Faces do Medo – J-Horror (filmes de horror japonês)

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Audição (Ôdishon – 1999)

Após a morte da esposa, um executivo é convidado pelo amigo cineasta a participar da escolha de uma atriz. O viúvo se interessa por uma bela e misteriosa candidata.

Sem estragar a experiência de quem ainda não viu o filme, qualquer revelação nesse caso é prejudicial, afirmo que o terceiro ato perturba o espectador em um nível poucas vezes atingido pela indústria, creio que pode ser comparado a obras como “Violência Gratuita”, de Haneke, ou “Possessão”, de Zulawski. O impacto é grande porque o roteiro subverte a expectativa levantada durante o primeiro ato, esse é o toque de genialidade, somos conduzidos inicialmente pelas convenções de uma comédia romântica, que logo ganha tons melodramáticos, depois o diretor Takashi Miike flerta com o suspense e desorienta a percepção abandonando o conceito da linearidade, até encaminhar a trama para um desfecho extremamente repulsivo que parece saído diretamente dos arquivos da deep web. O leitmotiv da solidão na multidão da selva de pedra eleva a qualidade do discurso e dá contornos poéticos para a violência, a desesperança inevitável ao constatar que nenhum escritor de literatura fantástica será capaz de criar um monstro tão cruel quanto o próprio ser humano.

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Hausu (1977)

Garota briga com o pai e decide passar umas férias na casa de sua tia com suas amigas, porém a casa é mal assombrada pelo fantasma da tia.

Um dos meus pecados cinematográficos era não ter visto “Hausu”, já havia lido muito sobre ele, mas a fita nunca foi lançada em VHS, ou DVD, e na época do auge do garimpo na internet eu não encontrei uma boa cópia dele com legendas em inglês. Graças ao trabalho maravilhoso da “Versátil”, a curadoria altamente competente do Fernando Brito, consegui saciar essa curiosidade. E devo confessar que estou completamente apaixonado pelo filme. Vi duas vezes na mesma noite. Não dá pra descrever a trama sem desvalorizar a força estética dessa pérola do diretor Nobuhiko Obayashi, o importante é você entrar no clima
proposto e se preparar para ser surpreendido a cada sequência. A trilha sonora de Asei Kobayashi e Mickie Yoshino capta perfeitamente o tom da história, um conto de casa mal assombrada que se descortina através do imaginário de uma criança, a ideia partiu da filha pequena do diretor. Os variados efeitos utilizados, cenas que ultrapassam os limites da imaginação, são propositalmente cartunescos e pensados para enfatizar a irrealidade nas situações, quase como se fossem o resultado de um trabalho artesanal infantil. Basta dar uma olhada em algumas tiradas bizarras de Sam Raimi em “Evil Dead 2” para perceber que ele bebeu dessa fonte. As sete meninas, cada uma simbolizando estereótipos de diferentes aspectos de personalidade, são cativantes. Obayashi ousou ir contra a tradição dos respeitados mestres do cinema japonês, não se levou a sério como os contemporâneos da “nova onda” da década de sessenta, por conseguinte, criou uma peça única, ousada e rebelde, que seguirá radicalmente irreverente até mesmo se for exibida para um grupo de jovens descolados em 2100.

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A Cura (Kyua – 1997)

Um policial complexado investiga uma série de crimes violentos praticados por pessoas que não se lembram do que fizeram.

O filme de Kyioshi Kurosawa, que não tem qualquer parentesco com o mestre Akira, é a superior resposta japonesa para o norte-americano “Se7en”, que havia tomado o mundo de assalto dois anos antes, uma experiência lenta, atmosférica e revisionista no subgênero serial killer, com maior interesse no desenvolvimento calculado do suspense, reforçado por personagens tridimensionais cujas atitudes são verdadeiramente imprevisíveis, do que em explorar criativamente os elementos de terror. O resultado é classudo e perturbador, com o gore reservado para poucos e bons momentos. A grande sacada do roteiro é incitar o
espectador a questionar a sanidade de seu cotidiano considerado “normal”, forçando a identificação dele com os assassinos comuns apresentados, que exercem funções básicas na sociedade, uma visão que distorce a percepção da realidade e traz desconforto a cada revelação do detetive vivido por Koji Yakusho.

