Entrevista com Paulo Braz Clemencio Schettino, professor de cinema

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    Em mais uma entrevista exclusiva para o “Devo Tudo ao Cinema”, converso com o amigo Paulo Braz Clemencio Schettino, professor de cinema e cineasta, que escreveu o livro “De Bello Media – O Novo Cinema Brasileiro”.

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    O – Querido amigo, em um
    carinhoso comentário seu na postagem do meu texto sobre o filme “Ela”, você
    afirma desconfiar que a preocupação doentia de substituir o real pela imagem na
    sociedade, tema central do filme, pode ter começado com o próprio cinema. Achei
    fascinante essa análise. Peço que desenvolva isso, agora que já viu o filme.

    P – Repriso em sessão vesperal o que
    antes demonstrei da satisfação com que recebi teu convite para escrever sobre o
    Cinema. Sensação de honraria sentida que cumpro com grande prazer.

    O filme “ELA”/Her, de Spike Jonze
    (2013) pode ser visto a nosso ver como
    um exemplar do gênero ‘Ficção Científica’ no Cinema, com uma ressalva: ao invés
    de tratar de projeções de futuro baseando-se nas mais recentes supostas
    verdades da Ciência já que deriva do que chamamos ‘Literatura de Antecipação’, traz
    uma diferença – trata de uma realidade já existente visto existir um grande
    percentual dos atuais humanos a viverem exclusivamente em contato direto com
    seu imaginário particular via computadores (semelhante ao filme “Gattaca”/idem
    que aborda a Engenharia Genética existente em um presente, mas, colocado como
    algo em ‘futuro não muito distante’).

    O título com que foi lançado no
    Brasil nos remete à primeira versão do romance de aventuras do escritor inglês
    Sir Henry Rider Haggard – “Ela, a feiticeira” realizado na década de 30 com o
    jovem Randolph Scott, antes do faroeste, no papel do atual Joaquin
    Phoenix. E a antiga “Ela” agora se
    transforma em ‘Dela”/Her – deixando para trás o pronome de caso reto em direção
    ao oblíquo, e a personagem feminina cede o protagonismo para a personagem
    masculina que ocupa quase 100% o tempo todo de tela.

    Sim, acreditamos! Foi com o
    Cinema que tudo começou.

    Aos poucos as imagens de mulheres
    e homens, transformados em estrelas a iluminar os céus ilusórios, foram
    substituindo as pessoas de ‘carne e osso’, por décadas, dos anos 20 até nossos
    tempos. Confere com a personagem
    feminina de Woody Allen em “A Rosa Púrpura do Cairo” que graças à revolução da
    tecnologia digital, agora, poderia ‘ir para a cama’ não com Ela ou Ele, e sim
    com sua imagem, Dela ou Dele.É definitivamente
    possível abandonar a primeira realidade
    de nossa circunstância e mergulhar por inteiro no sonho ou fantasia. E tudo
    começou no. . . e com o Cinema.

    Faz parte da ideia do Cinema
    ocupar a ambiência onírica de tal forma que a ilusão se complete a ponto de
    esquecermos as nossas vizinhanças e não mais perceber onde estamos e sequer o incomodativo
    vizinho da cadeira, o irritante barulhinho do desembrulhar de seu dropes – mergulhados que estamos em quase outra
    dimensão. Quando tem mão de mestre e o
    Filme é bom engole-se a Mentira esquecidos que estamos diante de uma
    Representação, e não da própria Vida! E rimos, choramos, sofremos. . . e,
    conforme Aristóteles, depuramos nossa Alma com a Alegria ou o Sofrimento
    alheio. Aos poucos, na saída do cinema retomamos o nosso estado de
    ‘normalidade’ e caímos ‘na real’!

    O – Sempre digo, de forma simbólica, que o
    cinema nacional precisa se libertar de Glauber Rocha. Os estudantes saem das
    faculdades sendo doutrinados a endeusarem a estética da fome, desprezando o
    cinema de gênero. Não há maneira de construir uma indústria de cinema
    desprezando gêneros, somente a prática leva à perfeição. Como você enxerga essa
    questão?

    P – No nosso entender, mais do que a
    ‘estética da fome’, deve-se sepultar uma falácia atribuída ao diretor baiano
    que faz os iniciantes crerem que para fazer Cinema ‘bastariam uma câmera na mão
    e uma ideia na cabeça’. Nada mais perigoso para quem pretende começar a fazer
    filmes. Disseminou-se também a outra falácia que o mestre Fellini ia para os
    estúdios sem Roteiro – hoje temos disponíveis os seus desenhos de produção
    próximos de um story board, portanto, planejamento a priori.

