs desejavam consumir, uma variante do mais do
    mesmo, como é usual na indústria.

    Com a consequência física do trauma em Marco,
    Miyazaki critica o egoísmo do ser humano e o militarismo, uma mensagem poderosa
    antiguerra, que ele retomou, com maior contundência, em seu mais recente “Vidas
    ao Vento”. O personagem, que costumava ser um herói de guerra, decide se tornar
    um porco, escolhendo se isolar de sua sociedade, por não querer se tornar um
    fascista apoiador do militarismo patriótico da época. E, analisando um relato
    breve que o roteiro apresenta, sobre um dos feitos nobres do piloto na batalha,
    quando ele se arriscou para salvar um soldado inimigo, podemos perceber que o
    personagem apenas optou por se manter coerente, agindo de acordo com seus
    princípios. Sendo um porco, Marco nos mostra que os humanos, quando movidos pela ganância bélica, podem se tornar os verdadeiros
    animais irracionais.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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