Tesouros da Sétima Arte – “O Oitavo Dia”

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    Link para os textos desse especial que aborda os tesouros
    escondidos. Obras que merecem ser mais
    valorizadas:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/tesouros-da-setima-arte.html

    O Oitavo Dia (Le Huitième Jour – 1996)

    Eu vi esse filme apenas duas vezes, mas é incrível como
    tenho guardadas na memória várias cenas, até linhas de diálogo, que me
    emocionaram sobremaneira.

    O impacto da ternura do jovem com síndrome de Down, o belga
    Pascal Duquenne, sobre a dura casca de amargura do homem, impecável Daniel
    Auteil, que percebe sua família cada vez mais distante, no belo momento onde o
    rapaz tenta bloquear as lágrimas do amigo ao construir um sorriso, com seus
    dedos, no rosto dele. O reencontro dos dois na chuva, a reafirmação da amizade,
    após uma tentativa cruel de desapego forçado. O trabalhador compulsivo que, por
    intermédio dessa relação, aprende a ser um pai melhor para suas filhas. A mãe
    falecida que, ao som de seu ídolo na música, aparece para carinhosamente
    confortar as angústias do jovem. E essas cenas, que poderiam pender facilmente para
    a pieguice exagerada, são engrandecidas pela forma sensível como o diretor Jaco
    Van Dormael escolhe se contentar com o minimalismo, com o protagonista tendo
    uma clara atitude emocionalmente independente, dispensando a compaixão dos
    outros.

    A trama aborda o desejo do jovem, internado em um hospital
    especializado desde a morte da mãe, em voltar para casa. Ele é um fardo pesado
    demais para seus familiares, pessoas egoístas e que não querem encarar o
    reflexo visualmente diferente nesse espelho perturbador, como estudado pelo
    psicanalista francês Pierre Fédida, personagens que simbolizam a forma como
    grande parte da sociedade encara os deficientes, e, por conseguinte, o aparente
    desinteresse pela necessária inclusão social.

    Essa rejeição que fala diretamente ao choque desorientador do
    diferente em contato com a imagem que representa a formação inicial do “eu”
    inconsciente, ou, nas palavras do psicanalista francês Jacques Lacan, esse “eu”
    ideal em que nos reconhecemos, na realidade, uma visão equivocada, que não
    corresponde ao corpo fragmentado que experimentamos. A busca do rapaz, nesse
    encantador road movie, pelo conceito de “voltar para casa”, reflete o
    exaurimento da esperança nessa sociedade narcisista. A pureza dele, ao final,
    sacrificada como expiação dos pecados do mundo.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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