    Insistimos ser o Cinema, desde o
    seu início e sempre, dependente da Luz que é a sua Ferramenta mor, perseguir o
    Sonho, seu Objeto de Desejo – e o Filme, o seu Produto. Os gêneros de filmes são tão livres quanto a
    nossa imensa liberdade de sonhar – ninguém coloca cercas no universo dos
    sonhos. Nessas paragens as
    contextualizações espaciais e temporais deixam de existir e nos aprisionar e
    nos liberamos dos grilhões dos 1D, 2D, 3D . . . tornando-nos voláteis e etéreos
    e libertos. A nossa Dalva de Oliveira um
    dia cantou: “Que me importa que eu seja pobre/Se quando sonho, tenho o que
    quiser/Vou sonhar, pra viver.”

    No entanto, a experiência nos
    ensina que não faz filmes quem não vê filmes, assim como não existe um escritor
    que não seja bom leitor. Os livros vêm
    sendo reescritos a cada geração desde a Antiguidade, e de modo semelhante os
    filmes vêm sendo refeitos faz mais de cem anos – é o Palimpsesto a que se
    refere o francês Gérard Genette.

    O mesmo Genette que de acordo com
    Homero e Aristóteles e Platão nos ensina as bases sobre a questão de Gênero,
    válido tanto para a Literatura quanto para o Cinema – os arquitextos de ambas
    as áreas seriam Épicos (feitos para serem lidos ou ouvidos) ou Dramas (próprios
    para imitação), Trágicos ou Cômicos, e a subdivisão entre Documental ou Ficção.
    Genette inclusive assume a diversidade de gêneros exposta nas prateleiras das
    recentes/antigas locadoras de filmes a gosto e escolha do freguês: filmes classificados
    como de Amor ou Romance; de Guerra; de Espionagem; Faroeste; Cinebiografias; ‘Noir’;
    e. . . Ficção-científica, inclusive. O que importa e define o gênero seria o
    Tema.

    Uma cinematografia nacional
    deveria contemplar essa diversidade de gêneros e subgêneros se quiser atender também
    a diversidade de seu público.

    O – Além do roteiro, um grande
    problema que temos é a distribuição. Se o filme não tiver o dedo da “Globo
    Filmes” na produção, ele tem pouquíssimas chances de ser exibido numa sala. E,
    caso consiga, sua permanência é ridiculamente curta, com tudo jogando contra. O
    cinema nacional acaba dependendo dos cinéfilos mais dedicados, aqueles
    garimpeiros que frequentam os festivais. O brasileiro não conhece seu próprio
    cinema, já que ótimas pérolas nunca são lançadas fora do circuito dos
    festivais. O grande público, infelizmente, soma no discurso de que nossos
    filmes são ruins. Como você analisa essa questão?

    P – O problema é que as principais
    bases em que se assenta a Cinematografia não se modificam, como querem alguns,
    apenas trocando os termos, pois, elas, as bases, é claro, sobrevivem ao tempo
    independente das palavras que se sucedem por puro modismo – dizer a mesma coisa
    com novos nomes.

    O famoso tripé que sustentou e
    sustenta o Cinema continua a existir, ou seja: Produção / Distribuição (venda no
    atacado) / Exibição (venda a varejo).

    Como nos movimentamos pelas
    diversas áreas acadêmicas e de Ensino da Comunicação (Imprensa/Jornalismo / Publicidade
    & Propaganda / Relações Públicas / Rádio-TV-Internet / e Cinema) acabamos
    misturando os departamentos. Ao longo
    de nosso exercício de trabalhador de Cinema cansamos do exaustivo fetiche ou
    crença do ‘boca-a-boca’ – de que alguns produtores e ou diretores faziam e fazem
    muita fé. Exibir para algumas pessoas especiais que usufruem do título de
    ‘formadores de opinião’ ou aqueles que fazem parte do público-alvo a ser
    atingido é bom e funciona parcialmente, mas jamais será suficiente. Diz a lenda que a partir de uma ‘preview’
    desse tipo é que o mestre Billy Wilder teria modificado toda a sequência
    inicial de seu filme “Crepúsculo dos Deuses”/Sunset Boulevard – a Hollywood Story
    (talvez o melhor filme de Metalinguagem do Cinema).

