“Micróbio e Gasolina”, de Michel Gondry

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    Micróbio e Gasolina (Microbe et Gasoil – 2015)

    Gondry nos acostumou mal com sua inventividade, em filmes
    como “Sonhando Acordado”, “Rebobine, Por Favor”, e, especialmente, “Brilho
    Eterno de uma Mente Sem Lembranças”. Quando terminou a sessão de “Micróbio e
    Gasolina”, tentava puxar pela memória algum elemento no roteiro que tivesse
    essa marcante impressão digital do diretor, sem sucesso.

    É um road movie muito
    agradável, com uma pegada lúdica encantadora, contando a história de dois
    adolescentes: Micróbio, vítima de bullying por sua excessiva introversão, o que
    explica o apelido pouco carinhoso, e Gasolina, vivido pelo ótimo Téophile
    Baquet, um desajustado que não se importa com a imagem que os outros projetam
    nele. Eles embarcam em uma viagem onde pretendem cruzar o país com um carro
    montado a partir de sucata. Há um pouco de Truffaut em sua visão dos conflitos
    da adolescência.

    Já no design surrealista do veículo, uma casa com direito a telhado,
    encontramos uma simbologia pouco sutil para o real interesse dos meninos,
    antagônico ao conceito de fuga do lar: a necessidade de se sentirem seguros.
    Não por acaso, a mãe de Micróbio, vivida por Audrey Tatou, está enfrentando um
    divórcio. O destino programado é um acampamento que resgata em um deles uma
    doce memória infantil, o psicológico desejo por voltar ao colo materno. Nada
    disso fica aparente na atitude dos dois, que exalam uma postura até arrogante
    de superioridade com relação aos outros de sua idade, o extravasamento
    radicalmente oposto, como forma de disfarçar a insegurança. A câmera de Gondry
    facilita a empatia do público, minimizando os cortes, evitando floreios
    visuais, a quebra da ilusão, compondo um ritmo bastante lento, reflexivo,
    verdadeiramente abraçando a jornada dos personagens.

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    Octavio Caruso
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