Sobre o caso do estupro coletivo…

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    Nada justifica um estupro. Uma frase tola, óbvia, mas que
    ainda encontra opositores em uma sociedade estupidamente machista como a nossa,
    onde o analfabetismo funcional é uma realidade até mesmo entre adultos com
    curso superior. O único contra-argumento aceitável é aquele que questiona se o
    caso foi realmente um estupro, ou algo que teria iniciado como uma orgia
    consensual, em que o crime teria sido o ato de divulgar as imagens. E existem
    rumores que sustentam esse contra-argumento, fotos e testemunhos que sinalizam
    uma atitude excessivamente promíscua da menina, que teve filho aos doze anos e
    que já estaria acostumada a se relacionar sexualmente com grupos de sua
    comunidade. O caso é que as imagens tomaram a internet de assalto, ocasionando
    até mesmo uma discussão sobre o que chamam de cultura do estupro, com direito a
    campanha com fotos personalizadas nas redes sociais.

    O que vejo, como sempre digo, é o resultado de um total
    desinteresse de grande parte dos brasileiros pelo autoaprimoramento constante,
    um desprezo acachapante pelo “ser”, uma busca desesperada pelo “parecer ser”. O
    governo com sua década de discursos populistas ajudou nessa falácia,
    estimulando o indivíduo pobre a acumular dívidas para ter sempre o smartphone
    da moda, relógio de ouro e o tênis mais caro, símbolos equivocados de um
    utópico fim da desigualdade social, ao invés de estimular que ele procurasse
    ler mais, para que se expressasse melhor e, por conseguinte, fosse mais
    respeitado como cidadão. Qual governo realmente se interessa em formar um
    eleitorado inteligente, ainda mais quando o voto é absurdamente compulsório?

    Na realidade triste dessa adolescente do caso que cito, o
    ídolo é o dono da boca do tráfico, o descolado é tirar foto segurando
    metralhadora e fazendo biquinho sensual, livro não serve nem como porta-copo, a
    língua que se fala é um dialeto empobrecido que pouco tem a ver com o
    português, o som que rola é funk carioca no volume mais alto, durante a
    madrugada, sem respeito pelos vizinhos, com letras que celebram violência,
    pedofilia e sexo da forma mais vulgar, o barato de fim de baile é contabilizar
    coitos. Quando a patricinha tonta festeja sua formatura dançando até o chão com
    esse barulho ritmado (eu me recuso a chamar de música), com letras suavizadas
    para o público externo, ela está aplaudindo inconscientemente essa mediocridade
    cultural, dignificando a pobreza de espírito.

    O que ocorre no Brasil é uma sexualização precoce promovida
    por todas as mídias, nós somos conhecidos mundialmente por isso, o gringo
    visita nossas terras pra apreciar nossas mulatas, somos a rota preferencial
    para turismo sexual. Não devemos apenas nos envergonhar profundamente disso,
    mas, também, procurar remar contra essa corrente. Como?Primeiro passo:
    estimular a parentalidade responsável, especialmente nas comunidades carentes,
    o entendimento de que um filho não pode ser apenas a satisfação de um egoísta
    capricho emocional.Segundo passo: resgatar valores elegantes, ensinar
    diariamente pelo exemplo, buscar a coerência no discurso, propagar na vida real
    e na virtual um respeito pelo próximo, um cuidado carinhoso com o que se diz e
    o que se posta.Terceiro passo: valorizar a memória cultural, em todas as
    suas vertentes, o apreço pelo passado, para que possamos entender melhor o presente
    e projetar um futuro que nos orgulhe.Quarto passo: ao invés de comprar
    uma bola de futebol e uma camiseta do time para o filho pequeno, uma espécie de
    padrão nacional, compre livros, leve ele ao teatro infantil e faça sessões de
    filmes em casa.A cultura conforta e traz segurança, incentiva e ensina um
    leão a disciplinar seu rosnado.Quinto passo: a criança inicia imitando o
    que ela vê, então dê o exemplo, escute música de qualidade em casa, evite
    brigas matrimoniais em sua presença, leia com frequência, para que a criança
    veja o livro como um amigo de aventuras, enfim, aja como um adulto responsável
    que se preocupa com o autoaprimoramento constante. Dito isso, uma coisa é
    certa, mudar a foto do perfil na rede social pra campanha da moda não ajuda em
    nada.

    Com relação ao caso midiático que originou esse texto,
    acredito que a real cultura que deve ser exterminada é a da impunidade. Se a
    garota foi dopada e foi vítima de um estupro coletivo, que todos os rapazes
    sejam punidos da forma mais severa possível. Se ela estava chapada por vontade
    própria e conscientemente participando de uma orgia, que os rapazes que
    cometeram o crime de divulgação das imagens sejam punidos da forma mais severa
    possível. O mais importante é que o caso suscitou uma reflexão importante, que
    não pode ser esquecida em alguns dias, como sempre ocorre com esses rompantes
    de consciência do brasileiro. Muitas das soluções para os absurdos mais
    vergonhosos em nossa sociedade estão em simples mudanças de conduta. A
    submissão da mulher começa muitas vezes no seio familiar, com a própria mãe
    ensinando que a filha deve limpar a casa e ser sustentada no futuro pelo
    marido. O próprio ritual do casamento católico já é alimentado em sua essência
    pelo machismo, Eva foi causadora de todos os males. A objetificação da mulher é
    estimulada no axé e no funk que os pais aplaudem sorridentes, o vídeo da menina
    dançando “pega no peitinho, pega na bundinha”. O Brasil não é vitimado pela
    cultura do estupro, como ocorre com os países islâmicos, onde o crime não pode
    ser provado a não ser que quatro homens deponham como testemunhas, a nossa
    nação é vitimada pela cultura da imbecilização.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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