    Os grandes ‘media’ não trabalham
    sem ganhar – é a Lei do Mercado, sob que vivemos e encontra-se atuante e forte,
    mais do que nunca. Sem um grande planejamento
    e de grande orçamento que os envolva, o público não será alcançado jamais. Entendemos e divulgamos ser o Cinema uma
    hierática Esfinge de mil máscaras ou faces, e dentre essas múltiplas faces
    selecionamos três prioritárias, a saber: Mercado / Medium de Comunicação /
    Arte. Busca-se com o Filme atingir
    o público, geral ou segmentado – última instância a que se reduz o ‘outro’ no
    processo comunicacional, e isso custa muito dinheiro grosso. Distribuição
    e Exibição continuam, e talvez
    mais do que nunca, a se constituírem no famoso e antigo ‘gargalo’ a represar
    uma Produção a exigir que se invista bem mais em estratégias de publicidade do
    que se gastou na Realização. O filme de Hollywood, antes de ser lançado aqui no
    Brasil e qualquer outra parte do mundo, em sua grande maioria já chega
    ressarcido ao novo destino pelo hábito de consumo interno de Cinema nos
    EUA. ‘Já se pagou’, como se costuma
    dizer. Mesmo contando com a colonização
    cultural construída por décadas aqui e nos outros países, torna-se necessário ‘molhar’ as mãos dos media, e regiamente.
    E isso custa dinheiro!

    Faz-se um exercício de Arte e
    Comunicação ao parir um Filme que, como se dizia em tempos idos finalmente:
    “Está na Lata!”, para morrer na praia das prateleiras.

    Como cantaram Joel Grey e Liza Minnelli: “Money makes the
    world go around!”

    E tens muita razão – sobraram os
    festivais para alavancar o Filme.

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    O – Como você vê o papel da
    crítica cinematográfica na formação, não apenas de um público mais criterioso,
    mas, também, de uma indústria sólida? A crítica, que vejo como uma vertente da
    filosofia, é incompreendida em nossa nação, a leitura não é um hábito.
    Testemunhamos frequentemente cineastas batendo boca com profissionais da
    crítica, ou, como foi o caso em “Chatô”, tentando comprar opiniões positivas
    participando ativamente das cabines de imprensa. Há esperança?

    P – Esperança, sempre haverá – esse ente
    ambíguo criado por Zeus e por ele estrategicamente deixado para existir somente
    após ser esvaziada a ilusória caixa (?) de Pandora. Etimologicamente, a palavra
    ‘crítica’ diz respeito à análise e é o que todo espectador de Cinema faz mesmo
    ao ver atabalhoadamente filmes e filmes – termina-se por adquirir de modo
    inconsciente a capacidade de comparação e apreensão de sua linguagem e
    sucessiva aglutinação ou separação em gêneros. A Imprensa do século XIX e XX
    criou a figura do crítico profissional ao abrigar em suas páginas um texto
    apreciativo de um espetáculo em cartaz no momento. Mas, isso gerou uma distorção: a ‘pena a
    soldo’, típica do Jornalismo malsão.

    Em quantos filmes vimos o Cinema
    tratar dessa personagem ??? Quantas
    vezes um filme mostrou a ‘troupe’ teatral esperando ansiosa nos bares ou
    restaurantes a saída do primeiro jornal matutino com a crítica do espetáculo ??? Quantos filmes ??? Basta-nos lembrar da personagem interpretada
    pelo ator George Sanders em “A Malvada”/All About Eve, de Joseph Mankiewicz,
    com poder de vida e morte do espetáculo, e mais ainda, de criar uma nova estrela.

    No Brasil, para estudar melhor o
    assunto nos detivemos nos textos de Ely Azeredo, Sérgio Augusto e José Lino
    Grünewald, entre outros. Eram outros
    tempos em que os jornais de grande circulação no país abrigavam os textos da
    chamada ‘crítica especializada’. Na
    atualidade, para desespero das empresas jornalísticas, o seu público de
    leitores fiéis e assinantes vêm caindo vertiginosamente – o salutar hábito
    matinal de leitura acaba e é substituído por sucedâneos meios de informação, as
    modalidades de TV, principalmente.
    Quanto ao ‘povão’ basta-lhe a leitura das manchetes dos jornais
    pendurados nas bancas de jornaleiros com que se sacia.

    Na atualidade, em tempo das redes
    sociais na Internet, a crítica cinematográfica voltou a ser exercida em alguns
    ‘sites’ e ‘blogs’ de Cinema como “Eugênio em Filmes” (http://cineugenio.blogspot.com.br)
    ou o seu www.devotudoaocinema.com.br, entre outros importantes.Vejo por aqui na Internet uma salutar troca
    imensa de informações sobre filmes atuais e dos clássicos nos ‘grupos’ que
    pululam, sejam abertos ou fechados. Importante essa troca de opiniões sobre um
    determinado filme entre os autonominados ‘cinéfilos’ – uma interrelação entre
    desconhecidos que descobrem no outro a possibilidade de afirmar seus pontos de
    vista particulares tanto em acordo quanto desacordo. Um espaço disponível à expressão de possível
    discussão entre dois desconhecidos. Seria essa interação o que chamamos de
    ‘democratização’ cultural? Creio que o
    Cinema esteja ganhando com essa prática.

