“Quanto Mais Quente Melhor”, a obra-prima de Billy Wilder

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Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot – 1959)

Uma boa comédia é atemporal, o texto segue eficiente, a atuação soa natural, você investe emocionalmente na trama repetidas vezes, sabendo o desfecho, mas sua mente embarca nas desventuras dos personagens como se fosse a primeira sessão. “Quanto Mais Quente Melhor” é a definição perfeita da atemporalidade cinematográfica, comandada pelo mestre Billy Wilder, repetindo a deliciosa mistura de comédia e melodrama criminal que havia marcado seu primeiro trabalho, o pouco conhecido “Semente do Mal” (Mauvaise Graine, de
1934).

Seria fácil o roteiro se debruçar no artifício cômico da inversão de gênero, seria mais fácil ainda diluir o texto para sua vertente mais vulgar, burlesca, mas Wilder e I.A.L. Diamond jamais resvalam nesse precipício criativo, o material de alto nível consegue ser também ferino enquanto crítica corajosa à tola censura. Nada é o que parece, algo que o roteiro já estabelece na primeira sequência, mostrando que um caixão funerário pode esconder um estoque de bebidas na Chicago controlada pela Lei Seca, recurso necessário para evitar os
policiais. Os músicos precisam adotar os disfarces por puro instinto de sobrevivência, após testemunharem uma chacina perpetrada por mafiosos. O conceito de espevitada sexualidade na época era Doris Day e Rock Hudson brincando ao telefone em “Confidências à Meia-Noite”, lançado no mesmo ano, enquanto Wilder debochava dos censores colocando Marilyn Monroe e Jack Lemmon, vestido como mulher, dividindo um beliche apertado em uma viagem noturna de trem.

Ela aquece os dedos dos pés roçando-os nos pés do colega. Várias sequências exalam sexualidade, não somente pela presença provocante da musa loira, mas pelo subtexto do que está sendo encenado, claro, sempre com extrema elegância. Quando Sugar Kane (Monroe) canta “I Wanna be Loved by You”, o tecido do vestido, a iluminação e o enquadramento fazem parecer que ela está nua, a atriz nunca esteve tão hipnoticamente sedutora. A personagem de Monroe, uma sonhadora cantora altamente vulnerável e sedutoramente ingênua, que luta contra o vício do álcool e já se desencantou bastante com os homens de sua vida, encontra na dupla de músicos a possibilidade de uma real amizade, a desejada cumplicidade nos bastidores dos espetáculos, algo que desperta nela uma ternura quase maternal. A doçura salientada em seu nome é uma máscara frágil que esconde tristeza e desesperança. A comédia funciona porque está fundamentada em um terreno psicologicamente maduro.

Josephine (Tony Curtis) consegue acessar a sensibilidade feminina e se torna um homem mais atencioso, ocasião perfeita para o ator brincar com a persona de Cary Grant, mas Daphne (Lemmon), deslumbrada com os paparicos de um playboy experiente, acaba cogitando a hipótese de aceitar seu pedido de casamento, situação que conduz o filme para
seu espetacular e inesquecível desfecho, o apogeu do ataque desferido por Wilder nos censores e na caretice da sociedade norte-americana.

Após tentar explicar de todas as formas que não pode consumar relação com seu admirador, Daphne desfaz o disfarce, tira a peruca e fala com sua voz normal: “Eu sou um
homem”. Osgood (Joe E. Brown), sem qualquer alteração no semblante, finaliza o argumento: “Bem, ninguém é perfeito”. A cena hoje é celebrada pelo brilhantismo, mas dá para imaginar o impacto tremendo que causou à época entre religiosos e hipócritas em geral.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

1 COMENTÁRIO

  1. Filmul l-am vazut la vremea sa , o comedie care a placut mai ales ca rolurile cheie au fost detinute de actori de clasa , Tony Curtis, Jack Lemon, Marline Monrow, … Retin textul " cand e dragoste, sexul nu mai conteaza ", sigur la acea vreme aceste uvinte socau pe multi … A mai fost redat in mai multe randuri la Cinemateca

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