Suje as pontas dos dedos com a poeira dos livros

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    Ao iniciar a terceira releitura de “Esculpir o
    Tempo”, que considero um dos melhores livros sobre cinema, escrito pelo genial diretor Andrei
    Tarkóvski, acabei recordando a forma como o encontrei, alguns anos atrás, num
    sebo carioca. O que me impressionou foi a forma como o dono desvalorizava
    aquele tesouro, acreditando que ninguém aceitaria pagar mais que Cinco Reais
    pelo tomo em ótimo estado de conservação. Ele chegou a afirmar que o livro
    estava parado lá por mais tempo do que ele se recordava, que ninguém sequer o
    folheava. Esse é o tipo de obra que somente melhora a cada reencontro, uma
    verdadeira aula sobre esse universo fascinante da Sétima Arte. Enquanto
    folheava as páginas um pouco amareladas, minha mente me conduziu até outro
    encontro curioso, que faço questão de reproduzir aqui.

    Alguns meses atrás eu entrei em um sebo que eu desconhecia, bastante organizado, mas com pouquíssimo espaço, algo que sempre me
    motiva a praticar meu talento inexplorado de arqueólogo. Como eu era o único no
    lugar, depois de me observar curioso por uns trinta minutos, enquanto subia em
    caixotes improvisados e vasculhava pilhas empoeiradas de livros, fui chamado
    pelo dono do local. O senhor devia ter por volta de sessenta anos, muito
    educado e de fala mansa. Ele olhou com atenção os títulos que eu já havia
    selecionado. Quase todos custavam Um Real, um valor altamente convidativo. Era
    época de Natal, então expliquei que gosto de presentear os amigos com livros e
    filmes. Ele sorriu debochado e questionou se eles não ficariam chateados ao
    serem presenteados com livros usados. Achei tão interessante aquele questionamento vindo de alguém que deveria
    compreender a riqueza inerente àqueles tomos, a carga de fascinante mistério
    que reside, por exemplo, numa dedicatória romântica a alguém que desconhecemos.
    Passei então uns bons cinco minutos explicando pra ele a real dimensão daquelas
    páginas amareladas, o universo que vai além da apreciação da obra, impossível
    de atribuir um valor monetário. O homem sorriu e disse melancolicamente que
    estava cogitando há semanas desistir daquele empreendimento, pois passava por
    problemas de saúde na família e o lugar simplesmente não estava dando lucro.
    Ele decidiu colocar a maioria dos livros a Um Real, incluindo os grandes
    escritores e clássicos, mas mesmo assim não estava tendo saída, aquele empreendimento havia se tornado um fardo praticamente insuportável.

    Contei para ele sobre minha área de atuação e disse que eu vivenciava
    diariamente essa realidade de desinteresse cultural. Você posta na rede social
    o link de algum vídeo sensacionalista bizarro, e, por mais longo que ele seja,
    será assistido por muitos, mas se postar o link de um texto de três parágrafos
    sobre qualquer assunto relacionado à cultura, qualquer vertente abordada, terá alguns poucos e fiéis
    interessados, aqueles que eu costumo chamar de guerreiros da resistência à
    mediocridade. O senhor perguntou se eu não ficava desanimado com essa situação.
    Olhei fundo em seus olhos, deixei o instinto formular a frase seguinte: “O
    senhor, sabendo que ninguém entrará aqui num dia inteiro, quando volta pra
    casa, dorme tranquilo?”. Ele ficou levemente emocionado, percebi que seus
    olhos brilharam, o que já era a resposta que eu sabia que encontraria. Eu precisava voltar pra casa, tinha um compromisso ainda naquela tarde, mas
    enquanto pagava os livros, aproveitei para, em tom descontraído, contar sobre a
    importância que os sebos tiveram em minha pré-adolescência. Ele ficou feliz ao
    saber que eu tinha lançado um livro, que estávamos lutando a mesma guerra, em
    frentes diferentes. Gastei ao total a absurda soma de Vinte Reais, o que não
    paga nem 1/3 do que um jovem brasileiro consome de álcool, em média, numa balada semanal. Questão
    de prioridade. Prometi ao senhor que iria voltar em breve, para presentear ele
    com o meu livro, já que o mesmo me confidenciou, quando eu estava pronto para sair
    do sebo, que ele havia mudado de ideia e não iria mais desistir do
    empreendimento. O livro foi entregue, o senhor, num gesto de extrema gentileza,
    retribuiu me dando a opção de escolher cinco livros da loja. E eu fiz questão de
    pagar os cinco.

    Entre nos sebos, valorize esses nobres propagadores de cultura, eles possuem
    incríveis histórias pra contar. Suje as pontas dos dedos com a poeira dos
    livros.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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