“Memórias Póstumas”, de André Klotzel

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    Esbarrei em Joaquim Maria Machado de Assiscomo
    qualquer pré-adolescente brasileiro, nos pouco confortáveis bancos escolares, exatamente o pior
    lugar para se entrar em contato com o escritor. Professores de
    hoje ainda incorrem no mesmo erro: pedir que crianças se interessem pelo hábito
    fascinante da leitura com a ajuda de Machado de Assis. Visto que
    aobrigaçãopor si só já é um obstáculo enorme à sede de
    conhecimento, adicione a essa desastrada equação uma indesculpável preguiça pedagógica passada de geração a geração. Apenas com a ajuda de um professor apaixonado em exercer sua vocação essa opção literária pode ter alguma chance de funcionar. A literatura de Assis é brilhante, mas
    completamente desinteressante para uma mente ainda em formação. Além de sua
    estrutura densa, possui um linguajar antigo que acaba tornando a obra um
    diamante ainda incrustado em uma rocha, cuja lapidação somente será realizada
    por mentes maduras. A criança irá formular um pré-conceito de que se trata de uma
    experiência chata, quando na realidade foi-lhe oferecida uma piscina olímpica,
    enquanto ela mal havia aprendido a boiar. Como eu já era um ávido leitor na infância, não me incomodou esse
    primeiro contato com o autor, mas somente viria a realmente entender suas tramas quando as reli anos depois. Hoje, considero-o um dos maiores gênios da literatura mundial, incrivelmente à frente
    de seu tempo, com um senso de humor que continua atual e surpreendentemente
    ousado.

    a555ebd85ef54a28ac936a6ab45ba05a - "Memórias Póstumas", de André Klotzel

    Com “Memórias Póstumas” (2001), o criativo diretor André
    Klotzel, que depois viria a realizar o experimental “Reflexões de um
    Liquidificador”, acerta ao abraçar estruturalmente a linguagem utilizada pelo
    escritor no maravilhoso “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), o meu favorito do autor. Júlio
    Bressane havia dirigido uma adaptação inferior em 1985 (“Brás Cubas”), mas
    Klotzel realizou o que acredito ser a definitiva versão da obra para a
    linguagem cinematográfica, com excelentetimingcômico e atuações
    precisas, com destaque para o minimalismo fascinante de Sônia Braga e um Reginaldo Faria estupendo como o protagonista em sua fase adulta. O
    rompimento com a narração linear da época é bem explorado, com soluções
    inteligentes para a inclusão do personagem, seguindo fielmente o livro, inclusive
    nos diálogos, talvez o único ponto fraco, pois não soam naturais. O
    protagonista fala diretamente com o público, exatamente como no livro,
    estabelecendo uma relação de cumplicidade similar àquela que existia entre o
    escritor e seus leitores. Alguns personagens e situações são cortados da trama,
    como Cotrim e a irmã do protagonista, assim como o reencontro com Eulália ao
    final da vida, favorecendo maior dinamismo e um ritmo mais fluente e condizente
    com a linguagem cinematográfica. Um ponto negativo é a equivocada utilização do
    importante personagem Quincas Borba, que no livro é essencial na evolução de
    Brás Cubas, limitado a ser um alívio cômico descartável. E para quem gosta do livro, recomendo que veja “Memórias Póstumas” em sessão dupla com uma pérola do cinema nacional que poucos conhecem, “Viagem ao Fim do Mundo“, dirigido por Fernando Cony Campos em 1968, que usa como inspiração em algumas sequências os capítulos: “O Delírio” e “O Sermão do Livro”.

    Machado tinha em mente leitores participativos, que
    questionassem cada enxuto capítulo, utilizando os espaços vazios eo
    subtexto como terreno fértil para sua imaginação. Enquanto grande parte da
    literatura empreende páginas preciosas aos detalhes na mobília da casa dos
    personagens, por exemplo, entregando um livro para colorir já preenchido aos
    leitores, nosso aniversariante de hoje recusava-se a instigar a preguiça
    intelectual naqueles que lhe dedicassem atenção. Ler suas páginas é
    acompanhá-lo, ser cúmplice de seus pontos de vista e perceber-se imprescindível
    nessa experiência, ele se comunica diretamente com quem o lê. Muitos escritores
    tratam seu público como um chefe a um empregado, mas Machado de Assis acolhe-o
    como um convidado de honra em sua casa.

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    Octavio Caruso
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