“A Pantera Cor-de-Rosa”, de Blake Edwards

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    Texto sobre “Um Tiro no Escuro”:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2015/09/make-em-laugh-um-tiro-no-escuro-de.html

    Texto sobre “Um Convidado Bem Trapalhão”:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2013/08/make-em-laugh-um-convidado-bem-trapalhao.html

    A Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther – 1963)

    O hilariante Inspetor Clouseau, da polícia de Paris, precisa
    encontrar um ladrão de joias que está mais perto do que ele imagina: o perigoso
    assaltante é amante de sua esposa, sem que ele nada perceba.

    A minha memória afetiva me diz que tive contato com esse
    filme na infância, numa exibição vespertina na televisão, mas eu realmente me
    apaixonei pela franquia na adolescência, acompanhando um especial sobre Peter
    Sellers no canal Telecine, que exibiu diariamente no horário nobre esses
    clássicos e algumas pérolas pouco conhecidas, como “O Mundo de Henry Orient”. Como
    de costume, gravei tudo em VHS e ficava revendo as fitas com frequência. Sendo
    bem sincero, acho que durante um bom tempo eu tive um encontro marcado com o
    filme todas as tardes, após a escola. Como resistir? Tinha a classuda modelo Capucine,
    a belíssima Fran Jeffries cantando e dançando sensualmente “Meglio Stasera”, tinha
    também a Claudia Cardinale, uma das minhas musas na época, além daquela aura
    especial de charme e elegância que sempre considerei terapêutica, o tipo de
    obra que se vê com um sorriso permanente no rosto. E antes de me apaixonar
    pelos filmes, eu já era apaixonado pela trilha sonora de Henry Mancini, que
    minha mãe escutava em casa, normalmente lembrada apenas pelo tema principal, o
    que é uma injustiça, o disco todo é impecável. Faixas como “Royal Blue”, “Something
    for Sellers”, “The Lonely Princess”, “Cortina” e “Piano and Strings” estão
    entre as melhores composições da carreira do maestro.

    O diretor/roteirista Blake Edwards foi apaixonado em sua
    infância pelas comédias mudas, especialmente por Stan Laurel e Oliver Hardy,
    uma influência que é perceptível em diversos momentos, como nas gags que
    ocorrem durante a festa à fantasia, no terceiro ato. Mas uma das cenas mais
    celebradas pelo público, aquela em que um homem tenta com muita dificuldade
    atravessar uma rua, foi uma homenagem do diretor a um momento similar no
    clássico de Hitchcock: “Correspondente Estrangeiro”. Analisando como as
    continuações aprimoraram a caracterização do inspetor vivido por Sellers, acho
    fascinante poder visualizar o processo de criação desse gênio. Nesse primeiro,
    ele fala com sotaque francês, mas não brinca com as palavras. Clouseau foi
    pensado inicialmente como uma simples curiosidade, um coadjuvante simpático que
    parodiava o detetive Hercule Poirot, de Agatha Christie. O protagonista era
    David Niven, como o audacioso ladrão de joias. O caso é que Sellers foi tão
    brilhante no set de filmagem, que o roteiro ia sendo expandido, abraçando
    grande parte dos improvisos que ele sugeria, como a cena em que ele derrama
    leite no corredor. Desde a sua apresentação, escorregando ao girar o globo em
    seu escritório, ele conquista o carinho do espectador com seu misto de ternura
    e patetice. O que cativa não é o aspecto pastelão de seus atos, mas a
    obstinação dele em recusar acusar o erro. Ele se recupera rapidamente das
    piores gafes, como se nada tivesse acontecido. Com essa criação bastante
    original, Sellers, que não era a primeira escolha para o personagem, papel que
    seria de Peter Ustinov, eclipsou todo o elenco e, indo contra as expectativas
    do próprio diretor, que à época via o projeto como obra única, garantiu o protagonismo
    em quatro continuações.

    A câmera de Blake, assim como nos trabalhos de Ernst
    Lubitsch, permite que os atores se movam mais nas cenas do que a câmera, como
    exemplo: a sequência em que a esposa do inspetor se divide entre três amantes
    em seu quarto, uma coreografia que pode ser tida como lenta pelo público
    moderno, acostumado com uma edição frenética que disfarça a fraqueza do
    material trabalhado. O humor prima pela qualidade, mais do que pela quantidade.
    A situação vai sendo levada num crescendo de pequenos e hilários desastres, culminando
    em resoluções nada óbvias. No desfecho, manipulado a ser incriminado
    injustamente como o notório ladrão, Clouseau aceita com alegria essa nova vida
    cheia de aventura, muito mais interessante que a sua rotina como oficial da
    lei. Ainda que esse elemento não tenha sido utilizado no filme seguinte, acho
    uma reviravolta tão boa quanto aquela que ocorre no famoso encerramento de “Quanto Mais Quente
    Melhor”, de Billy Wilder.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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