A Psiquiatria no Cinema

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    Talvez opúblico brasileiro ainda não conheça como
    deveria Nise da Silveira, psiquiatra alagoana admirada por Carl Jung, que
    combateu os agressivos métodos convencionais de tratamento de doentes mentais:
    lobotomia, insulinoterapia, confinamento e eletrochoque, oferecendo uma opção
    linda, a cura pela arte. Como todos aqueles pioneiros que ousam fugir do senso comum,
    ela teve que enfrentar vários obstáculos no próprio sistema, porém, o seu
    legado eterno em sua área continuará sendo celebrado, décadas após o silenciar
    de todos aqueles que se opuseram ao seu estilo.A sua história está sendo
    contada no filme “Nise”, do diretor Roberto Berliner, protagonizado por Gloria
    Pires.

    O cinema sempre abordou o tema, desde o clássico mudo do
    início da década de vinte: “O Gabinete do Dr. Caligari”, passando pela pérola
    de Hitchcock: “Quando Fala o Coração”, o extremamente popular “Um Estranho no
    Ninho”, de Milos Forman, até o mais recente: “Ilha do Medo”, de Martin
    Scorsese. Selecionei duas dicas, dois tesouros que
    merecem maior reconhecimento, afinal, esta é uma das funções essenciais de uma
    lista, direcionar o foco da luz para os cantos escuros da memória cultural.

    A Cova da Serpente (The Snake Pit – 1948)

    Virginia, vivida por Olivia de Havilland, sofre um ataque de
    nervos logo após seu casamento, sendo internada num manicômio. Tudo piora
    quando a enfermeira-chefe ameaça transferir ela para a “cova das serpentes”, o
    Pavilhão 33, onde são colocados os pacientes sem esperança de cura. Com a ajuda
    do marido e do psiquiatra, ela se recupera, mas é testemunha dos maus tratos e
    das péssimas condições às quais as outras internas estão submetidas. Analisando
    a obra no contexto de sua época, ela se torna essencial para psicólogos que
    queiram enxergar como a arte refletia o processo inicial de revolta pública na
    luta antimanicomial. A psicoterapia como filosofia de vida, o conceito de
    transferência, evidenciado na lucidez da protagonista ao entender-se curada por
    não se sentir apaixonada por seu psiquiatra. Vale destacar também a defesa da
    psicanálise como ferramenta importante no tratamento dos pacientes mais graves,
    dentro de instituições psiquiátricas, algo que, ainda hoje, é discutido na
    área. O roteiro retrata diversas variações do estado psicótico, de forma quase
    didática, emocionando ainda mais pelo pioneirismo de sua abordagem direta.

    SHOCKCORRIDOR - A Psiquiatria no Cinema

    Paixões Que Alucinam (Shock Corridor – 1963)

    Poucos diretores foram tão corajosos quanto Samuel Fuller.
    Ele apertava o dedo nas feridas abertas da sociedade, de forma crua, impiedosa.
    Não deixe o título nacional te enganar, a trama, que coloca o jornalista Johnny
    Barrett (Peter Breck) simulando insanidade para ser internado em um hospício e
    investigar o misterioso assassinato de um louco cometido dentro da instituição,
    utiliza a interação do personagem com os suspeitos como forma de criticar
    manchas históricas norte-americanas, como a Guerra Civil, a paranoia nuclear e
    o racismo. Vale salientar a fantástica sequência do ilógico temporal dentro da
    instituição, algo que parece saído da mente de Luis Buñuel. Com um desfecho
    marcante, evidenciando no protagonista os resquícios de mais uma mancha
    histórica, a obsessão pelo frágil sonho americano, representado pelo prêmio
    Pulitzer que motiva o profissional, o filme permanece como uma joia rara, o
    tipo de produção audaciosa que nunca receberia o sinal verde hoje.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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