“Cacaso na Corda Bamba”, de José Joaquim Salles e PH Souza

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    Cacaso na Corda Bamba (2016)

    É interessante que, de início, os primeiros depoimentos
    tentam resgatar a imagem do homenageado, como ele se vestia, o estilo dos
    óculos que imitava o de John Lennon, o desenho do cabelo, a altura, um menino
    num corpo de adulto, o professor hippie, o tímido com dificuldade de apresentar
    seu trabalho em público. Os registros dele em vídeos resgatados, a moldura em
    traços coloridos de giz, seguindo o espírito dos desenhos dele, realçam a
    infantilidade em seu conceito libertário, sem cabrestos, refletindo as
    múltiplas referências que ele utilizava em sua expressão artística. Cacaso
    escutava verdadeiramente o outro, comprazia-se com a companhia e, entregue no
    jogo da empatia, criava poemas como que celebrando a beleza da interação. Logo,
    todos aqueles ao redor, alunos e amigos, encontrando porto seguro naquela fonte
    de inspiração, de forma espontânea, já que ele se recusava a doutrinar, sentiam
    o despertar da criatividade.

    Fascina o contraste entre o impulso dele pela respeitabilidade
    adquirida com a disciplina, confrontada diariamente por sua incapacidade de
    entender a vida sem o elemento constante do caos. Ele não concebia a criação
    sem o atrito entre esses dois fatores antagônicos. É importante o segmento que
    aborda a relação dele com o pai, o símbolo de um futuro profissional
    relacionado aos negócios rurais da família, um homem que não valorizava a arte
    da escrita, aquele passatempo tolo que havia cativado a plena atenção do jovem.
    O homem da fazenda considerava aqueles versinhos, como ele se referia aos
    textos filosóficos do filho, um revoltante atraso de vida. A mãe, por outro
    lado, enxergava no menino a esperança de que alguma parte dela iria se rebelar
    àquela realidade tão desencantada e industrial. Nesse ponto, o entrelaçar de
    trechos de seus poemas se torna não somente revelador da essência de Antônio
    Carlos de Brito, desnudado em sua angústia, como também enriquece a compreensão
    da resiliência que o tornou Cacaso. Uma gênese forjada pela gratidão dele pela
    mãe.

    É interessante como o documentário mostra que ele se
    reinventou no processo de realizar seu próprio livro, e, com seu sábio uso do
    silêncio, sendo beneficiado inconscientemente por sua timidez, acabou lapidando
    sua verve crítica. O segredo é que em sua expressão, nos poemas, poesias e canções,
    não havia interesse em complicar, engendrar uma intelectualidade distante e
    prolixa, isso ele deixava para os ídolos de barro, Cacaso articulava a sua arte
    com a carinhosa dedicação de um bom professor apaixonado pela matéria. Ele era
    simples, o traço mais marcante de genialidade, deixando transparecer a paixão
    que sentia pela literatura. A verdade do autor sempre alcança o leitor. Ao abalar
    os alicerces da arquitetura rígida da poesia dos mais antigos, aqueles sonetos
    impecáveis de rimas e sílabas calculadas dos mestres, com a fluência inconsequente
    de sua verborragia inebriante, entregando menos quando a tradição pedia mais,
    ele utilizou o desamparo editorial ao seu favor, promovendo uma anarquia sem
    censura, um poeta marginal.

    Ao rejeitar ser líder, no calor de uma ditadura alimentada
    por discursos extremistas, a sua liberdade se tornou irresistível. Uma das
    razões da eficiência do filme pode ser explicada em um detalhe que passa
    despercebido pela maioria. Em dado momento, numa rara intrusão do diretor em um
    depoimento, ele complementa com: “A decoração era humana”, resumindo o que
    estava sendo dito sobre a residência de Cacaso, com poucos móveis, mas sempre
    lotada de amantes da literatura e da música. A poesia está entranhada na forma,
    não apenas no conteúdo. É um documentário que aprofunda o conhecimento de quem
    já respeitava o artista, sem gordura extra e acrobacias de estilo desnecessárias,
    algo que seria incoerente com o legado dele. Mas o real mérito da obra pode ser
    sentido naqueles que desconhecem o artista, já que o retrato é trabalhado com
    tanto esmero que desafio qualquer espectador a não correr para devorar seus
    textos, assim que os créditos finais, no mesmo tom lúdico infantil, acenarem a
    despedida. Há emoção, mas a sensação que fica é de alegria, uma celebração de
    um homem que, em pouco mais de quarenta anos intensos, deixou sua digital
    perceptível, ainda incomodando, ainda atual. O timing de lançamento do filme
    não poderia ser mais feliz, precisamos urgentemente resgatar esses valores, o
    brasileiro precisa desesperadamente de poesia.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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