O Cinema da Nova Hollywood

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A Outra Face da Violência (Rolling Thunder – 1977)

De volta do Vietnã como herói, após uma traumática experiência como prisioneiro de guerra, Charles Rane tenta lidar com problemas pessoais.

Essa é a melhor introdução para aqueles que querem conhecer e entender o movimento da Nova Hollywood por essa caixa temática, o filme mais acessível, dirigido por John Flynn e com roteiro de Paul Schrader, trabalhando o leitmotiv da vingança com uma pegada brutal. Destaco aqui a atuação minimalista de Tommy Lee Jones, como o sargento amigo do major, um homem que, após a experiência da guerra, desaprendeu a viver em sociedade. O seu rosto inexpressivo, sua postura deslocada em qualquer ambiente, uma composição que já
mostrava o grande ator que o mundo viria a reconhecer no futuro.

No desfecho, quando ele e o major, devidamente uniformizados, partem para a selvageria em um tiroteio praticamente suicida que nos remete ao clímax de “Butch Cassidy”, o rosto do sargento se ilumina em um sorriso perturbador, mostrando que ele se sentia confortável apenas na batalha. O gancho que substitui a mão do major, elemento que inexplicavelmente não foi trabalhado no marketing da época, insere na trama um traço pulp empolgante. Há um senso de felicidade no major, quando ele, numa reviravolta do destino, encontra na vingança pelo assassinato da família uma motivação para se libertar das amarras que ainda o prendiam à qualquer ideia de civilização. Mais do que uma busca por justiça, ele vê na caçada um revide pelo orgulho de combatente ferido.

A bela jovem que o mima de todas as formas não existe em seu horizonte, ele a suporta com reservas, ele utiliza a moça como ajudante em seu trabalho. O que importa para ele é o cumprimento da missão.

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Procura Insaciável (Taking Off – 1971)

Quando descobrem que sua filha adolescente desapareceu, provavelmente com um grupo de hippies, seus pais partem em sua busca.

É interessante constatar que no mesmo ano foi lançado “There’s Always Vanilla”, de George Romero, filme quase sempre esquecido, mas que também defendia um discurso crítico com relação ao movimento hippie. Em “Procura Insaciável”, podemos ver a frustração do diretor tcheco Milos Forman após alguns anos pesquisando in loco esse estilo de vida despertado, enquanto revide lúdico, pela angústia e desesperança dos jovens que acompanhavam pela televisão a guerra do Vietnã.

O que inicialmente seria trabalhado como um retrato fiel pelo ponto de vista dos hippies acabou se tornando um produto mais maduro, analisando o sofrimento dos pais que viam seus filhos adolescentes fugirem de casa, buscando aquela utopia frágil alimentada por canções que celebravam sonhos e por viagens lisérgicas. O ponto fascinante no roteiro, cristalizado no excelente desfecho, é evidenciar a impossibilidade de comunicação entre essas duas gerações, a negação de vencedores no confronto entre a repressão parental
e a ignorância juvenil, uma guerra tão brutal quanto aquela transmitida pela televisão, onde o que se sacrifica é a confiança.

A sequência mais comentada, o experimento da sociedade dos pais de filhos fugitivos com a maconha, traz entranhada no inegável humor da execução uma profunda crítica social. A droga que desnuda os impulsos emocionais dos adultos, tão frágeis e desamparados quanto os jovens, é tratada na cena como um enigma sedutor a ser estudado, enquanto os filhos continuam na sombra. A preocupação com o dedo apontado para a lua, ao invés da análise da própria lua.

Não há interesse dos pais em compreender os anseios dos filhos, apenas o simplismo de reduzir a padrões banais, com o mínimo de esforço, aqueles jovens que vivem a fase mais complicada da vida.

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Essa Pequena é Uma Parada (What’s Up, Doc? – 1972)

Dois pesquisadores chegam a São Francisco para um congresso e acabam se envolvendo em muitas trapalhadas.

Peter Bogdanovich é um diretor que sempre imprimiu em seus filmes sua digital de crítico de cinema, função que nasceu de sua paixão pela arte e pelos escritos de Truffaut. Após o sucesso do ótimo “A Última Sessão de Cinema”, ele decidiu homenagear as screwball comedies clássicas das décadas de trinta e quarenta, especialmente as incursões de
Howard Hawks no gênero, com Ryan O’Neal buscando inspiração para seu personagem
nos trejeitos de um dos grandes da comédia muda: Harold Lloyd.

O título original, referência ao bordão do Pernalonga, evidencia a terceira inspiração para a trama. Ao reinventar o formato com conhecimento pleno de suas engrenagens, atualizando apenas o contexto, ousando exatamente por se afastar da autocelebração exagerada de quem prestou atenção apenas na estética, equívoco cometido no moderno “Abaixo o Amor”, de 2003, o roteiro de Buck Henry, Robert Benton e David Newman encantou o público da época. Gosto bastante da atuação de Barbra Streisand, nesse que considero o seu melhor momento, ainda que ela sempre afirme que não aprecia o filme, possivelmente porque o diretor competente foi o primeiro que realmente dirigiu ela em cena e soube domar seu estrelismo.

Em dado momento, O’Neal brinca com sua participação em “Love Story”, dizendo que a frase famosa do filme (“Amar é nunca ter que pedir perdão”) era a maior bobagem que já havia escutado. Isso pode ter origem em um evento ocorrido na fase da pré-produção, quando Bogdanovich estava buscando um ator para o projeto e foi ver uma sessão do lacrimoso romance, uma experiência terrível que o fez rir do início ao fim, mas serviu para ele enxergar em O’Neal, alguém que nunca havia trabalhado em uma comédia, o tipo exato que ele procurava.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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