O Cinema de KENJI MIZOGUCHI – “Crisântemos Tardios”, “Os Músicos de Gion”, “A Mulher Infame” e “Rua da Vergonha”

0

crisantemo - O Cinema de KENJI MIZOGUCHI - "Crisântemos Tardios", "Os Músicos de Gion", "A Mulher Infame" e "Rua da Vergonha"

Crisântemos Tardios (Zangiku Monogatari – 1939)

O filho adotivo de um ator renomado descobre que só é elogiado nos palcos e poupado das críticas por causa de seu pai.

A primeira obra-prima de Mizoguchi, um geido-mono (melodrama envolvendo cenário artístico) psicologicamente adulto, trata da importância da verdade como elemento transformador. É bonito que o roteiro minimize as insinuações de romance entre o ator e a empregada, uma jovem que conquista seu respeito por ser a única pessoa que o confronta com a necessidade de melhorar muito em seu ofício.

A amizade é forjada a partir de um despretensioso passeio noturno dos dois, com um enquadramento intimista que faz o trajeto parecer que está sendo feito em um hanamichi, a extensão do palco da tradição do teatro kabuki que é representado lindamente em algumas cenas. Há doçura na interação, desde a melancia compartilhada, passando pela reza silenciosa dela, até a preocupação com a ausência dela no trem. Em contraste com o peso da rejeição da sociedade com o relacionamento, essa doçura ganha ares de elegante rebeldia, no que, de fato, simboliza a revolução interna do rapaz.

Kikunosuke, motivado pelas críticas de Otoku, pelo interesse dela em proteger ele da decepção que inevitavelmente viria com a falsa ilusão de grandiosidade, decide se tornar um ator competente. Mas há um viés curioso no desfecho, o que pode explicar o apelo do filme na época com o Ministério da Educação: o ator acaba fazendo as pazes com o sistema conservador que prejudicou seu relacionamento com Otoku, essa sim, a grande heroína da história, que se sacrificou em diversos momentos e se manteve fiel às suas convicções até o fim.

Ele, mais do que o autoaprimoramento, buscava a aceitação profissional de outrem, reservando para a mulher que salvou sua vida uma discreta reverência, um agradecimento perdido entre tantos que oferta a uma multidão de estranhos em seu triunfal desfile de barco.

a geisha 1 jf detail main detail main thumb - O Cinema de KENJI MIZOGUCHI - "Crisântemos Tardios", "Os Músicos de Gion", "A Mulher Infame" e "Rua da Vergonha"

Os Músicos de Gion (Gion Bayashi – 1953)

Pós-guerra, distrito de Gion em Kyoto. A mulher da vida Miyoharu aceita Eiko, de apenas 16 anos, como aprendiz.

Com a morte da mãe, uma adolescente se vê obrigada a trilhar o mesmo caminho dela, tornando-se uma mulher da vida, como forma de fugir do tio, o elo com o conceito familiar, alguém que estava disposto a fazer a menina pagar pelo funeral com sua pureza.

Novamente, Mizoguchi aborda a questão da representatividade da mulher na sociedade japonesa, o conflito entre a tradicional submissão/exploração e o aflorar dos impulsos naturais por uma individualidade livre de rituais predeterminados. Ao procurar o treinamento com a experiente Miyoharu, uma relação tratada inteligentemente pelo roteiro com bastante ternura, com alguns enquadramentos sugerindo até mesmo um corajoso romance, ela decide forjar sua resiliência injetando um elemento novo na equação desgastada, a recusa de se deitar com homens que ela não considera interessantes, além da insinuação de que qualquer abuso cometido contra uma mulher da vida deveria ser punido por lei, um pensamento revolucionário para a época. Eiko encontra a voz de sua resistência, rejeitando a ideia de ter um generoso patrocinador.

Quando seu pai aparece endividado e implorando por dinheiro, sem se preocupar com a origem do mesmo, a jovem percebe que sua função não a fez ser menos decente.

uwasa no onna still - O Cinema de KENJI MIZOGUCHI - "Crisântemos Tardios", "Os Músicos de Gion", "A Mulher Infame" e "Rua da Vergonha"

A Mulher Infame (Uwasa no Onna – 1954)

Kyoto, anos 50. Uma jovem entra em conflito com a mãe.

Em sua execução, o filme menor da caixa, o único que eu não havia visto, comprova que até mesmo em um momento menos inspirado o mestre japonês conseguia emocionar.

Retomando o tema das mulheres da vida após alguns projetos mais fabulescos, o roteiro foca na filha, vivida por Yoshiko Kuga, que, após anos de estudo de piano na cidade grande, retorna para casa e entra em confronto com a mãe, estupenda Kinuyo Tanaka, orgulhosa dona de um bem-sucedido ambiente profissional para estas mulheres, ocupação que representa para a jovem uma tradição vergonhosa, além de ter sido o motivo que fez com que o homem que amava a abandonasse.

O figurino e o corte de cabelo remetem a uma jovem Audrey Hepburn, simbolizando a ocidentalização da menina. A postura dela causa revolta nas mulheres do local, que trabalharam para pagar esse refinamento, uma educação que elas conscientemente sabem que nunca terão.

O tom é menos melancólico do que os seus outros projetos no tema, mas a repetição do discurso é trabalhada com pouca criatividade.

street of shame - O Cinema de KENJI MIZOGUCHI - "Crisântemos Tardios", "Os Músicos de Gion", "A Mulher Infame" e "Rua da Vergonha"

Rua da Vergonha (Akasen Chitai – 1956)

Os dramas pessoais de mulheres da vida no pós-guerra.

Uma obra-prima crepuscular de um mestre que se manteve tematicamente coerente durante toda sua longa carreira no cinema. Para entender a importância de suas décadas dedicadas à crítica ferrenha da submissão da mulher na sociedade, motivada principalmente pela tristeza de ter visto sua irmã sendo vendida, basta analisar que, pouco depois da estreia desse filme, que foi peça fundamental nas discussões sobre a questão exatamente por não tentar romancear a vida degradante destas mulheres, foi votada uma lei que bania o serviço.

O foco do roteiro não é tanto a figura feminina exposta à humilhação, ainda que a narrativa seja guiada pelas desventuras de cinco mulheres da vida que lidam com o trabalho de formas bem diferentes, mas a função social que permite esse tipo de tratamento. Mizoguchi novamente salienta a força de espírito das mulheres e evidencia a fraqueza dos personagens masculinos. Não é dada atenção à causa que as fez entrar para essa vida, o interesse está em evidenciar que, apesar delas nutrirem esperanças em longo prazo de mudanças positivas, o destino será inevitavelmente sombrio e decepcionante.

O final, mostrando uma jovem prestes a perder sua inocência na função, carne fresca que não compreende a dimensão do universo que está adentrando, cercada por possíveis clientes que caminham livremente, evidencia um ciclo injusto de poder e subjugação que não parece disposto a ser interrompido.

Meses depois da estreia, o diretor faleceu de leucemia, mas sua mensagem foi passada com louvor em seu conjunto de obra.

RECOMENDAMOS



Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here