“Vício Frenético”, de Abel Ferrara

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    Vício Frenético (Bad Lieutenant – 1992)

    Nesse, que é um dos melhores filmes da década de noventa, o
    diretor Abel Ferrara conseguiu construir um clima opressivo, narrando a queda e
    a redenção de um homem escravizado por todos os vícios mais degradantes, um
    tenente, vivido de forma irrepreensível por Harvey Keitel, que conscientemente
    sente prazer em abusar do seu poder, sendo capaz de roubar o produto do furto
    de bandidos, ou persuadir belas jovens que dirigiam sem carteira de habilitação
    a evitarem a prisão, satisfazendo seu imediatista desejo sexual em um estupro
    verbal.

    O nome dele nunca é mencionado, o que reforça o aspecto
    simbólico da trama, que aborda, em essência, o conflito entre o corpo e a alma.
    A interpretação de Keitel, em seu melhor momento, transpira coragem e
    vulnerabilidade, carne trêmula falhando em encontrar resquícios de humanidade. O
    roteiro, escrito em parceria com a atriz Zoë Lund, utiliza um caso real que
    escandalizou a sociedade da época, o estupro de uma freira, como elemento
    condutor, já que o corrupto policial não consegue compreender o sentimento de
    perdão que move a vítima. É quando ele percebe que pode haver redenção em seu
    horizonte, por mais sombrio que seja o caminho até a luz, visualizado através
    do filtro de sua crença católica. Perceba o impacto imagético da cena em que o
    policial se encontra com a freira na igreja, a batalha definitiva entre o
    espírito e a carne, praticamente um ato de exorcismo. O efeito das drogas,
    enquanto válvula de escape, já não o ilude mais, o seu organismo já se
    acostumou. Ele reconhece, em seu choro seco e angustiado, a proximidade do fim
    e a urgência de sua missão.

    Um dos elementos mais interessantes, trabalhado com pouca
    sutileza, pode ser percebido em uma cena breve, quando o tenente espia a bela
    freira nua no quarto do hospital. Ele, nesse momento, indo contra suas
    convicções religiosas, compartilha o mesmo desejo sexual dos dois estupradores,
    como se, pela primeira vez, ele estivesse se sentindo mal por se colocar no
    lugar dos bandidos. Essa constatação acaba se refletindo em sua atitude no
    desfecho, que obviamente não irei revelar.

    Vicio Frenetico 3d - "Vício Frenético", de Abel Ferrara

    * O filme está sendo lançado em DVD, em versão restaurada, pela distribuidora “Versátil”.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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