“Ave, César!”, de Joel e Ethan Coen

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    Ave, César! (Hail, Caesar! – 2016)

    Livros como “Moviola”, de Garson Kanin, e “Fedora”, de
    Thomas Tryon, conduziam o leitor para as engrenagens da indústria
    cinematográfica norte-americana da era de ouro dos grandes estúdios,
    desconstruindo habilmente a fábrica de mitos. Com “Ave, César!”, os irmãos Coen
    arriscaram esse mesmo nicho de público, aqueles cinéfilos dedicados com estofo
    cultural no tema, conscientes de que muitos espectadores poderiam se sentir
    como penetras em uma festa de desconhecidos. Essa coragem autoral,
    desestimulada naturalmente pelas exigências de mercado, confirma a importância
    dessa dupla no cenário atual pós-apocalíptico de baixa criatividade em
    Hollywood. O roteiro é ambientado na década de cinquenta, período fascinante em
    que a teatralidade dominava todos os setores da sociedade, traçando um paralelo
    inteligente dessa realidade com o elemento essencial da glorificada farsa
    exibida na tela grande da sala escura.

    O espetáculo dos épicos bíblicos, recurso mais eficiente dos
    produtores da época na tentativa de retirar jovens e adultos da frente dos
    televisores, coerentemente toma papel de destaque na trama, com a simbologia do
    subtítulo: “Um Conto de Cristo”, copiado de “Ben-Hur”, representando a
    alienação ideológica daqueles que movimentam financeiramente o negócio. Ao comandar
    uma reunião em seu escritório com dignitários de várias vertentes religiosas,
    estranhos sem autoridade naquele templo, para checar se estão sendo respeitados
    os aspectos teológicos da obra, o esforçado executivo não consegue esconder a
    estupefação, os líderes se mostram incapazes de chegar a um acordo sobre os
    detalhes mais simples a respeito da figura de Jesus. As discordâncias são
    radicais, o tom das vozes aumenta exponencialmente na discussão dominada por
    frases feitas e conceitos memorizados, fica evidente que estamos diante de
    personagens tão caricatos quanto os que nascem das mentes dos roteiristas. A
    teatralidade no sistema religioso retorna nos encontros do executivo com o
    padre na cabine de confissão, na forma displicente com que o sacerdote redime
    os pecados ministrando “quatro Ave-Marias”, como doses de um placebo
    homeopático.

    A doçura sorridente que a nadadora exibe em suas
    coreografias aquáticas que encantam as famílias, símbolo de inocência
    comercializada, ilusão que se desfaz após a filmagem ser interrompida,
    revelando uma personalidade grosseira, uma atriz cínica que esconde a gravidez
    com a ajuda do estúdio por não saber quem é o pai. A teatralidade que forja
    imagens mentirosas alimentadas pela indústria da fama, representada pelas
    gêmeas jornalistas que disputam o furo da notícia. Ao fazer delas irmãs
    idênticas, o roteiro evidencia a ausência de escrúpulos que move essa atividade.
    O sequestro do ator veterano pelo grupo de roteiristas comunistas, confortáveis
    em um salão elegante, ressaltando a teatralidade política, a farsa de um
    movimento que utiliza o proletariado como bengala até conquistar o poder. Um
    deles é encontrado dormindo ao tentar ler uma revista intitulada: “Vida
    Soviética”. A paranoia que possibilitou o macarthismo é trabalhada também na
    absurda sequência do submarino, uma solução visual divertida para mostrar como
    era ingênua a forma de pensar do povo, amedrontado por uma ameaça tão teatral
    quanto aquela lua pintada no cenário do filme do vaqueiro cantor, ou a antinatural
    dança dos marinheiros sobre as mesas do bar. A vida real é fundamentada em
    fantasias tão impressionantes quanto as mirabolantes ideias que movimentam a
    indústria de cinema.

    * Texto escrito para o catálogo da Retrospectiva “Irmãos Coen – Duas Mentes Brilhantes”, exibida de 16 a 31 de Agosto de 2016, no Cine Sesc Palladium, em Minas Gerais.

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    Octavio Caruso
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