Emir Kusturica, o Ator de Cinema

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    O fascínio pelo cinema na vida do sérvio Emir Kusturica
    começou cedo, aos dezesseis anos, quando fez uma pequena ponta como ator,
    indicado pelo pai que era amigo do diretor, na pérola esquecida de guerra: Walter
    Defende Sarajevo (Valter brani Sarajevo), de 1972, uma pouco sutil propaganda
    comunista comandada por Hajrudin Krvavac, um projeto que chegou a fazer
    tremendo sucesso na China. Seis anos depois, após receber vários prêmios
    estudantis como diretor de curtas, entre eles, por Guernica, adaptado de um
    livro do respeitado escritor sérvio Antonije Isakovic, que levou o primeiro
    lugar no Festival de Karlovy Vary, o garoto se formou, longe de casa e das
    ideologias políticas de sua família, na faculdade de cinema da prestigiada Academia
    de Praga.

    Com o entusiasmo de quem tem por ideal maior o constante
    aprimoramento, o jovem não perdeu tempo, praticou e aperfeiçoou sua técnica em
    pequenos projetos televisivos na Iugoslávia, como Nevjeste Dolaze (1978), onde
    encaixou uma pequena participação não creditada como ator, e Bife ‘Titanic’
    (1979), em que também foi responsável pela adaptação do livro do romancista
    iugoslavo Ivo Andric. Esses trabalhos aparentemente minimalistas em escopo deixavam
    transparecer um forte senso crítico, algo que impressionava os professores,
    extasiados com a facilidade do aluno em elaborar instigantes metáforas visuais
    com baixíssimo orçamento. E, sem uma educação formal como ator, ele conseguiu
    conduzir instintivamente essa facilidade lúdica para seus trabalhos posteriores
    na frente das câmeras. Essa habilidade acabou se tornando o seu grande
    diferencial na indústria, aliado ao ato de direcionar com frequência sua
    atenção para as camadas menos favorecidas da sociedade, utilizando humor e
    generosas doses de realismo mágico, essa difícil arte de captar o elemento
    surreal a partir de uma encenação fincada na realidade, criando sequências em
    suas obras que realmente permanecem na mente por um longo tempo após a sessão.

    Pense em “Vida Cigana” (Dom za vesange), de 1988, que irá
    com certeza se lembrar da adorável interação entre o sonhador Perhan (Davor
    Dujmovic) e sua avó (Ljubica Adzovic), o coração pulsante da trama,
    especialmente no momento em que ela defende o neto da verborragia
    preconceituosa da gananciosa mãe daquela namoradinha dele. Como esquecer também
    o hilário “sequestro” das paredes da casa da família, o ato desesperado de um
    parente viciado em jogo? Nesse projeto, o roteiro, escrito em parceria com
    Gordan Mihic, utiliza a comunidade cigana como um microcosmo, com todos os
    diálogos falados na língua romani, tendo na figura de seu protagonista o relato
    clássico do inocente que desce ao inferno, em essência, um conto de
    amadurecimento idealizado por um profissional já emocionalmente maduro, ainda
    que em desenvolvimento constante, envolvido em uma aura única que convida à
    imersão sem reservas do espectador, um aspecto valorizado sobremaneira pela
    trilha sonora de Goran Bregovic, que consegue transmitir o profundo amor do diretor
    pelo tema. Temas como “Scena Perhanove Pogibije” e “Glavna Tema”, com sua
    fascinante aura de melancolia, e, claro, a impressionante “Ederlezi”, uma
    versão de uma canção folclórica balcânica, que toca na cena mais famosa, o
    interlúdio onírico ambientado na festa de São Jorge. O interessante é constatar
    que, como ator, ele se mantém fiel à sua ortografia enquanto cineasta, partindo
    de um embrião fincado na realidade, porém, nunca limitado por ela.

