“Star Trek: Sem Fronteiras”, de Justin Lin

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    Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond – 2016)

    Ao analisar esses novos projetos da franquia, muito
    eficientes naquilo que se propõem a entregar, não dá pra negar que os três
    roteiros juntos não arranham a superfície de possibilidades que a criação de
    Gene Roddenberry representa para o gênero da ficção científica. Havia tolice,
    humor bobo e ação irrelevante na série clássica, mas até mesmo os episódios
    mais ingênuos terminavam incitando alguma reflexão interessante. Esse espírito
    foi captado nos melhores filmes com a tripulação original, tramas que
    equilibravam bem os aspectos mais leves da relação entre os personagens, com a
    reflexão que abusava de referências a várias vertentes artísticas e a
    necessidade mercadológica de se construir sequências empolgantes de ação. O
    mercado hoje, infelizmente, está bem diferente.

    Os adolescentes são o
    público-alvo da indústria, são eles que compram ingressos, facilmente
    manipulados em estratégias de marketing, respiram o hype como se não houvesse
    amanhã, imediatistas e, com raras exceções, com pouquíssimo senso crítico. Então
    é compreensível que a cena em que Magro (Karl Urban) faz um brinde desejando
    boa visão e uma cabeça com muito cabelo, teoricamente uma alusão à consciência
    da mortalidade, acabe soando forçada. A ideia é boa, funcionaria com um elenco
    mais velho, funcionava muito bem nos filmes antigos, ornava poeticamente com os
    cabelos grisalhos, mas a equipe da nova Enterprise não parece ter muito mais
    que trinta anos. A indústria precisa que os adolescentes se identifiquem com os
    heróis, então todos os personagens agem e falam como a garotada. As tiradas
    cômicas soariam confortáveis nas bocas de alunos do fundo da sala, o título
    poderia ser: a turma da bagunça no espaço. A estrutura é frenética, com pausas rápidas
    para que a trama avance um pouco, mas nada muito elaborado, pra que o
    adolescente na sessão não sinta vontade de checar seu smartphone. O resultado,
    ainda que divertido, frustra demais o público adulto que gosta de ser
    minimamente desafiado. A banalização da ação, especialmente da forma como o
    diretor Justin Lin a constrói, abusando de giros de câmera, anestesia os
    sentidos, nivela tudo como barulho irritantemente alto, as sutilezas são
    imperceptíveis, em suma, você escuta o show encostado na caixa de som.

    Quando a
    trama injeta homenagens a Leonard Nimoy, parece que pai do adolescente no
    comando tomou as rédeas, o filme se torna mais orgânico, mais real, sentimos a
    emoção sincera na entrega de Zachary Quinto, sentimos saudade quando ele
    encontra uma foto da tripulação em “Jornada nas Estrelas – A Terra Desconhecida”,
    nesses momentos eu consigo enxergar o potencial desperdiçado. Quando a nave foi
    destruída em “À Procura de Spock”, o mundo inteiro comentou, os fãs custaram a
    acreditar que os produtores tinham ousado tanto. Já em “Sem Fronteiras”, a nave
    é destruída, você mastiga a pipoca, ela é reconstruída em fast forward no
    desfecho, você toma o último gole de refrigerante, duas horas depois você nem se
    lembra da motivação do vilão. Krall (Idris Elba) visualmente é impactante, mas
    em essência não passa de um monstro dos Power Rangers. O terceiro ato tenta
    enriquecer a personalidade dele, mas a história é sufocada pelo barulho, com o Capitão
    Kirk (Chris Pine) se exibindo em peripécias que constrangeriam James Bond e
    Ethan Hunt. É impressionante como ainda não conseguiram resgatar o lado
    estrategista do personagem, ele se tornou um genérico herói de blockbuster.

    O
    conceito por trás do título original é engenhoso, a metáfora do “além” como
    jornada de autoexploração individual, com cada personagem principal sendo
    forçado a enfrentar seus conflitos internos e amadurecer, mas o roteiro de
    Simon Pegg e Doug Jung, por mais espirituoso que seja em seu tom cômico, não consegue estabelecer uma base sólida para que o
    conceito seja transmitido, não vai além de alguns preguiçosos diálogos
    expositivos.

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    Octavio Caruso
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