Woody Allen – “Édipo Arrasado”

    0

    Link para os textos anteriores desse especial que se leva
    tão a sério quanto o próprio Woody:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/make-em-laugh.html

    “O adulto de hoje, que enfrentou na infância desafios como o
    Enduro e o River Raid do Atari, está mais do que preparado pra todos os
    obstáculos da vida”.

    (Amenázzio)

    Amenázio da Mata Roxa, o popular Amenázzio, com dois z’s,
    incentivado por sua numeróloga, desistiu de procurar emprego na selva de pedra,
    algo cada vez mais difícil devido à crise que a nação deseducadora está
    passando, investindo então todas as suas economias, conquistadas em seu bico
    como figurante na televisão, em sua nova profissão. Ele agora faz fortuna como
    Coach, o homem certo para encaminhar estranhos inseguros, aqueles que paguem
    bem, no rumo de uma vida mais focada, utilizando um agradável repertório de
    frases feitas e citações de livros de autoajuda, que nunca chegou a ler,
    tiradas fora de contexto. Como ele mesmo defendeu em uma aparição pública
    polêmica: “Que mal há nisso? Os pastores neopentecostais compraram uma emissora
    de televisão fazendo o mesmo”.

    Ao entrar em seu escritório, com minha equipe de reportagem,
    fomos recebidos por ele de pé, sorriso amplo no rosto maquiado. Nas paredes,
    estantes tomadas por livros de Danielle Steel, dividindo espaço com biografias
    de subcelebridades, como a da jovem Janete Menezes, que fez várias operações plásticas
    pra se transformar em uma boneca viva, mas acabou sendo internada num hospício após
    ser encontrada pelo gerente de uma loja de departamentos, quase desfalecida, ao
    tentar passar o final de semana dentro de uma caixa. Amenázzio se recostou em
    sua poltrona e, sem maiores exigências, afirmou que seria uma honra para nós aquele
    breve contato com alguém tão especial. Após beijarmos sua mão, de joelhos no
    chão acarpetado, começamos a entrevista.

    – Como é para você, quase um analfabeto funcional, ser dono
    hoje de uma das maiores fortunas da nação?

    – A ignorância é uma bênção no Brasil, caro jornalista.
    Somente aqui o filme de maior bilheteria estreia sem público, a presidente não
    tem habilidade em oratória, o ex-presidente se orgulha de não ter o hábito da
    leitura, a dona de casa morre afogada em sua garagem na chuva, os youtubers de
    conteúdo mais cretino fazem fortuna, a melhor cantora do ano não sabe cantar, o
    apresentador de televisão abre caixão de um artista no horário nobre, a
    escritora mais lida tem o livro escrito por um ghostwriter…

    – Ok, nós já entendemos o seu ponto. Você tem razão. Mas você
    não tem vergonha de utilizar essa ignorância como forma de alimentar esse
    império?

    – Eu tenho vergonha de não ter enfiado ainda a mão na sua
    cara, caro jornalista. Você me garantiu que a entrevista seria apenas para divulgar
    meu novo curso: “Aprenda como ser alguém importante”.

    – É que o curso não existe. Nós checamos e você nunca
    ministrou curso algum. Não podemos mentir para o nosso público.

    – Quem é você para dizer que eu nunca ministrei um curso?
    Você… Ponha-se no seu lugar… Você… Você não é importante o suficiente pra
    discutir comigo.

    – Você é uma farsa, Amenázzio. Esses livros todos da
    estante, a maioria tem fundo falso, você roubou de uma loja de decoração. Temos
    o depoimento do gerente e o vídeo da câmera de segurança.

    – Como ousa? Quer ganhar fama com meu nome? Fazendo seu
    próprio “Caso Waternázzio”? Saia já do meu escritório!

    – Você alugou esse escritório na tarde de ontem, após nós
    confirmarmos a entrevista, temos os papéis com a sua assinatura. Você mora, na realidade, no subúrbio, em Vila
    Valqueire, com sua mãe e seus dois irmãos. Temos fotos.

    Nesse momento, lívido e transpirando muito, o homem que já
    foi chamado de “o novo Cidadão Kane”, levantou a mão direita na direção da
    janela, com o dedo indicador apontado em riste. Todos nós olhamos para a
    janela, enquanto ele corria para fora do escritório, entrando no elevador. Nós
    caímos no truque mais baixo daquele vil escroque.

    Nunca mais veremos Amenázzio. E ele ainda conseguiu roubar
    minha carteira…

    Notícia que tomou a imprensa de assalto na manhã seguinte:

    Um homem, muito parecido com o popular Amenázzio, foi visto
    na noite de ontem, trajando um vestido verde de matrona e com uma longa
    cabeleira morena, tentando adentrar no retiro dos artistas. A polícia foi
    chamada, assim que ele, emocionalmente descontrolado, perturbou os vizinhos ao
    começar a cantar num tom insuportável o clássico dos anos oitenta: “Qualquer
    Jeito (Não Está Sendo Fácil)”, sucesso da cantora Kátia.

    Édipo Arrasado (Oedipus Wreck – 1989)

    Sheldon, um advogado neurótico, não consegue se livrar da
    influência de sua mãe superprotetora. O problema se intensifica quando, após
    participar de uma exibição de mágica, a senhora inexplicavelmente se torna uma
    entidade nos céus da cidade, contando para todos os transeuntes os hábitos e
    manias do filho.

    Impulsionado pela leveza do formato de antologia, Woody
    exercita com grande frescor o seu talento cômico. E, sem dúvida, o seu
    média-metragem é o responsável por “Contos de Nova York” ainda ser lembrado
    hoje em dia. Os esforços de Coppola e Scorsese são, na melhor das hipóteses,
    inofensivos. Após uma total imersão nos dramas existencialistas de “Setembro” e
    “A Outra”, o diretor revisita seu lado mais divertido, misturando temas já
    trabalhados em textos e inserindo vislumbres de situações que ele viria a
    aperfeiçoar em suas produções dos anos 2000, como em “Scoop”, onde um truque de
    mágica é utilizado como gatilho narrativo.

    É impagável a cena onde Allen, inicialmente perturbado com a
    mãe (Mae Questel, incrivelmente parecida com a mãe do diretor) sendo
    chamada para auxiliar no truque do mágico, não consegue esconder a alegria ao
    ver o profissional enfiando várias espadas na caixa onde ela foi colocada. A
    insatisfação dela com a noiva do filho, vivida por Mia Farrow, é o motivo
    sobrenatural que faz com que ela se mantenha como uma entidade nos céus de Nova
    York. Somente quando ele reencontra um amor antigo, a cartomante/clarividente
    vivida pela brilhante comediante Julie Kavner, a pobre mãe, demonstrando sua
    aprovação, retorna ao seu estado normal. Sheldon não se interessa em
    compreender como o fenômeno ocorreu, ele está mais interessado em resolver sua
    relação com ela. O inexplicável, tema recorrente em seus filmes, novamente
    utilizado como um meio inquestionavelmente absurdo e tolo, porém, aceitável
    para alcançar um bem maior.

    * O filme “Contos de Nova York” está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Classicline”.

    RECOMENDAMOS


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Please enter your comment!
    Please enter your name here