“Guerra do Paraguay”, de Luiz Rosemberg Filho

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    Guerra do Paraguay (2016)

    A primeira reação de um crítico ao se deparar com uma obra cuja
    linguagem possui regras próprias é tentar encontrar figuras reconhecíveis nas
    nuvens, um ponto de partida, uma base para trabalhar as possíveis reflexões
    despertadas pela experiência. É nesse processo que o profissional pode se
    perder em malabarismos argumentativos prolixos, criando até mesmo camadas de
    interpretação inexistentes no material original, o que obviamente agrada o
    cineasta e os envolvidos diretamente na produção, mas foge um pouco da função
    primordial do texto crítico. Então, antes de abordar os pontos positivos,
    preciso ressaltar os pontos que me incomodaram.

    O cinema de Luiz Rosemberg Filho é teatro filmado, com o
    elenco defendendo longos discursos antinaturais, movidos por uma forte/agressiva
    ideologia política que os deixa ainda menos fluidos, uma estética que não tem
    pretensão alguma de ser comercial, o que não é um demérito. Quando a
    protagonista atriz propositalmente se utiliza da teatralidade estereotipada em
    algumas cenas, como naquela do monólogo sobre hipocrisia do “Don Juan”, de
    Moliére, o efeito da estranheza é minimizado, já que ela repete, com pouca
    variação e maior gestual, o tom farsesco predominante de todos os diálogos. A
    dedicatória inicial cita “Tempo de Guerra”, de Godard, e “Dr. Fantástico”, de
    Kubrick, dois filmes que utilizam de maneira muito inteligente um humor
    anárquico como elemento principal de desconstrução da guerra, evidenciando com
    eficiência, cada diretor à sua maneira, a imbecilização que aflora no ser
    humano, a ignorância daquele que acata ordens sem compreender absolutamente
    nada do que motivou sua convocação, movido pela ilusão fabricada por aqueles verdadeiramente
    interessados, que sempre veem tudo do alto, confortáveis em suas posições hierárquicas,
    tão ilusórias quanto, representadas por medalhas de latão. Mas falta o humor no
    texto de “Guerra do Paraguay”, a austeridade excessiva acaba por esfriar o
    espectador, por mais incisivas e criativas que sejam as palavras proferidas em
    cena, diminuindo consideravelmente o impacto que esses momentos deveriam ter. No
    primeiro encontro do soldado (Alexandre Dacosta) com as duas mulheres, a mais
    velha (Patrícia Niedermeier), atendendo aos apelos da mais nova (Ana Abbott), coloca
    um pedaço de pão na boca e leva seus lábios aos dela, uma das mais bonitas representações
    visuais do instinto maternal de proteção, um detalhe breve e silencioso de rico
    simbolismo que infelizmente se esvai, espremido num debate que parece
    interminável, uma verborragia entediante que nada revela sobre os tipos na
    tela, logo, não estimula interesse pelo que ocorre com eles, um equívoco essencialmente
    nobre que denota a paixão do autor pelo próprio material, impossibilitando o
    importante distanciamento, a empatia de se colocar no lugar do público. Como
    toda obra que se arrisca, “Guerra do Paraguay” possui problemas, mas criticar construtivamente
    é abraçar carinhosamente o amigo que respeitamos.

    É imprescindível reconhecer o valor do produtor Cavi Borges,
    um guerreiro incansável da cultura e do cinema nacional, que estreia com muita competência
    nesse projeto como diretor de arte. Gostei bastante dos primeiros quinze
    minutos, uma prova da coragem do grande Rosemberg, acompanhando o esforço físico das mulheres
    carregando pela estrada uma carroça que serve metaforicamente como uma espécie
    de teatro desmontável, a arte combalida e pouco valorizada que elas lutam para
    manter relevante em um cenário desolador, onde, como a mais velha afirma
    melancolicamente, somente o imediatismo tolo do entretenimento televisivo
    consegue sobreviver, aquele produto diluído que habita terrivelmente
    confortável entre intervalos comerciais. A bela fotografia em preto e branco
    potencializa esse desamparo existencial compartilhado pelos personagens. O
    soldado, cego em sua ideologia, repete frases vazias, padronizado peão,
    uniformizado encabrestado, a antítese perfeita dos valores libertários representados pela
    atriz. A esperança resiste no olhar da mais jovem, autista, inocente flor que luta para romper o asfalto, encontrar sua voz. O roteiro é, acima de tudo, sobre a resiliência da arte no confronto diário contra a mediocridade e a mentira.

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