    Outro aspecto que se revela em suas atuações, e que preenche
    com caráter as lacunas de um treinamento formal, é a atitude franca com que
    aborda seus personagens. Quando analisado a fundo, acaba se mostrando uma
    extensão natural de sua conduta pública, algo que se pode enxergar em suas
    entrevistas e aparições em eventos. Ele não se furta de dizer o que pensa, sem
    polimento social, fazendo uso generoso de metáforas ao organizar uma linha
    argumentativa, quase sempre, surpreendendo o interlocutor com uma finalização
    que é a perfeita antítese de tudo que ele havia estabelecido anteriormente.
    Esse tipo de autenticidade não se aprende em faculdades, a ousadia de estar
    sempre tentando instigar a reflexão no outro, evitando a condução linear de
    pensamento, exatamente como o mágico que ilude o público a prestar atenção na
    coreografia das assistentes de palco, enquanto opera o truque diante de seus
    olhos. Com Kusturica atuando, você nunca sabe exatamente o que esperar, e,
    muito provavelmente, ele encontrará uma forma de desconstruir, ao longo do
    filme, a visão que você fez do personagem. Quando o roteiro não coopera nesse
    sentido, você percebe que ele insere sutis detalhes em cena, trejeitos e
    olhares, que agregam mais camadas ao arco narrativo. Por não ter sido moldado
    em qualquer estilo de interpretação, ele, um lobo solitário, exerce o mais
    difícil, a total liberdade criativa de um ator, algo que os profissionais com
    educação formal acabam aprendendo que é essencial somente com muitos anos de
    experiência, quando então, na prática, como todos os alunos, vão lapidando, retirando
    os excessos acadêmicos, a desnecessária, e, acima de tudo, limitante, gordura
    extra na arte da representação.

    Kusturica fez pontas como ator em dois de seus filmes: “Underground”,
    vivendo um traficante de armas, e, com maior destaque em “Arizona Dream”, como
    um cliente de atitudes exóticas em um bar, porém, só começou efetivamente a
    dedicar uma maior atenção a esse talento natural em 2000, no filme “A Viúva de
    Saint-Pierre” (La veuve de Saint-Pierre), sendo dirigido por Patrice Leconte,
    que se interessou nele após ver uma foto no jornal, uma imagem muito similar à
    forma como o diretor imaginava o personagem, um homem banido da sociedade por
    um ato impensado, que acaba sendo vitimado por um amor proibido advindo de um
    sentimento de gratidão pela nobre vivida por Juliette Binoche. A brutalidade do
    personagem, característica que se ajusta perfeitamente ao seu porte físico
    grandalhão, faz o contraste ser mais contundente, quando Neel vai gradualmente
    deixando suas emoções transparecerem. O roteiro fornece material que, sem
    exagero, teria todo potencial para virar novela mexicana nas mãos de atores
    menos capazes, mas, já demonstrando segurança na função, Kusturica se esquiva
    de todas as oportunidades de abraçar uma caricatura unidimensional, optando por
    um desabrochar emocional minimalista, evidenciando nos espaços mortos, no
    subtexto de várias cenas, o peso do remorso que move suas ações, assim como a
    fagulha de gentileza que sinaliza a existência da ferramenta necessária para as
    importantes modificações internas que irão assegurar a sua eventual redenção. Por
    esse trabalho, Kusturica foi indicado ao César como Melhor Ator Coadjuvante.