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Inferno (Jigoku – 1960)

Um grupo de pecadores envolvidos em casos interligados de assassinato, vingança e adultério encontram-se nos Portões do Inferno.

A obra-prima do diretor Nobuo Nakagawa, filmada quase que inteiramente com recursos próprios, trabalha o conceito religioso do inferno pelo viés budista que o divide em oito categorias, estabelecido inicialmente de forma didática na sequência que mostra o professor Yajima lecionando na faculdade de teologia. A primeira hora do filme é dedicada às razões que conduziram os personagens ao pecado, até que no terceiro ato o roteiro se entrega ao simbolismo apavorante de cenas verdadeiramente repugnantes, sadismo insano no Naraka (purgatório budista), o horror como ninguém na indústria havia realizado
até aquele momento. É o nascimento do gore pelas mãos do estúdio Shintoho, que abriu falência após o lançamento. O chamado “ero guro nansensu” (erótico grotesco nonsense) voltaria a ser o fio condutor de filmes como “Audição” e “Battle Royale”. Sete anos depois, o brasileiro José Mojica Marins evocaria sua visão do inferno colorido em “Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver”.

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Onibaba – A Mulher Demônio (Onibaba – 1964)

Japão, século XIV. Duas mulheres vivem de matar samurais e vender seus pertences. Porém, um dia uma delas encontra um misterioso samurai com uma máscara bizarra.

Kaneto Shindo, cuja filmografia sinaliza o interesse nos efeitos psicológicos da destruição atômica nos sobreviventes, faz com “Onibaba” uma menos óbvia alegoria do trauma de Hiroshima, algo que vai além da maquiagem do rosto desfigurado após a retirada da máscara demoníaca, visual que foi trabalhado pela equipe técnica com base em fotos de pessoas afetadas pela explosão. O sucesso de “Godzilla”, lançado dez anos antes, indicava a preferência do espectador japonês por lidar com a ameaça de monstros fantásticos alegóricos, ao invés de analisar o evento por um microscópio realista. O samurai mascarado representa o agente da guerra, ele se vangloria de sua beleza desconcertante, a mentira no discurso que arregimenta jovens idealistas em um sistema podre, mas esconde cicatrizes horrendas por trás da máscara. O conflito defendido pelo samurai foi o responsável por deixar a mãe em estado de pobreza extrema, sem possibilidade de trabalhar, foi o causador indireto da morte do filho. Ela sobrevive de pilhar outros como ele, mas precisa da força bruta da jovem nora. Quando a garota insinua querer largar
aquela realidade e fugir com um amante, a mãe se desespera. A máquina da guerra, o verdadeiro “demônio” a ser combatido, encontra identificação na mãe, que não teria meios de sobreviver no ambiente sem a utilização da mão de obra jovem.

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O Gato Preto (Yabu no Naka no Kuroneko – 1968)

No Japão medieval, um espírito vingativo mata samurais em um vilarejo. Enviado para enfrentar a força invisível, um famoso guerreiro terá que enfrentar seus demônios.

Assim como em “Onibaba”, o roteirista/diretor Kaneto Shindo ambienta a trama no conturbado período Sengoku, com o horror sendo despertado diretamente do sofrimento do povo com a guerra civil, mas, ao contrário do já citado, deixa de lado as influências do neo-realismo italiano e estabelece desde o início seus alicerces oníricos, abraçando com menos timidez os elementos do gênero. O clima de pesadelo é construído com a ajuda de técnicas de iluminação e interpretação utilizadas no teatro Nô, numa combinação perfeita com uma edição nada convencional, resultando em algo que desorienta os sentidos do espectador. Vale ressaltar a mensagem crítica contra o paternalismo na sociedade japonesa, simbolizada pela vingança das mulheres, uma resposta feminista para o cinema samurai da época.

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* Os filmes, com excelente material extra, estão sendo lançados em DVD pela distribuidora “Versátil”, com a curadoria sempre competente de Fernando Brito, no digistack “Obras-Primas do Terror 5”, em venda exclusiva com a Livraria Saraiva.

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Octavio Caruso
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