“Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn

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    Na Natureza Selvagem (Into The Wild – 2007)

    Como é simbólica a breve cena que mostra o posicionamento correto
    dos garfos na mesa. Qual a razão de haver um posicionamento correto para garfos
    em uma mesa? A angústia dos pais, que prezam acima de tudo o status da família,
    ao perceberem que o filho não vê necessidade de trocar seu carro antigo por um
    novo. Os rituais, a teatralidade que esconde a hipocrisia, a formação universitária
    em uma função profissional que não interessa ao estudante, válida apenas por
    ser uma garantia de conforto financeiro no futuro. Qual noção de conforto? O
    executivo que veste a gravata apertada no andar mais alto de sua empresa daria
    tudo para estar, por alguns momentos, admirando o pôr do sol na beira do mar.

    Em vários momentos chegamos a falar abertamente com o
    personagem: Já está bom, você conseguiu se afastar da presença opressiva e
    psicologicamente danosa dos pais, encontrou um porto seguro na figura de
    estranhos, o casal de hippies, o idoso gentil e carente, até mesmo uma jovem
    apaixonada. Agimos exatamente como esses personagens, procurando entender o que
    motiva o rapaz a seguir desatando laços, esse desejo insaciável pelo
    isolamento. Emile Hirsch, que vive Chris McCandless, facilita esse investimento
    emocional com sua atuação, captando muito bem os extremos da aventura
    existencial desse recém-formado, que decide viajar sem rumo pelos Estados
    Unidos em busca de uma subjetiva noção de liberdade. Ele consegue superar as
    tentações sociais, como o roteiro transmite na boa sequência em que o jovem
    vislumbra uma versão alternativa de sua realidade, o escravo da ganância em
    modelo industrial, com sorrisos e maneirismos calculados para satisfazer a
    imagem que os outros projetam nele.

    A estrutura do filme pode ser confusa, porém, parece pensada
    exatamente com o intuito de fugir do melodrama comum. O diretor Sean Penn, com
    mão segura, busca uma conexão fragmentada, ajudado pela fotografia de Eric
    Gautier, uma emoção despertada mais pela constatação da coragem e do
    amadurecimento do protagonista, ao invés da lágrima que seria vertida
    facilmente na opção pela linearidade nessa bonita história real. Gosto também
    de como a trama evidencia a importante transformação daqueles que conhecem o
    rapaz na jornada, verdadeiramente tocados por aquele andarilho enigmático.

    E, o elemento mais importante, o roteiro não faz do
    personagem um herói, muito pelo contrário, sublinha a irresponsabilidade
    inerente à sua decisão e, acima de tudo, no poderoso desfecho, a
    conscientização do erro cometido. O ser humano não precisa dos rituais, mas,
    sem dúvida, precisa ser humano. A solidão de Chris, seu calvário autoimposto. A
    lição foi aprendida da maneira mais dura, o “Alasca” que ele buscava com sua
    inconsequente arrogância adolescente, o objetivo primordial, era a compreensão
    da necessidade do perdão.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    1 COMENTÁRIO

    1. Eu acho que haviam dois extremos, um, como você falou, era a necessidade de status da família, e o outro era a falsa liberdade que ele pensou que ia encontrar com a solidão.
      No meio disso tudo, ele poderia, não vou nem dizer ter encontrado, porque ele encontrou, ter optado por outro caminho.

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