    No nosso entender, a função de
    ‘crítico de Cinema’ ou ‘de Filmes’ é importantíssima, pois, leva à leitura dos
    textos os espectadores que desejam confrontar a opinião com a sua, de
    leigo.Em tempos idos, alguns
    espectadores só viam os filmes ‘bem falados’ ou elogiados pela crítica.
    Felizmente, cremos que isso tenha acabado com a diminuição do público leitor da
    palavra impressa nos jornais e revistas da Imprensa. E eis que se abre um
    espaço ‘democrático’ para o exercício da Crítica cinematográfica.

    O – Quando o cineasta brasileiro
    consegue colocar um personagem na boca do povo, ele normalmente recua, não
    investe mais naquilo. O sucesso popular sempre foi um tabu para os intelectuais
    brasileiros. Tudo que faz sucesso perde o valor. Essa noção limitada de
    marketing, alimentada pelo complexo de vira-latas, não atrapalha a construção
    da indústria? Você acredita que mudando essa forma de pensar, abraçando o
    sucesso popular como algo válido, o cinema nacional tende a crescer?

    P – Aqui necessito ir por partes,
    como gosta o nosso amigo Jack. Ou como
    nos ensina o grande imperador César
    quando afirma ser necessário ‘dividir para conquistar’ o que se pretende.O primeiro período da questão se encerra com:
    “. . .
    faz sucesso perde o valor (1- até aqui). (Início do 2) Essa noção
    limitada de marketing. . . “ .

    Esse primeiro período tangencia
    uma bobagem disseminada por alguns realizadores ‘cinemanovistas’ das décadas de
    60 e 70. Há registros, sim, de tais
    ditos e repetidos, porém, cremos que foram proferidos como mecanismo de defesa
    prévio antecipando o fracasso de bilheteria – algo como sucede no final da
    fábula da raposa e as uvas ‘verdes’.
    Quando se fala em ‘sucesso popular’ está se falando de ‘público’
    destinatário de todo o processo de comunicação. E sem o público pagante
    inexiste uma produção contínua de filmes o que caracterizaria a existência de
    uma indústria cinematográfica. Chegou-se bem perto com a carioca Atlântida, ao
    contrário da paulista Vera Cruz, na virada das décadas 1940 e 50, já que a
    primeira optou pelo cinema de ‘entretenimento’ e diversão – uma das mais
    eficazes faces ou máscaras do Cinema. Atrair o público através do
    entretenimento foi a fórmula aparentemente inocente que forjou a indústria
    hegemônica estadunidense, e sem abrir mão de colocar subjacentes mensagens
    ‘educativas’ – bem ao contrário do que jocosamente teria dito em autodefesa
    perante o macarthismo o diretor e produtor William Wellman (teria alegado que
    quem pretende enviar ‘mensagens’ se dirige aos correios e não ao cinema).

    Agora, uma confissão perigosa: acreditamos
    quem teria complexo de ‘vira-latas’ seria o nosso povo brasileiro, assaz
    colonizado por anos e anos de exposição aos filmes de Hollywood. Filme
    brasileiro para fazer sucesso de bilheteria no Brasil precisa ter o aval de
    fora. Teria sido o caso histórico de “O Pagador de Promessas”, “Deus e o Diabo
    na Terra do Sol”, “Vidas Secas”, “Toda Nudez Será Castigada”, “A Hora da
    Estrela”, entre outros. Segundo o
    diretor Roberto Farias o sucesso de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” seria uma
    exceção. Penso que nesse caso específico o aval teria vindo da Televisão com o
    sucesso popular da atriz Sônia Braga. Assim como a bilheteria do filme “A Dama
    do Lotação”.O derradeiro suspiro
    cinematográfico do ator José Wilker que
    importou sua personagem da telenovela para seu “Giovanni Improtta” parece não
    ter funcionado. Como não funcionou no Cinema
    as vezes que foi tentado usar o auge de popularidade televisiva da atriz
    Regina Duarte como chamariz de bilheteria.

    O – Seguindo a pergunta anterior,
    da mesma forma como as chanchadas da Atlântida e Cinédia começaram a ser mais
    valorizadas hoje, você acredita que esse ciclo de comédias da “Globo Filmes”, atualmente vistas como lixo
    tóxico pela crítica, vai pelo mesmo caminho?

    P – Tudo é possível, já que entendemos
    o Cinema como um sucedâneo tecnológico da Fotografia. Indo além de sua antecessora, o Cinema traz
    a perenidade ou imortalidade para as coisas e gentes gravadas em movimento. Duvidamos muito que o diretor Roberto Santos ao rodar em seu
    filme “O Grande Momento” o antológico plano-seqüência do giro da personagem de
    Gianfrancesco Guarnieri dizendo adeus à sua bicicleta tenha sequer imaginado
    que em um ‘futuro não muito distante’ seria uma peça-chave para pesquisa de
    estudiosos de História e/ou em Arquitetura e Urbanismo de uma São Paulo
    desaparecida. Muito menos que a nova ordem mundial ordenaria que em um ‘futuro
    não muito distante’ as ruas e avenidas das metrópoles de todos os países seriam pintadas do vermelho uniformizador das ‘ciclovias’.

