TOP – 2010

1 – A Fita Branca (Das Weiße Band – Eine Deutsche Kindergeschichte), de Michael Haneke
“… Haneke vai fundo em sua tese sobre a raiz do mal estar
no próprio ser humano, sem distinção alguma, mostrando que a única coisa que
muda é o gatilho, a motivação, mas a fragilidade do caráter acolhe graciosamente
a corrupção dos valores, o que mantém o homem íntegro é sua capacidade de
administrar seus impulsos, canalizar essa força nas situações certas. A fita
branca da pureza esconde a hipocrisia mais suja, a torpe sociedade que parece
se alimentar de monstros, o ovo da serpente. Mais do que uma alegoria à gênese do
nazismo, pensamento reducionista, o roteiro provoca o confronto do espectador
com o reflexo do espelho, apontando o dedo para as raízes do totalitarismo, o
moralismo mentiroso das crenças religiosas, os rituais seguidos sem
questionamento, a inevitável desumanização do homem ao abraçar sorridente a
manipulação social…”


2 – Ilha do Medo (Shutter Island), de Martin Scorsese

“… A grande questão do filme não é o truque, a surpresa do
final, mas a forma elegante como Scorsese elabora cada ponto do enigma, a ilha
como metáfora para a mente destroçada do protagonista, com alas da memória que,
por defesa instintiva, ele é incapaz de acessar, uma fantasia noir como
projeção de uma realidade apavorante. E o roteiro trabalha esse tema com a mesma
inconsequência raivosa de Samuel Fuller em “Paixões Que Alucinam”. A trilha
sonora grandiosa no início evidencia o elemento da teatralidade, algo que ganha
ponto em revisão…”


3 – Mother – A Busca Pela Verdade (Madeo), de Joon-Ho Bong
“… A sequência inicial mostra uma senhora dançando de
maneira quase perturbadora, nada parece fazer sentido, o leitmotiv da
irracionalidade de uma mãe para proteger sua cria é estabelecido sem qualquer
diálogo expositivo. O filho tem problemas mentais, novamente a razão sendo
subjugada pelo instinto, uma condição que potencializou nele a dependência em
todos os sentidos, encontrando resposta imediata na carência da solitária mulher.
Ao ser acusado de um estupro seguido de assassinato, o rapaz vai preso e sua
mãe inicia uma batalha para provar sua inocência. O roteiro inverte expectativas,
subverte a estrutura do suspense clássico com uma segurança rara…”


4 – A Origem (Inception), de Christopher Nolan
“… O conceito, por si só, já merece crédito, mas o esforço
hercúleo de Nolan para manter o refinamento da trama equilibrado com as
necessidades mercadológicas de um produto mainstream, sem nesse processo subestimar
o espectador, evidencia a competência do realizador. Ao se desviar de respostas
fáceis, atitude claramente simbolizada na impactante cena final, o roteiro, que
homenageia os grandes “filmes de assalto”, explora as infindáveis
possibilidades do inconsciente humano filosófica e visualmente. A execução do
conceito, apesar do esperneio dos pseudointelectuais, pode ser considerada uma
enriquecedora aula para todos, especialmente os cineastas brasileiros, de como
produzir entretenimento inteligente e altamente eficiente, essencialmente
industrial, mas com pegada experimental…”



5 – Toy Story 3, de Lee Unkrich

“… A animação utiliza os personagens de forma mais
inteligente que suas versões originais, garantindo tremendo impacto emocional,
um desfecho que sinaliza a beleza de um roteiro que acompanhou a maturidade do
público e recompensou a atenção dos pais. A trama se desenvolve pela ótica
nostálgica da infância, mas o foco está no sentimento da solidão, do abandono,
tendo o necessário resgate da inocência como fio condutor da aventura escapista
dos bonecos. A Pixar consegue um feito raríssimo, uma trilogia verdadeiramente
impecável…”


6 – O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos), de Juan José Campanella
“… Campanella consegue mais uma vez entregar uma pérola
que, provavelmente, será copiada pelos realizadores norte-americanos. Um filme
policial sem ação, de baixo orçamento, variadas camadas de interpretação, uma
atuação impecável de Ricardo Darín e um desfecho surpreendente. Revelar mais
seria prejudicar a experiência do espectador…”



7 – Enterrado Vivo (Buried), de Rodrigo Cortés

“… Só o fato de conseguir criar noventa minutos de tensão ininterrupta com apenas um ator dentro de um caixão, um ator mediano, vale salientar, já seria mérito suficiente para esse filme de estreia do diretor Cortés constar nas listas de melhores do ano. Mas ele ainda tem algo interessante a dizer sobre a ocupação norte-americana no Iraque…”



8 – O Profeta (Un Prophète), de Jacques Audiard
 “… O roteiro
trabalha muito bem o xenofobismo entre árabes e corsos, sendo a prisão, com seu
sistema corrupto e truculento, um microcosmo para os problemas políticos da
França. Se a desnecessária subtrama sobrenatural enfraquece o resultado, o
tratamento dado aos personagens compensa qualquer problema…”


9 – O Concerto (Le Concert), de Radu Mihaileanu
“… O diretor Radu Mihaileanu cria uma comédia farsesca que
trata de um tema muito sério. Ele aborda com leveza e de forma mais popular e
eficiente, algo que Fellini procurou expressar em seu “Ensaio de Orquestra”,
uma ode à anarquia. O protagonista, vivido por Aleksey Guskov, que passa seus
dias como faxineiro limpando o ambiente do teatro, que outrora reverberava ao
apaixonante som de sua arte, vive do desejo incontido de voltar a reger sua
orquestra, numa incessante busca pela harmonia perfeita, interrompida
bruscamente quando foi vítima de seu próprio íntegro caráter. Por outro
lado, o roteiro nos apresenta uma jovem que representa simbolicamente um futuro
ideológico mais esperançoso (antitotalitarista) para o país, a violinista
Anne-Marie Jacquet, vivida pela bela Mélanie Laurent…”


10 – Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, de José Padilha

“… O primeiro filme explodia na cara do espectador como espingarda,
o segundo é como aquele disparo de projétil dundum que penetra no corpo e causa
maior estrago. A reflexão crítica que o roteiro propõe é o elemento que faz
dele um produto superior, o inimigo deixa de ser o criminoso violento, mas, sim,
o sistema podre que rege a sociedade em que ele está inserido…”

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