Destaques do “Festival do Rio 2016”

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    Sieranevada

    A longa duração, quase três horas, pode afastar o público em
    um festival com tantas opções, mas quem der uma chance a “Sieranevada” será
    recompensado pelo diretor romeno com uma aula de narrativa minimalista,
    ambientada quase que toda dentro de um apartamento, uma das melhores
    experiências que tive até o momento, aquele tipo de roteiro que fica martelando
    em sua mente horas depois da sessão. Como crítico e cineasta, sempre valorizei
    o filme de câmara, então eu aplaudo o resultado obtido por Cristi Puiu, que já
    havia me encantado em 2005 com o brilhante “A Morte do Sr. Lazarescu”.

    O senso de humor não convencional é pacientemente trabalhado, as sequências se
    desenvolvem praticamente em tempo real, o que permite um senso de intimidade
    imediato com os personagens. O título propositalmente nonsense potencializa o
    absurdo da vida, a falta de sentido. A trama inicia mostrando a reunião de
    familiares no apartamento em honra à memória de Emil, marido da sexagenária
    dona da casa, falecido quarenta dias antes. Esses estranhos para o espectador,
    que ocupa um lugar de destaque voyeur, discutem assuntos genéricos, são levados
    pelo álcool a revelar verdades constrangedoras, demonstram insegurança,
    constrangimento e arrogância, desfilam argumentos revoltantes e banalmente inofensivos
    sobre temas polêmicos como o ataque ao Charlie Hebdo, ou teorias de conspiração
    sobre o ataque ao World Trade Center, mas sempre com credibilidade, o elenco é
    afinado. Conhecemos esses personagens na medida em que analisamos as reações
    deles nas mais tolas discussões, variadas situações aparentemente menores que
    estabelecem metáforas preciosas, como a do alimento que nunca é servido.

    O trabalho de câmera parece querer induzir um estado de anestesia no
    espectador, sem dinamismo, o que pode ser terrível para os mais ansiosos, Barbu
    Balasoiu reflete nas escolhas o desejo contemplativo do diretor. A mensagem
    mais forte é a de que, por mais desejo que a pessoa tenha em se destacar, por
    mais radicalmente oposta ideologicamente aos seus amigos e familiares, há nela
    um interesse maior em ser identificada como parte do coletivo, uma necessidade
    vital que a obriga a rejeitar certas verdades absolutas e defender discursos
    vazios como forma de funcionar em sociedade. O que nos define é a capacidade
    para o “jogo de cintura”.

    Hooligan Sparrow

    O melhor documentário que vi nesse festival, um primor em
    sua concepção e execução, segue a luta da corajosa chinesa Ye Haiyan, conhecida
    como Hooligan Sparrow, ativista contra a exploração sexual da mulher,
    enfrentando a censura do governo e a estupidez machista da sociedade. O
    registro, por vezes, precisa vencer obstáculos, com a diretora adotando
    qualquer meio possível para flagrar as situações, uma tática do jornalismo de
    guerrilha, o que injeta um nível maior de emoção à filmagem, resultando em
    momentos verdadeiramente perturbadores.

    A diretora Nanfu Wang parte de um caso de pedofilia ocorrido em uma escola
    em 2013, para explorar a absurda impunidade garantida em grande parte pelo
    silêncio criminoso das forças policiais. É impressionante constatar como as
    autoridades tentam de tudo para impedir o trabalho daqueles que lutam para
    revelar ao mundo as atrocidades cometidas internamente. Como deter algo que
    parece estar enraizado na cultura do povo? Lá, a cultura do estupro não é frase
    de efeito usada como cortina de fumaça política, mas uma realidade intimidadora
    e deprimente. As inserções quase bucólicas mostrando um pouco mais da origem rural
    de Haiyan, ainda que quebrem consideravelmente o ritmo e revelem pouco sobre a
    ativista, funcionam como necessário respiro para o espectador. O desfecho
    ambientado em um museu é de uma tremenda beleza poética, representando a força
    daquela que resiste.

    Um filme importante e que deveria ser abraçado pelo grande
    público, caso os documentários fossem respeitados e recebessem lançamentos
    dignos em nossas salas de cinema.

    Capitão Fantástico (Captain Fantastic)

    Viggo Mortensen é um dos melhores atores de sua geração,
    “Capitão Fantástico” é mais uma pérola em sua filmografia, prejudicada apenas
    pela mão pesada do roteirista/diretor Matt Ross, um problema que poderia ser
    amenizado com uma edição mais severa, o que reforçaria o impacto de algumas
    reflexões propostas, já que o segundo ato arrastado quebra o bom clima que
    havia sido estabelecido. Viggo vive um pai que decidiu se isolar com seus seis
    filhos longe da sociedade, uma vida idílica na floresta, longe do consumismo e
    de dogmas religiosos e, por conseguinte, longe da cultura do medo e da culpa,
    campo fértil para que ele tente transmitir para eles os valores que ele
    considera mais importantes, na tentativa de formar seres humanos melhores e
    mais conscientes de suas responsabilidades.

