“Koza”, de Nuri Bilge Ceylan

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    Koza (1995)

    É fascinante o apreço de Nuri Bilge Ceylan pelo silêncio,
    que ele considera uma forma de expressão mais sincera do que o espetáculo de
    palavras usualmente lapidadas pela necessidade de se viver em comunidade. A
    essência pura, a nudez de sentimentos, a verdade que não se permite ser
    filtrada pelos plugins intelectuais, a selvageria instintiva que nos obriga a
    encarar a origem de tudo. A experiência dele como fotógrafo facilita o impacto
    da síntese imagética que propõe na simplicidade narrativa de “Koza”, o seu
    primeiro curta-metragem. Ele utiliza seus pais, Mehmet Emin e Fatma Ceylan, na
    composição desse retrato poético, sem diálogos, que pode parecer incrivelmente
    impenetrável em uma análise superficial, porém, reserva para os espectadores
    mais dedicados um sabor residual intenso e verdadeiramente agradável, apesar de
    abordar temas existencialmente espinhosos.

    A breve experiência humana como um casulo temporário, a
    sensação de se estar confinado permanentemente a um corpo frágil em progressiva
    degradação, a mórbida lucidez que cruelmente se mantém admirando o reflexo cada
    vez menos reconhecível no espelho, a dificuldade de se compreender as
    necessidades do outro, o peso do tempo nas atitudes impensadas, a dor de se
    submeter às consequências. Ao optar iniciar mostrando antigas fotografias, ele
    salienta o conceito do aprisionamento, o leitmotiv mais forte, reduzindo
    décadas de vida a momentos captados em alguns segundos por uma máquina. O ser
    humano percebido como objeto. Vemos o homem e a mulher, da vaidosa juventude,
    passando pelo ritual frio do casamento, a cumplicidade amorosa no toque dos
    braços, até o desgaste na relação, simbolizado pela separação dos corpos e
    pelos braços cruzados, refletindo insegurança diante do mundo.

    A porta que se fecha diante da esposa, cena que antecede o
    título e remete ao desfecho de “O Poderoso Chefão”, o mais próximo que chegamos
    de uma explicação sobre a razão da ruptura emocional, a perda da cumplicidade
    em algum momento do relacionamento a dois, simbologia que encontra rima visual
    numa cena posterior, como que enfatizando para a personagem a qualidade cíclica
    da desilusão amorosa, a lágrima que desce de seu rosto na cama, elemento cênico
    usualmente conectado ao desejo, o amadurecimento desfazendo naturalmente o
    ímpeto sexual da paixão e abraçando a lúcida amizade entre duas pessoas no
    crepúsculo de suas vidas. Ao potencializar conscientemente os sons diegéticos,
    como o rangido de uma porta que soa como um trovão, Ceylan demonstra seu bom
    humor e, especialmente nas sequências ao ar livre, salienta o abismo que se
    abriu entre o marido e a esposa, entre ele e a própria natureza, entre aquele
    menino despreocupado de outrora e o adulto solitário que encontra dificuldade
    para expressar um simples sorriso. É quando o filme insere a exploratória
    aventura do menino na floresta, a memória que se recusa a ser esquecida.

    O pequeno aborrecido, vivido por Turgut Toprak, caça
    pássaros com seu estilingue, mas não há sinal de alegria em seus atos, ele
    corre na grama, enquanto sua contraparte mais velha é mostrada frequentemente
    emoldurada pela janela de sua casa, escondida nas sombras do quarto,
    aprisionada em estado contemplativo, aguardando o inexorável fim. O menino se
    revolta diretamente com sua versão adulta, numa metáfora bonita, quando derruba
    o caixote com abelhas, prejudicando sem razão alguma o trabalho alheio, o
    revide do espírito vigoroso que reside no homem e que não aceita as limitações
    físicas da idade. Com o estilingue ele tenta
    obter controle, mas a implacável natureza se encarrega do trabalho, o gato é
    visto se alimentando e, no segundo seguinte, aparece morto, o vento que leva a
    foto do casal, o filhote de pato que enfrenta seu primeiro desafio ao nadar, a
    mulher que retorna para casa e se assusta ao ver a figura abatida do homem que
    amava, em suma, ele não tem poder algum.

    O reencontro apenas resgata lembranças ruins, ela é mostrada
    aprisionada com ele na moldura da janela. Incapaz de modificar aquela situação,
    ela retorna para casa. Ele tenta se aquecer na solidão de seus pensamentos, o
    fogo na madeira que ele próprio cortou, a aceitação silenciosa de que está
    vivendo as consequências de seus próprios erros. “Koza” pode tratar da amargura
    no processo de compreensão da finitude na nossa viagem pela estrada tortuosa da
    vida, mas a caligrafia sensível de seu realizador emociona ao insinuar que o
    segredo pode estar na percepção da beleza que quase sempre se perde na paisagem
    da janela do carro em movimento.

    * Texto escrito para o catálogo da Retrospectiva “Imagens da Turquia – O Cinema de Nuri Bilge Ceylan”, que foi exibida de 07 a 12 de Março, na Caixa Cultural Rio de Janeiro.

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