    Na ótima produção seguinte, “Lance de Sorte” (The good thief),
    dirigida por Neil Jordan em 2002, inspirado livremente em “Bob, o jogador” (Bob
    Le flambour), clássico de Jean Pierre-Melville, além de uma das melhores
    atuações da carreira de Nick Nolte e uma excelente trilha sonora com Leonard
    Cohen e Serge Gainsbourg, temos Kusturica voltando às raízes, uma ponta de luxo
    que o possibilitou exercer outra de suas paixões: a música, vivendo Vladimir, um
    guitarrista/especialista em sistemas de segurança, que se expressa
    constantemente em riffs de canções de Jimi Hendrix, novamente transformando um
    personagem pequeno na trama em uma espécie de Boba Fett do cinema alternativo,
    uma figura tão exótica e interessante, que o público fica querendo saber mais
    sobre ele após o fim da sessão. Qualquer outro ator teria se limitado à função
    de alívio cômico estereotipado, em teoria, pelas páginas do roteiro, uma
    suposição plenamente justificável. O próprio Jordan afirmou publicamente que,
    levando em consideração o fato do colega diretor deixar claro que não sabia
    atuar, escalou ele apenas por sua presença física imponente. Ele não imaginava
    que, ao entrar no jogo depreciativo de Kusturica, agregaria ao produto final
    uma interpretação coerente ao cerne ideológico do filme, que trabalha a
    temática da ilusão que gradativamente consome a realidade, com o ator
    instintivamente captando, com sua sensibilidade de criador, os leitmotivs, as
    simbologias visuais recorrentes das pinturas falsas e dos gêmeos, vividos por
    Mark e Mike Polish, que brincam irresponsavelmente com a questão da identidade.
    Destaco aqui a primeira aparição do personagem, mostrado em um decrépito
    armazém, improvisando um solo de guitarra que, por intermédio de um computador,
    está sendo transformado em uma abstrata exibição de laser. Ao operar essa alquimia,
    Vladimir resume toda a filosofia por trás do discurso do filme.

    Kusturica seguiu atuando como coadjuvante em filmes mais
    despretensiosos, como “Viaggio segreto” (2006), a curiosa antologia “Sete dias
    em Havana” (7 días em La Habana, de 2012), o bom road movie “Hermano” (2007) e
    o excelente thriller de espionagem, injustamente pouco conhecido no Brasil, “O caso
    Farewell” (L’Affaire Farewell), de 2009, dirigido por Christian Carion, onde
    Kusturica vive com extrema competência um espião russo disposto ao sacrifício
    por seus ideais. O fascinante estudo de personagem, uma das entregas mais
    emocionantes dele como ator, substituindo com inteligência as desnecessárias
    cenas tradicionais de ação. A interação dele com o civil francês, vivido por
    Guillaume Caunet, para quem passa informações políticas sigilosas, é a alma da
    obra, o fator que convida à revisão, uma abordagem realista do relacionamento
    arriscado entre esses dois homens, sem a mitificação romantizada usual das
    tramas de espionagem hollywoodianas e inglesas. Por esse trabalho, ele recebeu
    o prêmio de Melhor Ator no Courmayeur Noir Film Festival.

    Em seu projeto mais recente, o primeiro como protagonista, “A
    floresta de gelo” (La foresta di ghiaccio), de 2014, dirigido pelo italiano
    Claudio Noce, podemos perceber a plena maturidade dele como ator, novamente contrastando
    sua figura imponente e enigmática com uma vulnerabilidade psicológica, peças no
    quebra-cabeça de um mistério que vai lentamente sendo descortinado no decorrer
    da trama. O que mais me impressiona é como ele faz tudo parecer fácil, não há
    esforço em seus gestos, não há ritmo predeterminado em seus silêncios, e, o
    mais espetacular, sem revelar muito da trama, não há violência no contra-ataque
    que ocorre próximo ao desfecho, mas, sim, uma espécie de cansaço/esgotamento
    existencial. Nessa bonita cena, quase toda filmada em câmera lenta, ele dá uma
    aula de sensibilidade e mostra que a melhor qualidade de um ator não está na
    emulação de diversas personalidades, mas, sim, na firme compreensão de que seu
    trabalho está intimamente ligado ao nível de segurança com que se mantém fiel à
    sua própria personalidade. Ao se conhecer sem reservas, o bom ator conquista a
    liberdade de perscrutar sem medo outros vastos territórios emocionais.

    * Artigo escrito para o catálogo da “Mostra Kusturica”, realizada na Caixa Cultural (RJ), de 6 a 17 de Janeiro de 2016, a maior retrospectiva da obra do cineasta sérvio na América Latina.

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