Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War –
2016)

Uma cena que define um dos grandes problemas do filme e
desse formato adotado pela Marvel, que a DC/Warner está tentando emular com
atraso: o protagonista acaba de enterrar a mulher que mais amou na vida, ainda
que ao analisar a tristeza no rosto de Chris Evans, exercitando a sua única
variação de expressão, pareça a tristeza de um menino que viu quebrar seu
videogame. Na missa, o seu colega percebe a presença da sobrinha jovem e bonita
da falecida, o que o faz divertidamente chamar a atenção do viúvo, como o
moleque travesso da escola que diz: que gatinha, olha lá. O público da sala
escura dá uma gargalhada. Nos quadrinhos existe esse relacionamento, mas a
situação soa tola na linguagem cinematográfica.

Com exceção das excelentes sequências de ação, demonstrando
o domínio perfeito da coreografia, com destaque para a intensidade brutal das
lutas corporais, o filme é uma coleção de equívocos. Todos os adultos inseridos
no filme agem como pré-adolescentes travessos que esperam a professora virar as
costas pra atirarem uma bolinha de papel na lousa. O roteiro não permite que
nenhuma cena dramática finalize sem uma desconstrução bem-humorada. Até mesmo o
aguardado embate entre os heróis divididos por ideologias, conceito que funciona
apenas nos quadrinhos. As motivações são estabelecidas de forma apressada, com
os personagens interrompendo cada ataque com uma piadinha, dando à sequência mais
importante do filme o tom infantil de uma batalha inofensiva de paintball entre
colegas da firma. Não há o menor interesse em agregar qualquer senso de
dramaticidade no conflito. O único elemento que realmente funciona na longa cena
é o Homem-Aranha vivido por Tom Holland, que com poucos minutos consegue se
sair melhor do que as últimas duas fracas incursões do herói nas telas. O
Homem-Formiga de Paul Rudd seria um ótimo alívio cômico, mas que se torna banal,
repetitivo, em uma trama onde o drama é coadjuvante. Os demais personagens que
são inseridos, como o Pantera Negra de Chadwick Boseman, com a plena consciência
dos produtores de que eles terão mais tempo para se desenvolverem em filmes
futuros, não passam de traços rápidos, rascunhos. Em dois minutos se estabelece
uma relação de ternura entre pai e filho, dois personagens que nunca haviam
aparecido, com o roteiro pedindo então que nós choremos a tragédia pessoal de
alguém que apenas os fãs mais devotados dos quadrinhos conhecem. O engraçado é
perceber que alguns críticos ressaltam que ele é o personagem mais maduro. Só
porque ele é o que faz cara de raivoso o tempo inteiro? Qual é o
desenvolvimento psicológico do personagem? Qual é o arco narrativo dele? Ele é
movido pela vingança, essa é a única informação que recebemos.

Outro grande problema é o vilão interpretado por Daniel
Brühl, um desrespeito com o Zemo dos quadrinhos. Teria sido melhor darem
qualquer outro nome pra ele. Sem carisma algum, totalmente deslocado, um
elemento que poderia ter sido extirpado sem dano algum ao fiapo de história
trabalhado. O grande plano arquitetado por ele é uma grande bobagem, sem
coerência, sem impacto orgânico. Os diretores Anthony e Joe Russo, após o
competente “Capitão América 2: O Soldado Invernal”, perderam a mão, não conseguindo
entregar o mesmo equilíbrio agradável entre o senso de perigo real e a
necessidade de divertir o público. Sem o investimento emocional daqueles que
esperavam um mínimo de relevância dramática, a trama se torna arrastada, sem
ritmo. A alegoria política do anterior dá lugar a um passeio por um parque
temático facilmente esquecível. Essa fórmula inevitavelmente está fadada ao
desgaste brutal e a subsequente reavaliação negativa de público e crítica. São
produções com prazo de validade curto, com roteiros terrivelmente inofensivos,
que não arriscam por medo de botar tudo a perder. E, o pior, uma boa parte
deles, como o próprio “Capitão América: Guerra Civil”, não se sustenta
narrativamente fora do universo que está sendo construído.

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