    Esse olhar nostálgico voltados
    aos filmes da Cinédia e da Atlântida é importante para as novas gerações que
    distraídas pela beleza ou feiura do próprio umbigo acreditam piamente que o
    mundo começou apenas depois que eles nasceram.Usamos os Filmes do Cinema ou suas presenças na Internet em nossas
    salas-de-aula – os acervos históricos da Cinédia, Atlântida e Vera Cruz
    deveriam ser de domínio público.A
    recepção dos filmes pelos alunos é fato inconteste. Mas, não basta ocupar o
    tempo da aula com a exibição, isso seria e o que muito costumeiro, ‘matar
    aula’. Sem a discussão em grupos não
    deve sequer ser tentado.

    Voltando à questão: acreditamos
    que com o passar do tempo todo filme ganha importância – mesmo uma ficção
    rasgada vira documental.Scorsese tem
    razão!Temos que salvar os filmes,
    independente do valor que a eles se agrega no momento. São registros, são
    documentos que no futuro um pesquisador lançará mão para nem que seja analisar
    o momento histórico de sua realização e seu entorno.

    fernanda marcela - Entrevista com Paulo Braz Clemencio Schettino, professor de cinema

    O – Considero “A Hora da Estrela”
    um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos, o melhor em sua década.
    Como esteve envolvido na produção, peço que compartilhe com meus leitores os
    bastidores desse lindo filme, fale sobre sua experiência com a diretora Suzana
    Amaral.

    P – 1985 foi um ano emblemático para
    uma dupla de sonhadores que ousou sonhar o sonho impossível (mais tarde
    assumido como tal) de viver do trabalho especializado em Finalização e
    Trucagens para filmes brasileiros de longa metragem. Até uma empresa criamos
    para o intento, a 786 Produções – 6 de
    Teatro; 7 de Cinema; e 8 de Televisão. De início, como éramos novidade a coisa
    pareceu deslanchar – foi o ano de “A Dança dos Bonecos”, “A Hora da Estrela”,
    “Brasa Adormecida” entre outros. A ‘fantasia erótica’ durou muito, uma teimosia
    por cinco longos anos bem maior que a do
    ‘teimoso’ (alcunha como ficou conhecido o jacaré do Rio Tietê), de cavação de
    trabalhos e dias maiores que 24h – até findar-se no “Kuarup”, de 1990, já no ‘black-out
    cinematográfico’ total do governo Collor.

    Somente no número 22, de
    Março/Abril de 1986, de sua 5ª Série a Revista Cinemin finalmente trouxe publicada uma matéria produzida por nós da 786 Produções
    sobre ‘os bastidores de “A Hora da Estrela”.
    Explico: após assistirmos a cópia final do filme reunimo-nos (a 786 –
    eu, o meu sócio Osvando – e a Suzana) em
    minha casa para decidirmos o próximo passo e comemoramos o feito. Foi então que
    aproveitando que tínhamos um acordo com a EBAL bolamos, os três juntos, a
    matéria que somente após o sucesso alcançado pelo filme no Festival de Brasília
    em 1985 e no Festival de Berlim, no início de 1986, veio à luz e com corrigendas
    explicativas da editora da revista.

    30 anos depois revisitamos tudo
    isso, e com muita emoção, botamos tudo isso
    para fora em meu filme “Ora (direis) ouvir estrelas!” para um evento
    multimídia (estava na moda, então) produzido por nós que batizamos de “Clarice
    Celebração” – a Suzana presente chorou e até hoje não me cobrou eu ter usado
    planos do filme à sua revelia. Com ele, fomos premiados no Festival
    Internacional Porto 7, na cidade do Porto/Portugal. Em 2014, nós, eu e a Suzana, reexibimos para
    meus alunos de Cinematografia da UFRN – e a emoção foi a mesma!!! Declaração:
    amo o que faço – Cinema e seu Magistério, amo meus alunos – atemporais, amo
    Clarice – autora do livro “A Hora da Estrela”, e amo Suzana Amaral – criadora do
    filme “A Hora da Estrela” – dois produtos autônomos de dois media de
    comunicação, diferentes sim, mas com uma só emoção!

    O – Quais os seus filmes
    nacionais favoritos? Disserte à vontade sobre as razões das escolhas.

