“1984”, de Michael Radford

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1984 (Nineteen Eighty-Four – 1984)

O escritor George Orwell baseou o futuro de suas páginas na realidade sombria vivida por ele na Inglaterra do período pós-Segunda Guerra, mas sua visão crítica encontra identificação até mesmo no sistema político brasileiro atual. O Grande Irmão dividiu para conquistar, instigou o discurso de ódio como forma de manter o controle, a manipulação não encontra resistência quando o indivíduo é suprimido pela padronização.

A ignorância é força. Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado. A Oceania, controlada pelo Partido, dividida em três classes: Alta, Média e Baixa. A Média atrai a Baixa ao seu lado, fingindo de forma populista lutar
pela liberdade e justiça, até alcançar sua meta: transformar-se em Alta, estabelecendo nova tirania ao derrubar a antiga, jogando a Baixa, a prole, sempre utilizada como massa de manobra, na sua velha posição servil. O discurso hipócrita do socialismo, que, assim como qualquer sistema político, visa apenas conquistar o poder e permanecer nele pelo maior tempo possível, não poderia ser mais atual.

Ainda que a boa adaptação cinematográfica realizada em 1956, pelo diretor Michael Anderson, seja mais fiel à letra, a versão dirigida por Michael Radford é superior ao retratar o espírito da obra, mas ambas evitam o desfecho trágico do protagonista. O herói, vivido pelo impecável John Hurt, consciente de que vive sendo observado, começa a desafiar a autoridade, trabalhando em seu diário fora do ângulo de visão da teletela em seu quarto. Nasce nele a fagulha do inconformismo, potencializada pelo proibido interesse sexual que sente por uma colega, vivida pela bela Suzanna Hamilton. Ele questiona então o ato diário
de apagar pessoas no registro, modificando radicalmente eventos da noite para o dia, uma função profissional que reflete uma visão pessimista do autor sobre a ferramenta da imprensa, capaz de criar e nutrir uma mentira.

Seu nêmesis, o grande Richard Burton, em seu último papel no cinema, deixa transparecer em sua fala mansa a chama apagada do revide, um personagem sem primeiro nome, aquele responsável por definir o objetivo único de qualquer sistema político: uma bota
prensando um rosto humano pela eternidade. A fotografia de Roger Deakins consegue resumir esse intenso transtorno interno em sua paleta de cores sóbrias, um aspecto depressivo de sujeira existencial, como se representasse o acúmulo de equívocos e omissões na vida dos personagens.

“1984”, o livro e os filmes, o precioso legado de Orwell para a humanidade. Uma obra de relevância atemporal que precisa ser sempre analisada.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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