“Satyricon”, de Federico Fellini


Satyricon (Fellini Satyricon – 1969)
Baseado na obra homônima de Petrônio, Satyricon apresenta o
jovem Encolpio, que ressente pela perda de seu amante, Gitone, pelas mãos de
seu melhor amigo, Ascilto. Após descobrir que Ascilto vendeu Gitone para o ator
Vernacchio como escravo, Encolpio inicia a sua busca por seu ex-amante.
O primeiro problema ao encarar essa obra é buscar nela
alguma mensagem oculta, algum sentido maior, uma trama no sentido convencional.
“Satyricon” é, acima de tudo, um exercício de estilo que se utiliza da
estrutura fragmentada do que restou da obra original de Petrônio, escrita por
volta do ano 60 d.C., para compor um olhar extasiado sobre a Roma antiga.
Fellini, como um documentarista que descobre uma civilização mitológica
esquecida pelo tempo, deslumbrado com o exotismo dessa terra estranha, faz o
que é comum a todo ser humano, busca traçar paralelos entre eles e nós, criando
uma espécie de ficção científica ambientada no passado. O traço exagerado,
caricatural, o sempre celebrado toque felliniano, nunca foi utilizado de forma
tão coerente com o tema.
No auge do movimento hippie, enxergamos nos jovens do filme
os mesmos instintos de rebeldia e compulsão pela satisfação do prazer carnal. Essa
abordagem original, como em tudo que é movido pelo novo, corre riscos, erra e
acerta, não é uma unanimidade entre os fãs do diretor. A atuação do elenco é
quase bressoniana, com os atores reagindo timidamente aos comandos que o
diretor ia ditando ao lado da câmera. Além disso, para reforçar o senso de
estranheza, não há muito sincronismo com relação à dublagem para o italiano, um
toque genial do diretor, evidenciando que o interesse está no distanciamento,
no antinatural, o que acaba enfatizando aqueles seres como alienígenas em uma
terra inexplorada. É impressionante perceber como a indústria de cinema atual,
em comparação com essa experiência, está apática e preguiçosa. 


* O filme, até então inédito no home vídeo nacional, está
sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”, com a curadoria impecável
de Fernando Brito, na caixa “A Arte de Federico Fellini”, em parceria com
a Livraria Cultura. Vale destacar a presença de “Roma”  e “A Voz da Lua”, última
produção do diretor, protagonizada por Roberto Benigni, além do excelente
documentário “Ciao, Federico!”, feito à época das filmagens de “Satyricon”, um
precioso registro do mestre italiano atuando nos bastidores. 

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