    P – Temos a experiência em nossa vida
    profissional de termos criado e mantido vivo por sete anos um CineClube voltado
    para a 3ª Idade. Todos, esgazeamos
    nossos olhos alternadamente para o futuro e passado enquanto estamos no presente
    – essa sobreposição das três fatias do tempo é fato inconteste da mecânica
    quântica (o Cinema já brincou com isso em “O Retrato de Jennie”; tangenciou o
    tema em “Em Algum Lugar do Passado”; e o nosso Silveira Sampaio disso abusou no
    seu filme experimental “A Vida Começa aos 40”).

    Como gostaria de rever a
    “Iracema, a virgem dos lábios de mel” incorporada pela Ilka Soares – minha
    memória carinhosa mais antiga para mim do Cinema Brasileiro.

    Final de infância e início da
    adolescência foi um tempo como uma festa! Aí, sim! As comédias carnavalescas
    (vulgo chanchadas) da Atlântida (Oscarito e Grande Otelo, e os cantores e
    cantoras da Rádio Nacional) e em seguida aquelas de Herbert Richers (Zé Trindade
    e Violeta Ferraz, entre outros grandes!) nos empolgavam e as filas para entrar
    no cinema dobravam quarteirões (como então se dizia) – era um tempo anterior ao
    CinemaScope da Fox que iria expulsar os filmes das outras cinematografias,
    inclusive os filmes brasileiros das telas brasileiras.

    Como curtimos rever a cópia
    restaurada de “Tudo Azul”, do grande Moacir Fenelon, e o imenso prazer de
    cantar juntos e nos emocionar com as estrelas do Rádio – talvez esteja nesse
    filme a única fonte e oportunidade de se entender o que era um Rancho (arte e
    cultura extintas do Carnaval carioca) e o seu andar de procissão e o lamento
    ímpar da voz e imagem de uma Dalva de Oliveira. Criticado em sua época, hoje, nos leva ao
    Sublime – os modismos? Passam!

    Mas, felizmente ainda vimos os
    filmes italianos, franceses, alemães, e, principalmente os mexicanos – dos dramalhões
    da Pel-Mex chorando com as desventuras vividas pela cantante Libertad Lamarque
    às boas risadas provocadas pelo impagável Cantinflas.

    Não haverá uma terceira via! As
    escolhas sejam lá quais forem trazem um mal que se traduz na perda dos outros
    esquecidos. Elas somente existem em dois
    planos – o racional e o emotivo. Uns filmes tem o poder de incomodar e a eles
    voltamos sempre, outros, de nos sedar – com estes sonhamos.

    “Absolutamente, Certo!”, de
    Anselmo Duarte vale por um curso inteiro de História da Televisão – e, quando
    foi produzido certamente não teria sido essa a intenção.

    Temos “Rio, 40º” e “Rio, Zona Norte”,
    ambos de Nelson Pereira dos Santos – indiscutível ‘pai’ do Cinema Novo. Rever sempre e a miúde “Os Cafajestes” de
    Ruy Guerra. Mais a frente, os nossos
    queridos e emblemáticos “Vidas Secas” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Afundar na filmografia de uma Odete Lara,
    Glauce Rocha, Tônia Carrero – ver os não vistos e rever os que amamos.Urge reavaliar os menosprezados filmes de
    ‘Carlão’ Reichenbach (pensamos em seu “Anjos do Arrabalde – as professoras”,
    que tanto orgulho nos traz); exibir sem parar “Brasa Adormecida”, de Djalma
    Limongi Batista. Provocar a comparação
    de “Absolutamente, Certo!” com o fantástico “A Hora Mágica”, de Guilherme Almeida
    Prado.

    Mostrar que Suzana Amaral, além
    de “A Hora da Estrela”, fez filmes lindos como “Uma Vida em Segredo” e “Hotel Atlântico”, comprovadamente leitora
    atenta da Literatura Brasileira e exímia criadora dos textos da Escrita
    Fílmica, escritora de filmes cinematográficos.Voltar no tempo e buscar a portuguesinha enlouquecida por Cinema
    Brasileiro, Carmen Santos – a que morreu de CB e sua parceria com o grande
    Humberto Mauro.

    Paremos por aqui!!!Pára,
    coração!!!

    O – Acredito que o cinema
    nacional vai ganhar maturidade quando parar de se preocupar em ganhar Oscar, e
    começar a limpar a própria casa, estruturar com seriedade o esqueleto de uma
    indústria, destruir monopólios, começar a dar oportunidade para novos cineastas,
    começar a experimentar com gêneros, em suma, levar a sério o processo. Nós não
    nos preocupamos com a nossa memória cultural, os filmes antigos se perdem sem
    restauração, é uma vergonha. Pessoas como a dona Alice Gonzaga, guardiã do
    legado da Cinédia, não recebe apoio governamental em seu lindo trabalho de
    preservação. Nossa indústria é medíocre, porque as pessoas que comandam o jogo
    são medíocres, pensam pequeno. Temos muito a aprender com as indústrias de
    cinema estrangeiras. Peço que disserte sobre essas questões.

