Entrevista com o crítico norte-americano Tim Lucas, especialista na obra de Mario Bava

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    Em mais uma entrevista exclusiva para o “Devo Tudo ao Cinema”, converso com o competente colega crítico de cinema norte-americano Tim Lucas, autor de “All The Colors of The Dark”, a maior referência literária sobre a carreira do diretor italiano Mario Bava, que conta com uma introdução escrita por Martin Scorsese. Na opinião de Quentin Tarantino, “o melhor livro sobre cinema já escrito”.

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    O – Tim, o trabalho de Mario Bava já sofreu e ainda sofre preconceito por parte do público e, especialmente, por uma parcela considerável da crítica, aqueles que desprezam o cinema de gênero. No Brasil a luta é constante. Os professores nas faculdades de cinema doutrinam os estudantes, desvalorizando filmes de terror e ficção científica. Eu sempre celebrei os gialli, meu gênero de formação é o horror. Um colega, o Fernando Brito, curador da distribuidora Versátil Filmes, responsável por lançar quase toda a filmografia de Bava em DVD, até ministrou um curso sobre ele. Qual você acha que é a importância do cinema de gênero, especialmente o horror, na formação de uma indústria de qualidade competitiva?

    T – Nós não permitimos preconceito em nossa vida, então porque introduzir esse conceito em nossas percepções de arte? O cinema de gênero é apenas um termo acadêmico para cinema popular – o cinema amado pelo maior número de pessoas, o cinema cujas receitas permitem os chamados tipos “superiores” de cinema existirem. Por alguma razão, o gênero do horror parece incitar maior paixão entre os espectadores, mais do que outros tipos de filme, talvez por ser o que possibilita maior liberdade imaginativa. Você não encontra convenções de fãs de cinema dedicadas aos dramas e musicais, nem mesmo dedicadas ao que se chama de “cinema de arte”. Uma das razões fundamentais que me fez começar a explorar a carreira de Bava quando eu era bem jovem, foi porque vi o mesmo personagem em OPERAZIONE PAURA, de Bava, e no filme de Fellini: TOBY DAMMIT – Achei os dois filmes maravilhosos, mas os críticos veteranos insistiam que o filme do Fellini era brilhante, mas o de Bava (quando era, por sorte, mencionado) era um lixo. Levou décadas para que esse preconceito começasse a ruir. E esse esforço transformador é mérito do poder individual de persuasão do crítico, ainda que sejamos poucos os valentes defensores do cinema de gênero. Entre críticos da língua inglesa, não haviam muitos antes da década de 90. Eu fico encantado de saber que vivemos agora em uma época em que TODO tipo de filme pode existir em Blu-ray, em restaurações 2K e 4K.

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    O– Como um apaixonado defensor de Bava, quais são os aspectos de seus filmes que os fazem tão únicos e atemporais? E, tendo se dedicado anos na elaboração do livro, o que faz de sua obra algo tão interessante particularmente em sua vida?

    T – A primeira coisa que me atraiu no trabalho de Bava foi a estética, o visual, que era agressivamente artístico e quase sempre metafísico, da mesma forma metafísica que a arte de Steve Ditko para os quadrinhos do “Doutor Estranho” da Marvel. Ao aprender mais sobre Bava, descobri que a família dele tinha raízes fortes nas artes, que ele chegou ao cinema não pela sala de edição, mas pela pintura. Ele era um cineasta que foi seduzido pelo cinema de horror por razões pessoais de autoexpressão, para confrontar e analisar os seus próprios medos, e ele fez isso de uma maneira muito espontânea e artística, de forma que você consegue enxergar as influências de sua base na pintura, música clássica e literatura de alta qualidade. Há um toque forte de Dostoiévski em Mario Bava, mas ele também abraçou o pulp mais popular. Quando descobri seus trabalhos no início dos anos 70, fiquei impressionado ao constatar que ele havia nascido em 1914, porque seus filmes parecem representar a expressão de um homem bem mais jovem.

    Barbara Steele BLACK SUNDAY - Entrevista com o crítico norte-americano Tim Lucas, especialista na obra de Mario Bava

    O– O Bava tinha bom gosto, algo que o colocou em confronto com o sistema industrial italiano da época, como quando ele rejeitou algumas ideias desavergonhadamente exploitation do produtor Alfredo Leone. Aborde essa luta de toda uma vida dele pelo equilíbrio entre suprir as necessidades de mercado e satisfazer os seus interesses artísticos.

