“Em Nome da Razão”, de Helvécio Ratton

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    Em Nome da Razão (1979)

    Helvécio Ratton sobrevivia em Belo Horizonte na década de
    setenta fazendo filmes de publicidade, o período para o cinema brasileiro não
    poderia ser menos estimulante, ele buscava encontrar um tema importante para
    abraçar, algo que valesse o esforço absurdo de se produzir algo que não
    envolvesse pornografia. O psiquiatra italiano Franco Basaglia veio ao Brasil e
    despertou a discussão sobre a necessária reforma no sistema de saúde mental.
    Como o jovem já estudava psicologia, ele embarcou no tema e ousou realizar o
    documentário de curta-metragem “Em Nome da Razão”, filmado em apenas uma semana
    e de forma independente, denunciando as condições desumanas no Manicômio
    Colônia, de Barbacena.

    O registro é forte, as imagens em preto e branco captadas
    por Dileny Campos, auxiliado pela montagem propositalmente caótica de José
    Tavares Barros, retratam a ausência de qualquer senso de dignidade, o que se
    escuta são os lamentos angustiados dos pacientes, sem qualquer efeito de som, o
    canto desesperado do homem que repete enfaticamente o refrão da canção popular:
    “Jesus Cristo, eu estou aqui”, como se buscasse ser notado na multidão, a
    ironia do grupo de olhos distantes que entoa o Hino da Independência, uma
    crítica mordaz e espontânea, os exilados de uma sociedade que se considerava sã
    em plena ditadura militar, os loucos condenados à clausura degradante, um
    coletivo de diferentes patologias, alguns pacientes até inseridos
    equivocadamente por seus familiares, opositores políticos, prostitutas, alcoólatras,
    crianças indesejadas, homossexuais, todos aqueles que não se encaixavam na
    imagem que os dignitários da época queriam vender para o exterior, em suma, como
    bem disse o respeitado psiquiatra italiano ao conhecer o local, “um campo de
    concentração nazista”.

    O filme foi aplaudido em festivais e teve papel fundamental
    no fortalecimento do Movimento Antimanicomial. O público brasileiro, ignorando
    totalmente a situação, ficou chocado com a obra. É uma página da História que
    não pode ser esquecida.

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    Octavio Caruso
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