    P -A colonização cultural promovida pelo cinema
    hollywoodiano não é tarefa de fácil enfrentamento.

    Desde os velhos tempos nos albores da década
    de 1950 da longa amizade entre os senhores Harry Stone e Roberto Marinho que
    não há decisão sobre rumos e desenvolvimento do Cinema Brasileiro que não sejam
    monitorados. Em nossa pesquisa
    acadêmica enfatizamos o ano de 1954 como o ‘ano emblemático’ do confronto não
    aberto que se desvelou e acirrou a investida estadunidense de cristalizar sua
    hegemonia industrial do Cinema no Brasil e os nossos profissionais de Cinema
    que, após se reunirem em dois congressos nacionais (Rio, 1952 e São Paulo,
    1953), foram soterrados pela avalanche de velhas e novas estrelas de Hollywood
    trazida para o Festival Internacional de São Paulo, quatrocentos anos em 1954.

    Entre nossas fontes principais de pesquisa
    salientamos as revistas “A Cena
    Muda” –
    revista do nº5 (3-2-1954) ao nº
    12 (24-3-1954); Iº Festival
    Internacional de Cinema do Brasil – Programação Oficial”. Revista-livro do Iº
    Festival Internacional de Cinema do Brasil, realizado em São Paulo-capital
    entre os dias 12 e 26 de fevereiro de 1954 dentro das festividades
    comemorativas do 4º Centenário de Fundação da Cidade de São. São Paulo: Revista Elite, 1954; “Jornal do Cinema”. Revista, edição Ano III, nº3 de Março-Abril – 1954. Rio de Janeiro:
    Jornal do Cinema, 1954.

    Em 2015, no Congresso Nacional da
    Intercom, realizado em setembro na Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ,
    apresentamos uma comunicação com os resultados de nossa pesquisa, sob o título ‘Alma
    Llanera ou El Cine en Portunhól: “Êsse Rio Que Eu Amo” – A interação cultural latino-americana entre
    Brasil/Argentina, mediada pelo Cinema’.

    Nesse texto tivemos a oportunidade
    de expor nosso pensamento que responde às questões suscitadas que nos foram
    propostas, acreditamos. A seguir,
    reproduzimos parte do texto em que Cinema e identidade nacional ficam expostos
    além de situarmos o Brasil em um contexto maior:

    Mesas-redondas foram promovidas
    pela APC (Associação Paulista de Cinema) nos dias 30 e 31 de agosto e 1º de
    setembro de 1951. O impulso inicial às
    Mesas-redondas foi dado por Alberto Cavalcanti, que elaborou o anteprojeto do
    Instituto Nacional do Cinema. Após a
    experiência das Mesas-redondas da APC, foi realizado o I Congresso Paulista do
    Cinema Brasileiro, nos dias 15, 16 e 17 de abril de 1952. De cujas resoluções
    finais, consta a definição do filme nacional.
    As discussões sobre o projeto do INC, de Alberto Cavalcanti, acirraram
    os ânimos e incentivaram a ampliação das discussões com os cineastas do Rio de Janeiro. Preparava-se, desse modo, o terreno para o I
    Congresso Nacional do Cinema Brasileiro, realizado no Rio de Janeiro, entre os
    dias 22 e 28 de setembro de 1952. Dentre
    suas resoluções a reafirmação da definição de filme brasileiro aprovada no
    congresso paulista e preconiza-se, em resolução, a utilização de temas e
    histórias nacionais na elaboração dos filmes brasileiros – a tônica de
    nacionalismo e brasilidade. Homenageava a cineasta Carmen Santos,
    recém-falecida. O II Congresso Nacional
    do Cinema Brasileiro foi realizado em São Paulo, no período de 12 a 20 de
    dezembro de 1953. Foi dedicado a Moacyr Fenelon, que no ano anterior
    participara ativamente do I Congresso e nos preparativos desse II, e que morre
    antes de seu início. A homenagem foi considerada justa pela expressão e
    atividades anteriores de Fenelon, considerado um batalhador incansável da causa
    e defesa do Cinema Brasileiro.

    Resumindo:

    A partir da visão que o Cinema
    seria o necessário registro da cultura local a ser preservada é que em todos os
    cantos do mundo trataram de criar a sua Cinematografia Nacional daí surgindo
    também o que chamamos de ‘Cinema Argentino’ e ‘Cinema Brasileiro’ e ‘Cinema
    Italiano’ e ‘Cinema Indiano’ . . .

