“Timbuktu”, de Abderrahmane Sissako

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    Timbuktu (2014)

    Hoje pela manhã, mais uma tragédia anunciada, atentado
    terrorista em Bruxelas, pelo menos trinta mortes, ato assumido pelo Estado
    Islâmico. É óbvio o perigo do fanatismo fundamentalista religioso no mundo
    todo, mas é interessante abordar a realidade desumana em que vivem aqueles que
    estão inseridos nesse sistema, não por consciente escolha ideológica, pessoas
    que se acostumaram com uma rotina de medo, culpa e punição, administrada por
    agentes do ódio. É o que mostra o excelente “Timbuktu”, dirigido por
    Abderrahmane Sissako.

    A sua impactante cena final rima com o símbolo metafórico
    utilizado no início, a perseguição no deserto, entre um veículo lotado de jihadistas
    com metralhadoras e um solitário filhote de veado. O animal, desamparado como a
    menina que acaba de perder os pais, assassinados em um julgamento, fugindo para
    lugar algum, sendo sufocada pelas tradições de seu povo, questionando repetidamente
    ao vento sobre a razão daquela violência. O pai dela, um músico pacífico,
    alguém que sequer sabe brigar corpo a corpo, motivado pela tristeza da filha
    com a morte de sua vaca, vai ao encontro do assassino para se vingar. Ele, a
    despeito dos pedidos da esposa, carrega um revólver. No calor da briga, sem
    querer, o revólver dispara, matando o seu oponente. Nesse momento, esse pai
    honrado passa então a ser julgado por homens sem honra, fanáticos armados que
    vivem pela guerra. Ele, que se arrepende de ter levado o revólver, julgado por
    pessoas que não se arrependem de assassinar estranhos a sangue frio.

    A beleza da esposa, que lava os cabelos numa bacia, enquanto
    um jihadista aproveita a ausência do marido para flertar com ela. O hipócrita
    pudor que rege a exigência dele para que ela cubra o rosto, gesto que ela
    repudia. Essa cena resume o sistema absurdo e dicotômico que esses homens
    defendem: ele pode se encantar pela mulher casada e desrespeitar o marido dela,
    mas considera uma provocação ofensiva o simples ato da mulher em exibir sua
    cabeleira. O véu, ferramenta grosseira de submissão, uma sociedade tão datada
    quanto os dinossauros, mas com a sorte de não ter sofrido as consequências da
    queda de um meteoro. Como esquecer a forte cena em que a pobre mulher, que está
    sendo punida por cantar alegremente, recebe quarenta chicotadas? Com as
    lágrimas vertendo no rosto, o canto volta a ser escutado, resiliente, como
    instrumento de rebeldia. O corajoso roteiro apresenta outra personagem que resiste
    bravamente, uma espécie de bruxa que veste cores vivas, caminha com segurança
    entre os opressores, impede a passagem de um jipe dos jihadistas, em suma, um
    elemento verdadeiramente humano inserido naquele cenário desumano. Nessa
    atitude, a esperança de que algum dia o fanatismo fundamentalista religioso,
    assim como os dinossauros, faça parte apenas dos livros de História.

    Em um dos momentos mais belos em sua poesia, que remete ao
    pianista de Polanski dedilhando o espaço vazio e a partida de tênis imaginária
    em “Blow Up”, os habitantes de Timbuktu, apreciadores do futebol que é
    proibido, brincam com uma bola imaginária em uma partida teatralmente perfeita.
    A resistência de um povo que, por um tremendo azar geográfico, nasceu em uma
    cultura retrógrada onde imperam o medo, a violência e a opressão.

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    Octavio Caruso
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