“Celine e Julie Vão de Barco”, de Jacques Rivette

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    Celine e Julie Vão de Barco (Céline et Julie Vont en Bateau –
    1974)

    O diretor Jacques Rivette faleceu recentemente, um dos críticos
    franceses da geração de ouro da Cahiers du Cinéma, colega de Truffaut, Godard,
    Rohmer e Chabrol, dentre outros, intensamente criativo em teoria, porém,
    problemático na execução. Os seus filmes ultrapassam generosamente duas horas
    de duração, o que, quase sempre, ocasiona o enfraquecimento do impacto de suas
    boas ideias. Poucos são os filmes que verdadeiramente se beneficiam com mais
    que cem minutos, tempo suficiente para contar eficientemente qualquer história.

    Dito isso, eu gosto bastante de “Celine e Julie…”, “Paris
    nos Pertence”, “A Duquesa de Langeais” e “A Bela Intrigante”, especialmente o
    primeiro e o último, onde o conceito do tempo acaba funcionando narrativamente
    como o destruidor das expectativas convencionais de um cinéfilo. As mais de
    três horas de “Celine e Julie…” intensificam a noção de que tudo é possível,
    o público está admirando um terreno inexplorado e imprevisível, a imaginação
    fértil das duas personagens. Quando o cineasta utiliza um novo padrão de signos
    visuais, o espectador fica como um cego tateando o caminho, buscando formas de
    responder a algo que desconhece, sem os reflexos programados pela indústria. A
    óbvia referência à Alice de Lewis Carroll na cena inicial, que se repete, com
    os papéis trocados, no desfecho, mostrando uma das duas amigas como sendo o
    elemento de caos que se insere no rotineiro, representando o coelho que
    estimula a menina a descobrir um mundo novo, introduz ao espectador essa noção.

    As duas, brincalhonas e inconsequentes, acabam encontrando
    uma mansão assombrada, outro núcleo de atores, uma espécie de teatro dentro do
    filme. Rivette, como sempre, faz parecer que a trama está sendo descoberta no
    processo de produção, a história tem vida própria. Com o auxílio de pequenas
    balas que, quando consumidas, fazem com que elas enxerguem passivamente o
    desenrolar da trama de mistério que ocorre dentro da mansão, o roteiro coloca
    as personagens no papel do público, reagindo aos estímulos audiovisuais. Ao
    optar pela repetição frequente das cenas desse segundo núcleo, nos mesmos
    enquadramentos, algo que faz com que as jovens cheguem até a memorizar as
    falas, o diretor critica a indústria e o cinéfilo que se permite adestrar
    cognitivamente. Nos últimos vinte minutos, ponto alto do filme, as jovens
    decidem participar ativamente daquela história, a linguagem do cinema, com suas
    ferramentas únicas, invade com muito bom-humor o terreno do teatro, desconstruindo
    cada situação com o frescor do improviso, potencializando a crítica já citada, mostrando
    que a narrativa, muito mais do que a história, é o que verdadeiramente cativa o
    público.

    Não há lógica, não há regras, uma visão libertária de como
    poderia ser o cinema, caso o ser humano não preferisse o conforto fornecido por
    aquele sistema de regras que já conhece.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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