“Um Dia Muito Especial”, de Ettore Scola

    0

    Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare – 1977)

    Meu primeiro contato com a obra do diretor italiano Ettore
    Scola foi com o ótimo “A Viagem do Capitão Tornado”, seguindo uma indicação da
    professora no curso de teatro, em 2002. Mas a paixão e a necessidade de
    explorar todos os trabalhos dele viriam mesmo no ano seguinte, quando vi pela
    primeira vez “Um Dia Muito Especial”. Sendo um fervoroso defensor dos roteiros
    que restringem o espaço cênico, o chamado “filme de câmara”, eu fiquei emocionado
    com a leveza na abordagem do relacionamento entre os personagens vividos por
    Sophia Loren e Marcello Mastroianni, que compartilham uma tarde existencialmente
    libertadora para ambos, exatamente no dia em que Hitler se encontrava pela
    primeira vez com Mussolini. Essa libertação ocorrendo enquanto os dois líderes políticos
    objetivavam o aprisionamento e a guerra. A fuga do pássaro da dona de casa para
    a janela da frente, evento simbólico que representa o desejo da dona, conduz a
    mulher ao apartamento do vizinho.

    Antonietta, mãe de seis crianças, esposa de um estúpido
    insensível que planeja engravidá-la novamente e que enxerga o seu vestido como
    pano pra limpar suas mãos, já esqueceu que algum dia chegou a utilizar
    maquiagem, o seu rosto é o retrato perfeito da conformidade. Sem estudo,
    insegura, tenta manter a dignidade que se esvai pelo buraco no sapato velho,
    procurando reconhecer no espelho os olhos da jovem divertida que outrora foi.
    Quando toda a família decide sair de casa para vivenciar as celebrações pela
    visita de Hitler, ela, incapaz de decidir algo, simplesmente permanece
    esquecida em sua gaiola para realizar suas tarefas diárias, consciente de que
    não há possibilidade de qualquer surpresa naquela monocórdia mesmice em que se
    acostumou a viver. Na janela da frente, Gabriele, um enigmático jornalista,
    cogita a hipótese de tirar a própria vida com um revólver, a solução
    imediatista equivocada, uma forma de se libertar dos preconceitos da sociedade
    com a sua homossexualidade. O toque da campainha impede o ato. Ela consegue,
    com ajuda do vizinho, resgatar o pássaro que havia se alojado próximo à janela
    dele. É impossível não se lembrar do belo “Desencanto”, de David Lean, ao
    acompanharmos a terna interação do casal, o crescente fascínio da mulher pela
    gentileza de um homem inteligente, o que ativa novamente o esquecido entusiasmo
    pelas coisas mais simples. O marido encorajava seu desinteresse cultural, já
    que dependia disso para exercer com facilidade seu domínio psicológico.
    Gabriele a presenteia com um livro. E, num gesto de profundo carinho, permite
    que ela satisfaça nele o seu desejo sexual, adormecido após vários anos de
    subserviência.

    A opção por iniciar com uma longa sequência de cenas de
    arquivo reais da visita de Hitler, realçadas pela frequente inserção de
    transmissões de rádio como pano de fundo, ajudam a estabelecer o clima de
    opressão que se reflete no microcosmo representado pelo casal dentro do
    apartamento. Ao final, a mulher que é devolvida à rotina diária não parece estar
    disposta a se deixar escravizar, Antonietta, agora com um livro nas mãos,
    aprendeu a revidar. Esse é o legado de Gabriele.

    RECOMENDAMOS


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Please enter your comment!
    Please enter your name here