“Minha Vida”, de Bruce Joel Rubin

Minha Vida (My Life – 1993)
Michael Keaton sempre foi um grande ator, algo que muitos
passaram a perceber apenas com o sucesso de “Birdman”. Ele é popularmente
reconhecido por filmes onde explorou extremos de interpretação, como o
histriônico “Beetlejuice”, porém, com “Minha Vida”, que ainda considero seu
melhor desempenho, ele teve a chance de utilizar os elementos de seu início
como comediante stand-up, inserido em uma trama cruelmente realista, vivendo um
workaholic que descobre, num curto espaço de tempo, que irá ser pai e que está
morrendo de câncer nos rins. A abordagem do diretor/roteirista Bruce Joel
Rubin, que escreveu “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, encanta pela forma
felliniana com que ele constrói o leitmotiv da necessidade de aprender a
perdoar.
O protagonista é mostrado no início como uma criança
altamente criativa, contagiando seus colegas de escola, que, aceitando um
convite do menino, aparecem na frente da casa dele, esperando a apresentação de
um grupo circense. A fantasia do garoto seria a materialização de um pedido
feito a uma estrela, na noite anterior. Os pais dele, exatas réplicas do tipo
de pessoa que ele viria a se tornar profissionalmente, recebem com frieza
aquele evento, envergonhados pela atitude do filho, acabam optando pela
punição, o castigo que irá bloquear o lúdico da criança.
Já adulto, ele adota uma postura cínica e debochada,
projetando suas frustrações existenciais em uma ambição exagerada pela
realização profissional. Ele nunca perdoou os pais, simplesmente se afastou,
numa tentativa de reestruturar sua psique, com o auxílio da terna esposa,
vivida pela bela Nicole Kidman. É interessante a forma como o roteiro evidencia
a importância da jovem, quando, em uma reunião familiar, os pais dele
demonstram mais alegria ao vê-la. Aquela que sempre foi o maior elo entre as
famílias, que, por trás dos panos, sempre tentou resgatar a pureza do menino de
outrora, mantendo os pais dele informados sobre tudo. A resistência doce, no difícil
convívio com um homem que havia se tornado a antítese de tudo que desejava ser.
O câncer acaba sendo o instrumento que ressuscita o caráter original, o adulto
que o menino sonhava ser.
“Não ouse tirar minha esperança, ela é tudo o que eu tenho”.

O filme trabalha a lógica do desapego material, com o pai
decidido a registrar em vídeo o máximo possível de informações, ensinamentos,
para o filho que, pelas estatísticas médicas, ele não chegaria a conhecer. De
coisas simples, como a maneira certa de se barbear e seguramente apertar a mão
de desconhecidos, até relatos emocionantes das razões que fizeram ele se
apaixonar pela mulher, uma linda corrida contra o tempo, visando o legado. E,
quando paramos pra pensar, a única coisa que verdadeiramente importa na vida é
o legado. O quarto que decoramos com tanto carinho, selecionando a cor da
parede e dos móveis, esse receptáculo de emoções tão intensas e diversas, onde
o amor é expresso em sua forma mais primitiva, irá, um dia, testemunhar a vida
de outras pessoas, indiferentes à existência dos moradores anteriores. A morte
não precisa ser o esgotamento do valor inspiracional de quem deixa de existir,
o ser humano se perpetua em suas ações, que podem reverberar por séculos. O pai
continuará presente, na tela da televisão, com sua aparência intacta, saudável,
protegendo o amado filho de todos os obstáculos que irá enfrentar.

São várias as cenas bonitas que eu poderia ressaltar, porém,
não quero estragar a experiência de quem ainda não conhece a obra. É
manipulativa em excesso, mas, sem dúvida, eficiente. Tenho certeza que você não
irá esquecer o momento em que o homem, já em estágio terminal, perdoa o pai,
enquanto ele carinhosamente faz a barba do filho pela última vez, fechando o
ciclo da vida.

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