    A trama pode parecer a de uma despretensiosa “Sessão da Tarde”, mas o roteiro
    entrega reviravoltas bastante criativas. Após um evento traumático, a família é
    forçada a deixar essa zona de conforto e enfrentar a realidade urbana, gatilho
    que desperta questões existenciais relevantes, especialmente na figura paterna,
    ainda que falte sutileza na abordagem dessas transformações pessoais. O
    protecionismo que conduziu um dos filhos à dedicação extrema nos estudos também
    o tornou socialmente inseguro, o espectador é levado até mesmo a se revoltar
    com algumas atitudes do pai, mas a interpretação primorosa de Mortensen
    enriquece as várias camadas de sua construção, salientando que a força motriz
    de suas ações é genuína e amorosa. Um bonito filme que merece atravessar a
    fronteira do festival e ser abraçado pelo grande público.

    O Túnel (Teo-neol)

    Os melhores filmes de desastre são aqueles que se preocupam
    em estabelecer bem a empatia do espectador com as vítimas das tragédias, algo
    que poucas vezes acontece. “O Túnel”, do sul-coreano Kim Seong-hun, apesar de
    abusar da paciência do espectador com cerca de meia-hora de redundante gordura
    extra, o roteiro oferece uma situação realmente angustiante para o protagonista
    que se vê preso em seu carro após o colapso de um túnel. Os movimentos de
    câmera ajudam a transmitir o senso de claustrofobia, sem a necessidade de apelar
    exageradamente na redução cênica, mas o interesse do diretor está mais focado nas
    consequências externas do evento, como no brilhante “A Montanha dos Sete
    Abutres”, de Billy Wilder.

    É interessante a forma como a trama insere uma crítica
    poderosa ao tratamento da tragédia dado pela mídia e pelos políticos, a absurda
    ausência de humanidade que rege a espetacularização do sofrimento alheio, assim
    como a constatação de que o indivíduo se torna dispensável quando o que está em
    jogo é a imagem de um governo, além da criminosa irresponsabilidade dos executivos
    envolvidos diretamente no desastre. Vale destacar também a excelente atuação de
    Doona Bae, que vive a esposa da vítima, figura que ajuda a manter o tom de ameaça
    que a trama frequentemente arrisca perder ao apostar em alívios cômicos tolos.

    A indústria norte-americana no gênero tem muito a aprender
    com o refinamento dessa obra.

    Sob a Sombra (Under The Shadow)

    Estreando em longas-metragens com essa pérola do terror, o
    roteirista/diretor iraniano Babak Anvari demonstra grande talento ao subverter
    as convenções do gênero, apostando na construção de clima e fazendo uso
    inteligente de referências. Enxerguei claramente “O Babadook” na linha temática
    de proteção materna, mas é “Repulsa ao Sexo”, de Polanski, que garante os
    melhores esforços criativos visuais, na utilização do cenário como alegoria
    para a perturbação psicológica da mãe que acredita que sua filha está sendo
    possuída por espíritos malignos.

    O ambiente externo dos últimos momentos da guerra Irã-Iraque, no final da
    década de oitenta, providencia sensorialmente os estímulos para que os monstros
    humanos que explodem bombas do lado de fora da casa ajam em conluio
    inconsciente com as manifestações paranormais internas. Os vizinhos vão
    abandonando o local, a solidão inerente a qualquer conflito dessa magnitude, a
    constatação de que a morte pode chegar a qualquer momento, um sentimento que
    faz ruir o frágil emocional da criança, refletido nas metafóricas rachaduras
    das paredes e nos constantes lamentos que são escutados pela casa, como se a
    sociedade estivesse chorando seus mortos.

    A mãe, altamente racional, inicialmente vê o medo da filha como uma tolice
    alimentada pela mitologia do Oriente Médio, a direção de arte trabalha algumas
    simbologias nesse sentido, mas o roteiro inteligentemente também está
    interessado em ser eficiente como horror, então a ideia do djinn ser a visão
    infantil inocente para os perigos reais da guerra se mantém em segundo plano,
    garantindo um terceiro ato verdadeiramente apavorante. Esse ano está sendo
    espetacular para o gênero, “Sob a Sombra” é impecável.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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