Cine Noir – “A Dama de Shangai”, de Orson Welles

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A Dama de Shangai (The Lady from Shanghai – 1948)

Michael O’Hara (Orson Welles) é um marinheiro que vê a bela Elsa Bannister (Rita Hayworth) passeando de charrete no parque. Ele a ajuda quando ela é assaltada por três homens, levando-a até seu carro. No dia seguinte, Michael recebe a visita de Arthur Bannister (Everet Sloane), marido de Elsa e um advogado criminalista consagrado, que deseja que ele trabalhe em seu iate durante uma viagem que o casal fará. Inicialmente relutante, ele aceita o trabalho devido à atração que sente por Elsa. Na viagem também está George Grisby (Glenn Anders), sócio de Arthur, que oferece a Michael US$ 5 mil caso
ele o mate.

Mesmo tendo sido prejudicado pelo produtor Harry Cohn, com inserção de trilha sonora onde o silêncio seria mais sábio, além de cenas editadas a ponto de confundirem ainda mais a trama, o produto final consegue ser um testamento da genialidade de Orson Welles, um noir visualmente único, praticamente um deboche do diretor com as convenções do gênero, com direito a uma sequência farsesca, quase onírica, passada em um tribunal.

O desfecho, o jogo de espelhos, sempre é lembrado pelos críticos, já que é a execução de estilo menos sutil, porém, há grande mérito em cenas menores, como aquela que inicia o filme, o primeiro encontro de Michael e Elsa, até o momento em que ele a resgata das mãos de três bandidos, conduzindo a jovem até a casa dela.

A iluminação, os olhares, a maneira teatral como ela pede ajuda, complementada pela maneira antinatural com que ele edita a luta, abusando da aceleração do tempo e do corte de frames, a carruagem convenientemente vazia ao final, a divisão de classes simbolicamente evidenciada quando ele está conduzindo o veículo, em suma, a forma como toda a sequência é montada deixa claro que a inteligente mulher armou aquela situação para capturar o tolo e ingênuo marinheiro. Em revisão, sabendo o desenrolar da história, essa cena se torna ainda mais impressionante. A riqueza visual na construção desta sequência inicial é muito mais interessante que o celebrado desfecho.

Rita Hayworth vive uma femme fatale diferente do que se costuma ver no gênero. Não há traço de ambiguidade em suas atitudes, não há ganância, sua voz é mansa, fria, controlada. Ela é uma mulher que foi vítima de tanto abuso psicológico pelo marido, que acabou desprovida de qualquer noção mínima de empatia.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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