Quando escrevemos sobre filmes, livros, música, arte em
geral, adentramos em um universo de pura beleza regido pelas plenas
potencialidades da inteligência, tentando extrair reflexões lúdicas e que
inspirem o ser humano no constante aprimoramento. Escrever sobre política no
Brasil em tempo de eleição é, infelizmente, nada estimulante. Esse jogo de
assessores engravatados, que envolve agressões, difamações públicas, mentiras,
um sistema falido que se mantém apenas pela obrigatoriedade do voto, uma
verdadeira aberração em uma nação que se diz democrática. Até mesmo alguém que
não sabe sequer argumentar algo que se assemelhe a um raciocínio lógico, com a
máquina política atuando, pode se tornar o candidato mais votado à presidência.
Nós acabamos de ver o final dessa história. E, por incrível que pareça, aquele
que sabe se expressar e possui estofo político e cultural, pode aparecer em
último nas pesquisas. E, completando essa esquisita equação, a urna eletrônica
não é segura, tendo sido rejeitada em mais de sessenta países. Holanda e
Alemanha, por exemplo, consideram essas urnas “criminosas”. O eleitor consciente é obrigado a escolher o candidato que é
menos terrível, já que as rasas opções refletem o trambique que rege esse
sistema, que nutre esse círculo vicioso de corrupção.

Numa realidade mais séria e lúcida, o voto consciente seria
conquistado pelo político que tivesse conseguido argumentar os motivos que o
tornam, por meritocracia, o candidato certo. Ao invés de programas televisivos
melodramáticos maquiados no horário eleitoral, com um roteiro pobre já
desgastado, jingles e figurantes em cenas constrangedoras, os políticos agiriam
sem roteiros analisados previamente pelos assessores, debatendo temas
importantes com profundidade e coerência ideológica, não apenas alguns poucos
segundos de réplicas e tréplicas. E nem irei comentar sobre os alívios cômicos,
vergonha alheia suprema, que, de tão bizarros, chego a pensar que estou sob o
efeito de alguma substância lisérgica. Os debates que ocorrem nas emissoras de televisão, por
melhor conduzidos que sejam, apresentam caricaturas que parecem não saber
pensar e cruzar os braços ao mesmo tempo. Quando algum começa a falar por
impulso, agindo sem o roteiro memorizado, o tempo acaba. Os políticos precisam
falar bastante, pois eles irão, caso eleitos, receber uma fortuna, além dos maravilhosos benefícios do cargo, pelo trabalho
que intencionam realizar. Mais argumentos e coragem de questionar temas
polêmicos, menos agressões, jogo sujo e consumo populista de pastéis oleosos da
padaria do subúrbio, uma realidade que só visitam em época de eleição.

As pesquisas de intenção de voto, que mais parecem
ferramentas de indução de voto, acabam surtindo efeito desastroso numa grande
parcela da população analfabeta funcional, que decide o voto como se escolhesse
o cavalo vencedor na corrida. “Ah, não vou votar no político X, ele não tem
chance de ganhar”. Ganhar? Conceito equivocado. Eleição não se ganha, não é
loteria ou luta de boxe. O tolo teme votar naquele que a pesquisa diz que irá
receber menos votos, pois se sentiria como se tivesse apostado no cavalo
errado. Sua escolha não é ditada pelo estudo das propostas e da argumentação do
candidato. Analisando filosoficamente, como um sistema tão falho como
esse, em uma nação carente de educação e princípios, pode resultar em algo
minimamente válido? É humanamente impossível.

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