    T – A grande batalha de Bava era que ele só tinha permissão de fazer filmes derivados. Era tudo o que o mercado italiano podia oferecer. Ele tentou iniciar o gênero de horror na Itália, por volta de 1955, mas foi apenas com o primeiro Drácula, da Hammer, um sucesso surpreendente na Itália, que ele recebeu sinal verde pra dirigir BLACK SUNDAY. Muitos dos títulos de seus filmes eram paródias deliberadas de projetos mais bem sucedidos – como ERCOLE AL CENTRO DELLA TERRA, em referência ao “Jornada ao Centro da Terra”. Mas ele fez filmes de forma tão barata, fez de forma tão econômica, que ninguém se preocupava muito com o que ele fazia, não havia policiamento – as bilheterias respondiam positivamente no mercado internacional – então ele tinha liberdade para ser artisticamente autoral, até mesmo experimental. E, mesmo assim, ele negou isso até a morte, dizendo em entrevistas que seus próprios filmes eram terríveis, que os filmes faziam ele sentir vontade de vomitar. Foi a forma que ele encontrou pra continuar trabalhando, e com uma boa dose de liberdade.

    O– Considero “Cães Raivosos” (1974) uma genuína obra-prima, um dos melhores filmes de sua década. É um trabalho incompleto, um corte bruto, uma colcha de retalhos, mas ainda assim, um poderoso soco no estômago. Como você enxerga passionalmente essa obra dentro da filmografia dele?

    T – Eu concordo que é um dos melhores filmes dele, mesmo em sua forma bruta. Um fã do trabalho prévio dele teria dificuldade de identificar ele como o diretor – era uma reinvenção completamente nova, agressiva, de sua persona. Esse filme provou que ele poderia fazer qualquer coisa que ele quisesse. No que tange obras de ação/crime, “Cães Raivosos” é muito melhor que qualquer projeto que era realizado na época por diretores jovens norte-americanos, como Wes Craven e John Carpenter.

    O– Você acredita que há espaço na indústria cinematográfica moderna para um profissional tão autêntico quanto o Bava? Você enxerga aquela fagulha criativa dele em algum diretor dessa nova geração?

    T – Essa “fagulha” do Bava era que ele tinha um pleno entendimento das mecânicas básicas do cinema. Ele era um cineasta completo: ele dirigia, roteirizava, fotografava, editava e criava os efeitos especiais para seus filmes. Ele podia fazer tudo isso sem muito esforço criativo, e sem nunca parecer um egomaníaco, porque, se fosse pra rotular, ele era um tipo Garbo que se escondia conscientemente dos olhos da crítica. O cinema de hoje não é mais sobre esse tipo de eficiência, mas sobre o respeito que é conquistado por despesas cada vez maiores e um grande desperdício. Não acho que podemos ter outro Mario Bava hoje em dia porque 1) filme não é mais filme, ele tem uma textura diferente – vídeo é como pintar em vidro, ao invés de pintar em tela, numa analogia válida e 2) os cineastas de hoje tendem a ser informados somente por filmes recentes, não fazem mais filmes em que o espectador consegue discernir a influência de todas as sete artes.

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    O– Como você vê os filmes de horror modernos, como “The Babadook”, “Invocação do Mal”, “A Bruxa”… ? Você encontra a influência de Bava em produções atuais?

    T – Eu enxergo referências ao Bava, mas não uma real influência. O trabalho mais interessante realizado hoje, na mesma linha, são os filmes que estão sendo feitos pelos belgas Hélène Cattet e Bruno Forzani, que reconhecem a tradição de horror italiana, enquanto forjam algo fantasticamente novo e progressivo.

    O– Você consegue se lembrar do seu primeiro contato com um filme do Bava? Qual foi? E tente descrever, não como um crítico, mas passionalmente, como essa obra te tocou.

    T – Eu vi BLACK SABBATH (I TRE VOLTI DELLA PAURA) e KILL,
    BABY… KILL! (OPERAZIONE PAURA) na televisão em 1970, quando eu tinha 14 anos. Gostei muito de BLACK
    SABBATH, mas tinham alguns momentos nele que me amedrontaram de um jeito que eu não estava acostumado – como quando a criança morta-viva se ajoelha do lado de fora da porta e chama pela mãe, cujos sentimentos maternais haviam se tornado tão dominantes que ela assassinou seu próprio marido como forma de responder ao seu chamado. Então era um horror com um toque adulto, sofisticado e poético. Havia algo muito profundo, incomum, nos dois filmes – e OPERAZIONE PAURA realmente mudou a minha vida, ao me mostrar como o cinema podia ser utilizado para expressar o lado metafísico da vida. Eu escrevi meu primeiro texto como profissional da crítica para o CINEFANTASTIQUE, algumas semanas depois de ver o filme. Ao final das sessões, eu não conseguia me lembrar deles como costumava lembrar de outros filmes que via – pensar neles era mais como tentar lembrar de um sonho ou de um pesadelo que tive.

