Na Mira de 007: Parte 24 – Finalmente Abraçando a Fórmula

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    Link para os textos anteriores do especial (no final da página):
    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/berlin-alexanderplatz.html
     
    007 Contra Spectre (Spectre – 2015)
    Um detalhe que pode passar despercebido, mas que, creio, diz
    muito sobre essa nova postura do personagem. Na tradicional gunbarrel, desta
    feita, voltando a dar as boas-vindas ao público, Daniel Craig é visto
    caminhando de forma segura, sem tentar esconder o revólver no bolso da calça. A
    gênese já está completa, após três projetos sendo um leão de chácara em
    processo de lapidação, ele interpreta agora o mesmo personagem eternizado por
    Connery, porém, psicologicamente mais agressivo. É o reflexo natural de uma
    sociedade mais cínica.

    O filme é o encerramento de uma tentativa arriscada dos
    produtores da franquia, que, objetivando a renovação do personagem de Ian
    Fleming, inserindo ele em um molde de obras de ação/espionagem moderno,
    extirparam dele todas as suas características principais, um reboot agressivo
    que havia sido orquestrado, de forma bem menos corajosa, na breve era de
    Timothy Dalton. Como era óbvio desde “Cassino Royale”, o James Bond de Daniel
    Craig representa, pela primeira vez, a gênese do herói, fórmula corriqueira no
    cinema atual, um prequel elegante. Em “Operação Skyfall”, o diretor Sam Mendes
    conseguiu elaborar algo que mantinha o espírito das produções, porém, injetava
    um elemento autoral nunca antes experimentado na série, um maior refinamento
    técnico. Já em “007 Contra Spectre”, ele entrega um produto para os fãs
    antigos, com todos os elementos reconhecíveis, referências claras e sutis, além
    de um desfecho que é uma linda declaração de amor à nostalgia. É possível que,
    acostumados com as modificações, uma boa parte do público, aqueles que passaram
    a gostar do personagem com os filmes recentes, encontrem motivos para reclamar
    da zona de conforto, dos aspectos menos realistas.

    007 voltou a ser sinônimo de escapismo, viagens pelo mundo,
    muitas mulheres seduzidas pelo caminho, cenas de ação improváveis que desafiam
    as leis da gravidade, capangas truculentos e silenciosos, vilões de revistas em
    quadrinhos e, acima de tudo, diversão, algo que estava sendo minimizado com um
    crescente interesse freudiano pela angústia existencial. O clássico início com
    o cano do revólver está de volta, e, mais importante, o senso de humor retorna
    em grande estilo, ainda que Craig soe pouco confortável em algumas piadinhas
    mais escancaradas. Ele consegue emular perfeitamente o senso de perigo que
    Connery transbordava, mas, não há como negar, falta a ele, enquanto ator, a
    capacidade de empatia/carisma que Roger Moore e Pierce Brosnan dominavam com as
    mãos nas costas. Numa comparação esdrúxula, basta imaginar o Papa Bento XVI
    tentando animar uma festa, algo que o novo Papa faria sem esforço. É muito
    interessante a forma como o roteiro utiliza os coadjuvantes, M, Q e Moneypenny,
    usualmente meras peças decorativas nos filmes clássicos. Eles estão inseridos,
    não apenas nas sequências de ação, algo relativamente mais fácil, mas,
    especialmente, nas engrenagens que mantém a narrativa no curso.

    A ideia de resgatar o vilão mais famoso da franquia, Ernst
    Stavro Blofeld, apesar da tola tentativa de esconder o que o título já deixava
    óbvio, poderia ter sido mais bem aproveitada. Um personagem tão forte, reduzido
    a uma nota de rodapé. Como maior ponto negativo, a motivação dele, vivido por
    Christoph Waltz, no mesmo piloto automático que consagrou seu nome no cinema
    americano. O propósito dele na trama é simplesmente medíocre, com o roteiro
    cometendo o equívoco crasso de buscar uma justificativa íntima, familiar, para
    o antagonismo dos personagens, o tipo de recurso desgastado e simplório que se
    espera, por exemplo, de uma novela mexicana. Outro aspecto frustrante é a
    participação de Monica Bellucci, uma atriz que sempre foi cogitada pelos fãs
    como a Bond Girl perfeita, acabou sendo relegada a uma inglória ponta. Quer
    mais um problema? Jaws e Oddjob, só pra citar os mais famosos, eram brutamontes
    tolos e unidimensionais, porém, receberam cenas nos roteiros que os valorizavam
    sobremaneira. Pense em “Goldfinger”, que você irá se lembrar do confronto no
    Fort Knox. Pense em “Moscou Contra 007”, que você irá se lembrar do confronto
    no trem com Red Grant. Pense em “Spectre”, que você irá se lembrar de… Bom,
    com sorte, você vai se lembrar do capanga, vivido por Dave Bautista, que tinha
    algo como, sei lá, unhas de prata, coisa do gênero, que ele utiliza uma vez
    apenas, e, surpreendentemente, não em um confronto com o agente secreto. Com
    exceção da empolgante sequência inicial, uma marca da franquia, que referencia
    “007 – Somente Para Seus Olhos”, não há qualquer momento de ação
    verdadeiramente inesquecível. O confronto final do herói com o vilão consegue
    ser menos interessante que o fraco encontro da versão de Moore com o Stromberg,
    de “O Espião Que Me Amava”. É mais movimentado, claro, porém, tão irrelevante
    quanto.

    E a música-tema de Sam Smith? “Writing’s on the Wall”,
    emoldurada pelos competentes créditos de Daniel Kleinman, consegue ser menos
    sofrível do que imaginei, mas, ainda assim, é um tema pouco inspirado, com uma
    letra que não condiz com absolutamente nada que simboliza o personagem, em sua
    versão literária ou cinematográfica. Nem mesmo o 007 mais emotivo de George
    Lazenby se expressaria de forma tão drama queen. Eu prefiro escutar a Lulu
    berrando “The Man With The Golden Gun” em looping, do que aguentar esse
    candidato do The Voice massacrando décadas de construção de personagem. Um
    ponto interessante dos créditos, a inserção de cenas dos três filmes anteriores
    (exatamente no momento em que a letra da canção menciona o agente sendo
    perturbado pelo seu passado), recurso que havia sido utilizado apenas nos
    créditos de “À Serviço Secreto de Sua Majestade”, com a intenção de reforçar o
    sentido de unidade para o público, já que Connery havia sido substituído. Os
    personagens mostrados, os mortos-vivos citados no letreiro pós-gunbarrel, a
    constatação de que, apesar de todos os esforços do roteiro de “Skyfall”, o
    espião ainda teria alguns anos de análise pela frente. A opção por manter os
    resquícios desse dramalhão, além de enfraquecer a essência do personagem
    literário, demonstra a insegurança dos produtores em investir totalmente nessa
    nova abordagem.

    Com suas muitas falhas, “007 Contra Spectre” é divertido, uma
    bem-vinda tentativa de retorno à fórmula da franquia. E, apesar das manchetes
    equivocadas de alguns veículos mais afeitos às chamadas polêmicas, não é a
    última missão do personagem. No máximo, pode ser a última participação de
    Craig, um ator que exerceu bem sua função.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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