Cine Bueller – “O Bagunceiro Arrumadinho”, de Frank Tashlin

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O Bagunceiro Arrumadinho (The Disorderly Orderly – 1964)

O desastrado enfermeiro Jerome, que, na tentativa de conquistar seu sonho de se tornar um médico, peca por tentar demais, como afirma a hilária Kathleen Freeman, é um dos personagens mais carismáticos de Jerry Lewis, ainda que o filme tenha se revelado, nessa revisão, menos engraçado do que minha memória jurava ser, ou, como prefiro pensar, apenas um exemplo de veículo na filmografia dele pensado especificamente para crianças
pequenas.

O erro está em analisar a obra com o olhar crítico do adulto. Eu passava mal de tanto rir, aos nove anos, nas sessões do “Festival de Férias” global, que substituía a “Sessão da Tarde”, com a cena dele tentando escovar os dentes de um senhor desdentado, com o protagonista, dublado pelo ótimo Nelson Batista, quebrando a quarta parede e desabafando com o público. Minha mãe deve ter ficado enjoada de tanto que eu imitava as expressões dele nessa cena.

A estrutura do roteiro é bastante irregular, sem ritmo, com repetições de gags, como o da perturbação do silêncio, executada muito melhor em “O Professor Aloprado”. Toda a subtrama envolvendo a bela paciente de temperamento forte, vivida por Susan Oliver, é desenvolvida aos tropeços e reutiliza a fórmula que Chaplin imortalizou em “Luzes da Cidade”, com o rapaz se matando de trabalhar para, sem que ela saiba, poder pagar o seu tratamento.

Apenas dois momentos são verdadeiramente brilhantes, daqueles que fazemos questão de
retroceder e assistir novamente: 1) A penúria do enfermeiro, um show de humor físico de Lewis, que escuta a descritiva explicação de uma senhora hipocondríaca, hilária Alice Pearce, sobre seus vários problemas de saúde. Quando a lamúria chega ao relato sobre os frágeis rins, desafio você a segurar o riso. 2) O tour de force no terceiro ato, em que acompanhamos uma estranha perseguição de carros, com Lewis correndo mais rápido deitado em uma maca. A execução é impecável, material pra deixar os mestres do cinema mudo orgulhosos.

Dos seis filmes que o diretor Frank Tashlin fez com Lewis, após o término da dupla com Dean Martin, esse só perde para “O Detetive Mixuruca”, uma bobagem das mais dispensáveis. O melhor momento na parceria, após rever todos, é “Errado pra Cachorro”, que será o tema de um próximo texto no especial “Make ‘Em Laugh”. Mas eu não poderia deixar de incluir nesse espaço, em que resgato as memórias da infância e adolescência, o filme que, com todos os defeitos que percebo hoje, segue sendo uma das lembranças mais ternas daquela época.

Como era bom ser criança nos anos oitenta, ter como babá eletrônica artistas desse nível.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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