    Bava - Entrevista com o crítico norte-americano Tim Lucas, especialista na obra de Mario Bava

    O– Meus filmes favoritos dele são: “O Alerta Vermelho da Loucura” e “Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto”. Quais são os seus favoritos? E as razões?

    T – Eu tenho uma resposta complexa. Acredito que ITRE VOLTI
    DELLA PAURA e SEI DONNE PER L’ASSASSINO são seus trabalhos mais requintados. No entanto, OPERAZIONE PAURA é meu favorito absoluto, pelas razões que já afirmei – uma pequena joia muito preciosa. Chamar algo de favorito é isolar ele, prefiro considerar o trabalho de Bava como uma galeria de maravilhas, ao invés de citar uma única obra-prima. Gosto demais dos dois que você citou, são muito inventivos estilisticamente, de maneiras que creio ainda merecem maior reconhecimento, merecem ser mais discutidos. Esses dois seguem se revelando pra mim a cada sessão, enquanto os que citei me passam uma impressão de que já foram plenamente discutidos.

    O – Uma pergunta fora do tema, mas relevante à nossa função na sociedade. Você acha que a crítica de cinema profissional está em extinção? Como podemos combater o interesse cada vez menor do público em ler textos com mais de três parágrafos?

    T – Há muitos, muitos tipos de profissionais da crítica de cinema. Tem aqueles que escrevem sobre filmes porque acham que é uma vida fácil, e tem outros – como eu, como você, Octavio – que escrevem sobre filmes porque é um trabalhão danado! Fazemos isso porque é uma maneira de conhecer melhor a nós mesmos, e de nos tornarmos indivíduos mais conscientes. Toda forma de arte é um espelho, mas como em ORPHEE, de Cocteau, os espelhos são portais para uma rede de conexão que nos conduz aos nossos espíritos guias. Desde o início do tempo, existiram os sonâmbulos e os cognoscenti (pessoas que possuem um conhecimento profundo sobre algo específico). Ambos morrem, e existem argumentos sobre qual dos dois aproveita melhor sua vida – porque viver não é apenas estar consciente, mas estar ativo e com disposição para aventuras. Creio que o que estou tentando dizer é que os críticos de cinema verdadeiramente dedicados continuarão a escrever, não importa a forma como serão publicados, algo que hoje em dia não é mais um problema, todos tem voz com a internet. Talvez essa seja a lição que se deve tirar com a vida – a importância de continuar fazendo o que gostamos, aquilo que nos define, sem pensar em remuneração, até mesmo sem pensar em um público. Acredito que o bom trabalho sempre encontrará resposta.

    O– Tim, obrigado pelo generoso tempo dedicado em cada resposta. Por gentileza, deixe uma mensagem especial para meus leitores, os cinéfilos brasileiros dedicados.

    T – Uma das minhas memórias mais estimulantes da cinefilia adolescente foi, creio, por volta dos 10 anos de idade, vendo um trailer de ORPHEU NEGRO, de Marcel Camus. A música e as cores explodiam da tela, mostrando um mundo tão diferente do meu, que eu poderia pensar serem cenas da vida em Netuno ou Júpiter. Esperei um longo tempo para que o filme viesse ao meu cinema local, mas nunca aconteceu. Por anos depois, eu acordava de vez em quando com a lembrança daquele trailer na minha consciência. Eu finalmente consegui ver o filme, muitos anos depois, pela primeira de muitas vezes – e graças a isso, o Brasil reside em um lugar muito especial em minha consciência criativa, particularmente a minha consciência musical, já que amo samba e bossa nova. Eu sempre escuto quando estou escrevendo. Além disso, o Brasil parece ser o lar de uma emoção que sempre me inspira a escrever, sempre respondo de forma muito emocional na arte, a emoção chamada “saudade”. Eu sinto isso quando vejo o cinema brasileiro, ou a Nouvelle Vague francesa, ou quando escuto uma canção como “Telstar”, dos The Tornadoes – um sentimento que esses elementos abstratos são meu verdadeiro lar. Obrigado, Octavio, pelo convite e pelas perguntas muito interessantes.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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