“O Regresso”, de Alejandro González Iñárritu

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    O Regresso (The Revenant – 2015)

    Em uma expedição pelo desconhecido deserto americano, o
    lendário explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é brutalmente atacado por um
    urso e deixado como morto pelos membros de sua própria equipe de caça. Em uma
    luta para sobreviver, Glass resiste à dor inimaginável, bem como à traição de
    seu confidente, John Fitzgerald (Tom Hardy). Guiado pela força de vontade e
    pelo amor de sua família, Glass deve navegar um inverno brutal em uma
    incessante busca por sobrevivência e redenção.

    O maior perigo para um cineasta é se tornar vítima de seu
    próprio estilo, o que, eventualmente, conduz à autoparódia involuntária. O
    mexicano Iñárritu estreou com o excelente “Amores Brutos” e, nos anos
    seguintes, ele repetiu, sem o mesmo brilho, aquela grandiosa estrutura narrativa.
    Ao reduzir o escopo temático em “Birdman”, mantendo a intensidade na abordagem,
    ele renovou sua criatividade. Com “O Regresso”, auxiliado pela fotografia
    sempre impecável de Emmanuel Lubezki, ele reverencia visualmente Tarkóvski e,
    de forma mais óbvia, o Malick da segunda fase de carreira, porém, enfraquece o
    resultado final optando por transformar um simples conto de vingança sem
    ramificações existencialistas interessantes em um épico de quase três horas. Não
    é por acaso que todos os veículos estão salientando o impacto de apenas duas
    cenas, a força da trama é esvaziada pela tentativa óbvia de alcançar um padrão legítimo
    de grandeza, leia-se, características que possam garantir prêmios.

    Como eu sempre afirmo, poucos são os filmes que verdadeiramente se
    beneficiam com mais que cem minutos de duração, tempo suficiente para contar eficientemente
    qualquer história. Boa parte da gordura extra é representada pelo uso excessivo
    de tomadas com lentes grandes angulares reforçando a pequenez do homem diante
    da natureza, um recurso já desgastado, ainda mais quando emoldura um roteiro
    honesto e correto, escrito pelo próprio diretor e pelo fraco Mark L. Smith (dos
    horrorosos: “Temos Vagas” e “O Buraco”), mas essencialmente raso. Sem pensar
    duas vezes, eu optaria por rever a primeira adaptação cinematográfica da
    história: “Fúria Selvagem”, de 1973, com Richard Harris, ao invés de me
    aventurar novamente por esse exercício autoindulgente bonito, mas bastante
    arrastado.

    Leonardo DiCaprio trabalha bem com o material que lhe foi
    oferecido, reagindo aos impulsos físicos que o personagem pede nas maiores
    adversidades, porém, seus momentos introspectivos não fogem do lugar comum,
    afinal, o ator precisa encontrar nas páginas do roteiro um subtexto que o ajude
    a compor o personagem além da caricatura. Como o texto é mediano, ele força a
    mão nos excessos. Não é, nem de longe, a melhor atuação da carreira dele. Ele
    acaba se tornando, enquanto ator, um coadjuvante de luxo, eclipsado pelo amor
    do diretor pela própria imagem, algo que pode ser constatado em vários
    momentos, como na cena que fecha o filme, uma escolha sem qualquer coerência
    com o que havia sido estabelecido até então. A câmera, na sua ânsia por se
    fazer presente, acaba sacrificando a beleza de pequenas cenas, desviando a
    atenção do elemento humano e do conflito do momento.

    Toda a primeira sequência,
    o ataque dos índios à expedição, que me remeteu ao início de “O Resgate do
    Soldado Ryan”, sem cortes, enfocando o caos e a selvageria do confronto,
    funciona brilhantemente, o primeiro ato da obra é uma aula de ritmo. O problema
    é que a fragilidade do roteiro se faz óbvia no momento em que, tudo levava a
    crer, a história iria realmente se tornar interessante. A resiliência do
    protagonista, fio condutor do segundo ato, não se sustenta devido à unidimensionalidade
    de sua composição, que não é ajudada pela opção preguiçosa por flashbacks
    esporádicos, inseridos de maneira desastrada, que nos levam a conhecer, em
    teoria, suas motivações e angústias, mas, sem o interesse prévio no
    investimento emocional do espectador, o recurso acaba não funcionando de forma
    prática. É necessário que o espectador conheça bem o personagem antes de ser
    levado a sofrer/torcer por ele. O antagonista vivido por Tom Hardy é mais
    intrigante, tem mais potencial, ainda que o roteiro também falhe com ele.

    Resumindo em poucas palavras, “O Regresso” é como grande
    parte do povo brasileiro: busca aparentar ser algo grandioso, ao invés de se
    dedicar para efetivamente sê-lo.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    1 COMENTÁRIO

    1. Otávio.Sua crítica está excelente. Parabéns!…Assisti ao filme e tive a mesma sensação. Realmente,"Fúria Selvagem" de 1973 é muito mais filme, sob todos os aspectos, com exceção, é lógico, dos recursos visuais contemporâneos, ultra modernos. Além disso, Richard Harris é infinitamente mais ator de DiCaprio.

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