    Ante a força hegemônica mundial
    do Cinema dos EUA, é de consenso geral que nos países em que sua cinematografia
    e sua indústria se mostram claudicantes, dado sua importância cultural interna,
    exige-se sim a intervenção do estado, sem essa de acreditarmos no discurso
    neoliberal de ‘livre mercado’ e na ilusão da vitória davídica – somos e temos
    sido sempre um cansado Daví roto e esfarrapado tentando a mera sobrevivência
    enquanto o nosso Cinema jaz em costumeira UTI.

    96492d34 1974 401e bfb2 2ed81c55aeb5 - Entrevista com Paulo Braz Clemencio Schettino, professor de cinema

    O – E, para finalizar, peço que
    deixe uma mensagem especial para meus leitores, apaixonados por cinema como
    nós.

    P – É, em virtude de sermos um tanto
    avessos às propensões das ideias apocalípticas tão a gosto da maioria – vide
    ‘fim da História’; ‘fim da luta de classes’; ‘a morte do Humanismo’; ‘a morte
    do Livro”; ‘a Televisão vai matar o
    Cinema’; entre outros ‘pequenos assassinatos’ e falácias – que celebraremos o miolo ao invés dos
    extremos escatológicos da Filosofia.

    Cremos que seja entre os extremos
    é que nos situamos dentro de algo que se chama Vida e as suas ‘Mil Histórias
    Sem Fim’, tão sem fim a História que um escritor francês afirmou que somente os escritores colocam
    ‘ponto final’(Gide) enquanto Vida e História sempre continuam.

    Assim vejo o Cinema. Filho da Fotografia e costela do Teatro,
    nascido na França no ‘fin du siècle’ e em plena ‘belle époque’ irrompe no
    século XX promovendo a primeira e a
    maior convergência de artes e modos e meios da História. Explode na Itália nas primeiras décadas do
    novo século e exibe sua plenitude de a ‘Grande Arte Moderna’ e ‘Arte Total do
    Século XX’, a reunir literatos e músicos e atores no histórico “Cabiria” de
    Giovanni Pastrone inaugurando o ‘Espetáculo’ que fazia multidões do mundo
    inteiro acorrerem às salas de exibição da novidade ‘Cinematógrafo’.

    O desenvolvimento acelerado das
    Ciências e de sua irmã gêmea, a ‘Tecnologia’ tratou de ataviá-lo com o som e as
    cores e ele foi se transmutando e apresentando-se ao mundo com novas máscaras
    sem nunca perder sua característica principal de se mostrar por meio de imagens
    com Alma, animadas e, portanto com Vida, vivas – sejam desenhadas ou fotografadas. Assim chega até nós e nos sucederá enquanto
    houver meio de difusão ou suporte que o eternize. Em seus primórdios, bastava exibir imagens
    vivas para assombrar seu público – as pequenas e médias e longas metragens
    viriam depois que a tecnologia lhe provesse de meios. Em suma, ao longo de seus mais de cem anos
    de existência e História: o Cinema mostrou-se independente tanto de modos de
    captação e fixação de suas imagens quanto de suportes e meios de difusão.

    No mais atual espaço onde se
    exibe, na Internet, o Cinema retoma seus primeiros passos e se satisfaz com a
    inserção de ‘filmetes’ como os de outrora, de outra hora perdida no passado à
    moda dos primeiros filmes dos irmãos Lumière e do enlouquecido Méliès (obrigado
    Scorsese pelo seu “HUGO”).

    No mais, as pessoas de nossa
    geração somos remanescentes ou sobreviventes da primeira grande convergência
    mediática provocada pelo Cinema, no início do século passado quando aglutinou
    os consumidores das Literaturas – seja em Livros, Jornais ou Revistas, e
    chamando para si os seus milenares antepassados da Arquitetura e seus espaços e
    objetos cênicos, da Música e da Dança e o Drama Teatral reunidos pelos gestos e
    palavras, e, principalmente, o emergente e coetâneo Rádio.

    Também devo ao Cinema, quase
    tudo!

    RECOMENDAMOS


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    2 COMENTÁRIOS

    1. Juro, Maria Cecília Peixoto, que só ontem (03/02) a noite, fui pagar meu tributo à dupla de mestres, Federico Fellini e Ettore Scola, na homenagem que supostamente o segundo prestou ao primeiro em seu filme que poderíamos classificar de gênero 'documentário'. Na verdade, trata-se do elogio ao Amor e Amizade que ambos co-dividiam, e juntos ao Cinema. Lá pelas tantas, uma personagem (o pintor) explica a razão de chamar-se Cinema de 7ªArte. Lembrei-me do último parágrafo que escrevi nessa entrevista. Senti-me recompensado!

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